A nova série da HBO Max, A Vida Sexual das Universitárias, desde o título deixa exposto uma temática já corriqueira no audiovisual norte-americano: o ingresso de jovens no curso superior e as descobertas que acontecem nesta etapa da vida. Especialmente, o afloramento da sexualidade. O que vale, porém, na série de Mindy Kaling é a forma como a criadora e roteirista desenvolve as interações da mocidade universitária.
Assim como a temática da série já faz parte de um conteúdo habitual da produção audiovisual, as quatro protagonistas – adolescentes que vão dividir o dormitório – também fazem parte de um universo estereotipado. Kimberly Finkle (Pauline Chalamet) é uma típica caipira do meio-oeste americano que faz tudo dentro das regras pré-estabelecidas. Voluntariosa, acredita na boa fé de todos; Leighton Murray (Reneé Rapp) é uma patricinha ao estilo Regina George (Meninas Malvadas, 2004), que guarda um segredo de suas amigas. Homossexual, acredita que não pode contar para ninguém, pois como uma moça da alta sociedade, seria mal vista por seus pares. Whitney Chase (Alyah Chanelle Scott) é uma menina negra, filha de uma senadora democrata que defende pautas feministas. Assim, apesar de ser uma jogadora de futebol talentosa, vive à sombra da mãe.
A última das protagonistas é Bela Malhotra (Amrit Kaur), uma descendente de indianos que cresceu com as rígidas regras de seus pais, porém, assim que entrou na universidade, encontrou o seu lugar para se libertar sexualmente e ir atrás de seus sonhos como ser uma comediante, apesar da insistência dos progenitores para que se torne médica. Claramente, Bela é um alter-ego da própria Mindy Kaling. Aqui, é possível perceber traços de seu humor característico, assim como traços de um próprio universo de humoristas asiáticos frutos de um fluxo migratório de seus pais ou avós. Esses humoristas cresceram nos Estados Unidos, porém, com forte influência cultural da Índia e do Paquistão.
Além de Kaling, fazem parte desse universo Aziz Ansari, criador e protagonista da ótima série Master of None; Kumail Nanjiani, roteirista e ator do filme Doentes de Amor, indicado ao Oscar de roteiro original; e Hasan Minhaj, criador do show de stand-up comedy Homecoming King. Todos esses, em algum momento de seus trabalhos nas mais diferentes mídias, chamam a atenção para a criação específica que tiveram e como percebiam que haviam recebido uma educação incomum, tendo como comparação outros jovens de diferentes etnias e ascendências que cresciam nos Estados Unidos.
A tendência de um humor típico de um grupo social específico faz mais sentido nos Estados Unidos onde vários grupos étnicos diferentes mantiveram uma relação maior com as suas tradições. Por exemplo, há o famoso humor judaico de figuras como Woody Allen e Larry David. Autodepreciativo por natureza, há um excelente episódio de Seinfeld em que o protagonista acredita que seu dentista se converteu ao judaísmo apenas para se legitimar ao contar piadas sobre judeus. A ótima série The Marvelous Mrs. Maisel também destaca o humor judaico ao retratar a ascensão de uma moça judia que decide se tornar comediante depois de ser traída pelo marido.
Pertencente a uma geração que cresceu nos Estados Unidos, Mindy Kaling – roteirista e atriz de The Office –, é uma nova e importante voz desse humor cada vez mais presente da Ásia Meridional a penetrar nos meios de comunicação. Tendo crescido em um Estados Unidos excludente em que os roteiristas eram comumente homens brancos, Kaling consegue confrontar os estereótipos com rara precisão. Todas as protagonistas são confrontadas com os clichês que as engessam, não apenas o da mulher indiana.
Há um bom exemplo de como esses clichês operam. Durante o sexto episódio: Fim de Semana dos Pais, há um jantar em que as quatro famílias se encontram. Todos os conflitos surgem das diferenças entre a família branca, tradicional e burguesa de Leighton, a carismática senadora democrata mãe de Whitney, os pais de Bela, indianos tradicionais e a mãe caipira e de um status econômico mais baixo de Kimberly. Contudo, quando esses grupos se dividem e ficam sozinhos com suas filhas, fica claro que as aparências não condizem verdadeiramente com o que são.
O grande valor da série está em como Kaling desestrutura o estereótipo das próprias protagonistas ao fazer dos próprios clichês os conflitos principais. Ou seja, o que faz delas figuras-clichês é desmontado ao longo dos episódios e elas terão de encarar de frente essas situações. Kimberly, por exemplo,tem de decidir se trapaceia em uma prova; Leighton que só tinha momentos de sexo sem compromisso com outras garotas precisa saber se expõe seu namoro; Whitney deve saber se expõe a sua família reconhecida na política para desfazer uma injustiça; Bela deve decidir se apóia uma colega que foi abusada, mesmo que a sua carreira como humorista sofra um baque. É como se Mindy Kaling fosse um alicate e suas personagens parafusos e a autora as aperta, as tenciona, até atingir o que são capazes de alcançar. Aos poucos, Kaling demonstra que os estereótipos não sobrevivem a um olhar mais profundo sobre si mesmos e, por isso, os desmonta. Até os personagens coadjuvantes ganham profundidade ao longo dos episódios. Raros são os que não são minimamente desenvolvidos.
A direção de A vida sexual das universitárias é bastante protocolar. Como os episódios são, de modo geral, de trinta minutos, não há momentos de pausa. A série carece de momentos em que as quatro garotas ficam simplesmente juntas sem que haja uma necessidade de roteiro para que a narrativa avance. Nesta primeira temporada, tudo que está em tela existe por uma função e, dessa maneira, perde-se situações de criação de vínculo para o espectador sentir a amizade delas florescendo. Não por acaso, por muitas vezes, os próprios diálogos suprem essa ausência com elas comentando como estão se tornando amigas mesmo sendo tão diferentes.
De qualquer forma, é o texto de Kaling o maior atrativo de A vida sexual das universitárias. A série que foi renovada para segunda temporada terá um novo desafio ao pensar em como transformar suas personagens para um segundo ano na universidade. Todavia, não convém duvidar de Kaling, talento ela já demonstrou ter de sobra.




















