Um episódio importante para Agents of S.H.I.E.L.D., mas com alguns problemas de percurso.

Antes de começar um grande arco, uma grande história, ou um evento de destaque, primeiro é necessário preparar o terreno. The Inside Man funciona através da proposta de jogar na mesa a trama recorrente da meia temporada da série para todos os seus mais diversos personagens. Em suma o décimo segundo episódio desenvolveu várias sucessões de “quases” e ensaios para um tema maior que será desenvolvido no decorrer dos próximos capítulos. Inumanos, política e o crescimento de Marvel’s Most Wanted delimitam um momento com muito a oferecer, mas morno dentro do panorama geral.

A estrutura apresentada é muito competente ao utilizar a força de cada grupo para construir a narrativa do episódio. Existiram problemas de execução, mas nada capaz de abalar o saldo positivo da terceira temporada da série. Dentro do que não funcionou, não funciona e dificilmente irá funcionar estão Daisy, Lincoln e o drama inumano repaginado de X-Men: The Last Stand. Ainda é cedo para afirmar com exatidão, mas todo o discurso ao redor da cura inumana soa como algo que já acompanhamos antes nas mais diversas séries adaptadas dos quadrinhos e centralizadas em heróis com poderes “recebidos”, ou desenvolvidos através de alguma herança genética.

O pior de tudo é ter a divisão do episódio para desenvolver o relacionamento amoroso entre dois personagens sem química e que mais parecem primos do que um casal de namorados. A tentativa de criar algum tipo de emoção entre Lincoln e Daisy surge através de dois momentos que impõe um ritmo que sozinhos os inumanos simplesmente não conseguem passar. Você tem uma cena de luta para aumentar a adrenalina e envolver o telespectador em uma montagem que ecoa a tensão sexual inexistente, e em seguida uma discussão ao redor da raça inumana para criar novamente um tipo de sentimento que não vem naturalmente. São dois impulsos que o roteiro dá para criar a cena através de alguns artifícios. É como ouvir uma música que te faz sentir medo em um corredor escuro, quando na verdade a ambientação e o conjunto da obra deveriam ter cumprido a missão. A série precisa falar como devemos nos sentir porque obviamente os roteiristas perceberam a inabilidade dos atores em criar algo profundo apenas com a linguagem corporal e o próprio texto.

Claro que nem só de momentos emocionalmente fabricados o episódio foi desenvolvido. É possível ouvir de longe o som de Marvel’s Most Wanted sendo anunciado pelo roteiro. Desde que voltou para seu terceiro ano a série tem feito o possível para afastar Lance Hunter do restante do grupo. E o comportamento do personagem condiz exatamente com tudo o que foi construído com a sua inclusão. No começo Lance era um mercenário preocupado apenas com o pagamento. Depois ele terminou se rendendo aos charmes da agência, mas apenas após sua reaproximação com Bobbi. Hoje, através da fala da própria May, é possível perceber que a única coisa que o mantém dentro daquele grupo é a “ex-mulher”. O problema é que eu ainda não consigo ver a Harpia simplesmente abandonando o time, não sem que antes algum evento muito traumático aconteça. Resta esperar para ver como a série irá desenvolver a saída do melhor casal da Marvel.

Gosto bastante quando a série preza pelo lado espião, um detalhe tão característico da S.H.I.E.L.D., mas que acabou perdendo um pouco de espaço com a inclusão de personagens com superpoderes. Também foi ótimo ver a inclusão de um pouco mais de política dentro da série. Com o surgimento do presidente e o reconhecimento da agência de espionagem (não oficialmente) a série criou a oportunidade de incluir um pouco mais de manipulação e exploração dos bastidores da política de controle/reconhecimento de inumanos. É válido porque, novamente, é uma maneira da série expandir seus horizontes e entregar situações diversas.

Quem realmente roubou o episódio foi a dupla Talbot e Coulson.  A dinâmica entre os dois funciona perfeitamente e caiu como uma luva (risos) dentro da proposta da série de misturar um humor característico com reviravoltas e tramas de ação. Em nenhum momento eu imaginei que o Glenn fosse o traidor, mas tive minhas dúvidas quanto a participação do Creel. Em uma jogada muito inteligente a série reuniu Gideon e Coulson e ainda revelou que o homem infiltrado era Talbot, mas por causa de um motivo justificável. Adrian Pasdar está fazendo um ótimo trabalho com o personagem, misturando seriedade e comicidade que apenas o texto de Agents consegue passar sem soar extremamente piegas e desnecessário. Falas como “tudo está meio solto e perdido aqui embaixo” não faria efeito algum sem a dinâmica entre a “dupla de amigos”.

Finalizando não poderia deixar de comentar a respeito do Hive. Não fiquei muito feliz com a transformação final do personagem. Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D. é uma série que tem uma estética muito comum. Com a introdução de inumanos eu imaginei que a chance perfeita para mostrar um cardápio mais elaborado de personagens havia surgido, mas tirando a Raina e o Lash, todo o restante tem sido bem padrão de beleza clichê – o pior tipo. Mas gostei muito de ver a expansão dos poderes da criatura e o alcance de sua manipulação mental. Note que existe uma espécie de conhecimento por parte do hospedeiro enquanto vivo, mas nenhum tipo de controle. É uma jogada inteligente por parte dos roteiristas, já que mina a possibilidade de controlar, ou precisar justificar a falta de controle em cima de personagens como Coulson, May, Bobbi e Mack, mas ao mesmo tempo cria dilemas em cima de quem está sendo manipulado. De maneira geral The Inside Man é competente ao criar a base fundamental do restante da temporada e ainda de quebra explorar mais do vilão principal, tudo isso com um banho de mel em cima do Brett Dalton.

Easter eggs e outras informações

– Hive precisou sacrificar cinco humanos, cada um representando uma das cinco cabeças da Hydra. Somando o vilão e totalizando seis, que é o número de tentáculos do símbolo da agência terrorista no MCU. #Macabro

– Um dos integrantes dos Guerreiros Secretos é filho do Creel, o Homem Absorvente. Tudo indica que utilizarão o próprio Creel para integrar a versão final do time.

– Existe um inumano aprisionado na Austrália e o time de Guerreiros Secretos na nona arte conta com um integrante vindo de lá. Eden Fesi, codinome Dobra, é um aborígene com poder de teletransporte. É possível ver o nome de Eden durante o episódio. Originalmente o personagem é um mutante, mas que foi apresentado em Secret Warriors #1, de 2009. Resta saber se a sua participação na série será através da mesma brecha que permitiu o uso de Mercúrio e Feiticeira Escarlate, ou algum acordo entre Marvel e FOX – lembrando que a Marvel TV está desenvolvendo uma série para o FX centralizada em Legião, o filho do professor Xavier.

– Existe um grupo de ódio chamado ‘watchdogs’, ou algo parecido dentro da série – conforme palavras da própria Daisy. Eles realmente existem na nona arte e surgiram em Capitão América #335 de 1987, atacando clinicas de aborto, homossexuais e qualquer assunto com conexão moral.

– “Eu te amo”. “Eu não te odeio tanto”. Melhor fala do episódio, cortesia de Melinda May.

– “Você não sabia que ele ia te trair? Ele é HYDRA. Só comentando”. Coul, filho de.

– Colocar um “controle de natalidade” em cima dos inumanos parece uma maneira bem sacana de limitar a presença da raça. Especialmente quando o filme está (aparentemente) no limbo.

– Santuário para inumanos, também conhecido como a Genosha do MCU. E para quem não conhece, Genosha é o nome do santuário mutante criado para a proteção da raça e florescimento de uma nação unida e forte. Quase todo mundo foi massacrado após o ataque de sentinelas.

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