
Antes que o raio caia duas vezes no mesmo lugar e a série vire “aquela do David Simon genial, com a abertura mais legal da história, mas que ninguém conhece”, por favor leitor, veja Treme.
Spoilers Abaixo:
Foi muito curioso notar os primeiros comentários sobre Treme ano passado. Àquela altura, a maioria dos série maníancos sabia que seu criador era ninguém menos que David Simon, a mente por trás de The Wire, então desde já, a série se torna obrigatória, até como forma de retribuir ao criador o sucesso que ele não teve com seu projeto anterior. O tempo passou, muitos de nós iniciamos maratonas de The Wire, continuamos elogiando David Simon e sua equipe, mas cá estou eu, um dos poucos que ainda acompanha Treme regularmente. Um fato inegável é que Simon por duas vezes se desvinculou das necessidades do público padrão: em meio à febre pelas séries policiais plastificadas e enjoativas e do entretenimento fácil e rápido ele deu luz a uma série reflexiva e realista sobre a polícia de Baltimore (“The Wire”), e agora quando todos já se acostumaram e ficar pregados em frente à TV ou a tela do computador destrinchando reviravoltas, chorando ou sofrendo com famílias disfuncionais e cenas de ação empolgantes (tudo claro, com muita “inteligência”), ele cria uma série feita pra se assistir relaxado no sofá, gozando La Dolce Vita com boa música, bons diálogos e um clima irresistível de familiaridade e peculiaridade ao mesmo tempo. David Simon é um anfitrião que não recebe seus convidados da maneira mais usual, mas oferece uma excelente estadia, só é necessária uma adaptação.
Passada essa adaptação (e pra quem ainda não viu ou parou depois do piloto, essa adaptação dura até a metade da primeira temporada), resta analisar a temporada como um todo. O foco da primeira é a reconstrução emocional que passam os cidadãos de New Orleans que lidam com a passada do furacão Katrina cada qual à sua maneira usando vários personagens como porta-vozes de uma cidade inteira. Por retratar em específico um bairro com muito prestígio cultural (o Treme do título), a música é parte integrante da série não só como um adereço ou um mote para situações da série, mas como o motor que influencia e modifica os personagens. Por não mostrar desde o princípio a que veio, a primeira temporada soa por vezes cansativa e perdida entre tantos assuntos, mas não deixa de entregar momentos memoráveis no momento em que algumas tramas vão se resolvendo (como a da proprietária de um bar do bairro Ladonna em busca do irmão desaparecido após o desastre, e o ativista Creighton buscando apoio sócio-político para a reestruturação de New Orleans), mas o principal deles são os momentos finais do season finale.
A segunda temporada da série consegue ser superior ao primeiro ano com facilidade, apresentando episódios consistentes e não se estacionando apenas na reconstrução da cidade e ao invés disso apresentando mais dois temas explorados ao longo dos 11 episódios: o processo de criação da música e a violência das ruas. Assim temos Antoine (Wendell Pierce) tentando montar uma banda de jazz e comnadando os ensaios da escola, Delmond (Rob Brown) com problemas em tomar partido pela influência da sua cidade no seu projeto agora que vive em Nova York, o DJ Davis (Steve Zhan) tentando criar um novo “Public Enemy” como forma de protesto pelo descaso das autoridades com a violência, e sua namorada Annie (Lucia Micarelli) tentando criar uma identidade musical e compor uma canção com a ajuda do seu mentor, o músico de rua Harley (Steve Earle), como também o policial Terry Colson (David Morse) que vê o número de homicídios se elevar na cidade, Ladonna (Khandi Alexander) sofrendo com esse problema na própria pele e a advogada Toni (Melissa Leo) envolta em um caso que esconde a corrupção no trabalho da polícia da cidade. A série também dá continuidade a enredos da primeira temporada, como Janette (Kim Dickens) em um restaurante em Nova York, Sofia (India Ennenga) lidando com a morte do pai, Albert (Clarke Peters) e sua constante briga com o governo, a chegada do empresário da construção civil Nelson Hidalgo (Jon Seda) e suas boas intenções com a cidade e até a redenção do personagem mais detestável da última temporada, o holandês Sonny (Michiel Huisman).
Os melhores momentos da temporada estão quando as tramas se entrelaçam no foco principal da série (a música, claro), mostrados nos já tradicionais episódios festivos (o episódio de Mardi Gras dessa temporada, “Carnival Time”, é um dos melhores que a série já fez), e os personagens se interagem em meio as marchas e o jazz. Também merece destaque a eficiência da equipe técnica, em especial o time de diretores (que nessa temporada inclui até o renomado Tim Robbins), o de roteiristas (em que George Pelecanos mais uma vez ganha destaque por ser peça-chave em momentos dramáticos da série) e a supervisão musical, que consegue escolher a música certa para cada momento do episódio e que passam mais que uma mera menção ao episódio. O elenco, porém, continua sendo o que mais impressiona a medida que cada personagem vai ganhando contornos isolados. Se na temporada passada John Goodman se sobressaiu, agora que ele já não está mais na série Melissa Leo ganha de vez o posto de protagonista se dividindo entre sua trama profissional e sua trama pessoal, enquanto Khandi Alexander continua como uma das melhores atrizes coadjuvantes da atualidade por tranparecer com tanta profundidade o beco emocional de sua personagem e Kim Dickens ganha uma storyline mais leve em Nova York e rouba a cena quando volta para Nova Orleans. Um bom exemplo de que quando todos os elementos acima se juntam a série atinge a perfeição são os últimos momentos da segunda temporada, em que a música certa (“Just wrap your troubles in dreams, and dream all your troubles away”) ilustra vários pequenos momentos que mostram uma evolução notável em vários núcleos, fechando o episódio da melhor maneira possível – fazendo querer mais.
Se antes Treme tinha um tom depressivo cuja única moeda de troca era a fuga para os festivais musicais como se a música fosse redenção para todo o sofrimento, agora a música é o motivo pelos quais os personagens continuam sua jornada pela identidade cultural e a busca pelos valores. A parte dramática da série não faça ninguém chorar, não por acaso, já que o sentimento passado é verdadeiro mas quem acompanha a série sabe que uma hora ou outra todos estarão entregues ao blues, em êxtase pelo momento e não pelas reminiscências, e nesse ponto David Simon pode se afastar de todos os outros criadores que já trabalharam com o drama, mas se existe algo a ser exaltado como eterno esse algo é a música, e não o sofrimento. Qual dos dois você prefere acompanhar toda semana?





















