O episódio mais triste da história de Agents of S.H.I.E.L.D.

A partida de alguém querido nunca é algo fácil de aceitar ou compreender. Existem sempre várias emoções transbordando quando chega o momento de dizer o último adeus, mesmo quando você sabe que ele não é o fim de tudo. Em Parting Shot a dor foi muito grande e não apenas pela cena no bar, com aquela montagem em que meu coração foi praticamente arrancado do peito e colocado em um copo. Não, a grande tristeza decorrente do décimo terceiro episódio da série é a certeza de que dois personagens fundamentais para o bom andamento da produção deixarão de existir naquele “mundo”, simplesmente porque existe a possibilidade de que eles acertem onde Agents falhou, na audiência.

Marvel’s Most Wanted é exatamente o tipo de fórmula que a ABC gosta. Uma série centralizada no dilema de um casal branco, bonito e com possibilidade para ação e comédia, uma nova Alias. O problema aparece quando analisamos a audiência da série mãe, que tem caindo semanalmente desde seu retorno. Quem antes comemorava 1.7 agora está amargurando 1.0. Será que é uma boa ideia tirar da S.H.I.E.L.D. dois personagens fundamentais para o bom andamento da agência? Com certeza a resposta é não. Quem se beneficiará nesta equação com certeza é Most Wanted, que ganhou de presente Bobbi e Hunter. Já o lado de Coulson e sua equipe precisará encontrar outras formas de inserir o lado mais cômico que Nick Blood conferia a seu personagem, ou a imponência de Adrienne Palicki para Mockingbird.

Parting Shot é sim um bom episódio por vários motivos que vão além da despedida emocional entre o casal mais procurado e seus parceiros de espionagem. Toda a construção progressiva da ação dentro da base soviética ajudou a elevar a carga emocional do roteiro criado por Paul Zbyszewski. Este décimo terceiro capítulo da série funciona como a porta de saída para Bobbi e Hunter para Most Wanted, mas também delimita o tom que será utilizado na derivada. O último trabalho de Zbyszewski havia sido em Devils You Know, ou seja, uma escolha acertada para que o mesmo roteirista finalizasse a cisão iniciada entre May e Hunter no episódio que impulsionou parte do desejo do agente em sair da S.H.I.E.L.D.

A ótima química entre Hunter e Bobbi é o motivo principal para que a dupla ganhe um destaque “solo” em outra produção. Quando a série começou a pintar a oportunidade de uma derivada já estava mais do que claro que a escolhida para sair primeiro seria a Harpia. Ela foi a primeira personagem considerada para ganhar uma série própria, ao lado de Manto e Adaga e vários rumores ao redor do Cavaleiro da Lua. Mesmo sem criar um produto exclusivo para a personagem o conselho criativo, liderado por Brian Michael Bendis e Jeph Loeb, conseguiu encontrar uma maneira de introduzir a personagem em outra criação. O desejo de incluir a Harpia em um local onde o destaque seria principalmente dela finalmente foi atendido e era apenas uma questão de tempo para que o fizessem.

Claro que o ápice de Parting Shot foi a emocional despedida dentro do bar. Gosto sempre de bater na mesma tecla e acho que já até esgotei minha cota dentro das críticas de Agents of S.H.I.E.L.D., mas não tem como não repetir a velha frase de sempre aqui: a vida privada dos personagens da série impõe um envolvimento muito maior com o material proposto. Não ter momentos íntimos faz com que o telespectador não se conecte com aquelas pessoas e termina por retirar a força do roteiro. Por fazer parte de um universo maior o ambiente genérico da agencia de espionagem afasta bastante a imersão. Tudo é sempre muito escuro, muito carregado e a paleta de cores nunca vai além do tom frio, ou do vermelho obscurecido por pretos e cinzas. Essa construção menos calorosa coloca aquele grupo de pessoas como parte de uma máquina, mas sem muita função individual. Até hoje eu só tive uma cena que garantiu uma crescente preocupação com uma personagem, quando a Jemma apareceu lá na segunda temporada vivendo sua vida como uma pessoa normal e indo trabalhar para a Hydra. As palavras de Hunter para Bobbi de que eles nunca tiraram férias é praticamente uma confissão discreta da série que só quer saber da missão.

Em uma cena poderosa em uma despedida tão cruel, onde ninguém ali poderia falar alguma frase de impacto,destacar um ponto importante da amizade, ou até mesmo dar a mão para Bobbi ou Hunter, não foi difícil ser atingido por uma pancada de emoções. Especialmente quando o Mack, parceiro de longa data do casal, aparece sem dizer uma palavra, mas com os olhos cheios de lágrimas. Dificilmente Agents cria alguma cena com tamanha importância sentimental. Além dessa despedida existiu apenas mais um momento que arrancou alguns olhos marejados da audiência, a despedida de Cal e Daisy no final da segunda temporada. De novo é fácil fazer a conexão do impacto emocional porque eram personagens que haviam desenvolvido um laço fundamental no decorrer dos arcos, através de montagens que se aproximavam mais de um encontro comum do que uma obrigatoriedade imposta pelo diretor da agência.

Como apenas um episódio comum dentro da terceira temporada este é um capítulo ótimo para ter um dimensionamento maior das atividades do Gideon e o alcance de seu controle. Colocar um político para definir o destino do casal de espiões também impõe uma importância bem grande para o papel das figuras de poder dentro da série, nunca totalmente confiáveis. O clichê do embate russo contra o norte americano poderia ter sido facilmente deixado de lado, mas não chegou a incomodar tanto assim. No final, o que fica bem óbvio é que a série ainda não está pronta para abrir mão de Bobbi e Hunter. O ferimento maior não veio através da trilha sonora, da passagem lenta da câmera no rosto de cada integrante do time dizendo um adeus mental para os amigos, não. A maior dor é saber que independente do sucesso ou fracasso de Most Wanted, muito do brilho da série foi apagado com essa despedida prematura e desnecessária.

Easter eggs e outras informações

– O vilão do episódio é um inumano com capacidade de manipular a matéria negra. A matéria zero, nome adotado por Agent Carter, foi o tema escolhido pela série de Peggy para sua segunda temporada.

– Poderia a filha do Gideon Malick ser a Madame Hydra? Na nona arte existem cinco personagens representando os tentáculos do símbolo da agência, Hive, Gorgon, Von Strucker, Madame Hydra e Kraken.

– Amadeus Ravenclaw Hunter passando receita de sopa de cogumelo. Melhor personagem da série.

– “De nada”. “Tenho certeza de que isso não é russo”. Deve ser algum resquício de português que a agente pegou dos amigos de Portugal no ano passado, gente.

– “Qualquer um pode quebrar o pescoço de uma pessoa”. Olha a May jogando shade no Homem de Aço.

– “You ready, sestra?” – Tem gente assistindo Orphan Black na Marvel.

– Já temos um cartão para o spin-off Marvel’s Most Wanted.

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