“- Vai ter uma série sobre vampiros numa cidadezinha do interior americano, que conta com outras criaturas mágicas em meio a uma sociedade onde nada é o que parece.

– Hmm, estranho… já vi isso em algum lugar…

– Ah, tem outra em que H.G. Wells viaja no tempo para impedir “Jack, O Estripador” na Nova York do nosso tempo.

– Mas, pera lá! Já vi isso em livro! E filme também!

– Falando em filme, viu que vai sair a série de “Busca Implacável”? Mas vai contar a história antes dos filmes…

– Ah, outra série baseada em filme?

– Sim, mas caso nenhuma dê certo, sempre tem aquelas dos astros de comédia!

– O cara de “Friends” vai tentar esse ano de novo? ”

Maio de 2016. Uma época decisiva para a televisão americana. Onde inúmeras séries tiveram seus destinos consolidados, numa onda massiva de cancelamentos digna de uma inquisição de grande porte e onde os upfronts das emissoras começam a mostrar como será formada a próxima Fall e Mid-Season. Sucesso ou não, essas novas produções mostram que uma mania peculiar está ocorrendo na produção de seriados que pode ser o sinal de algo muito pior.

A CW, além de já ser casa de The Flash, Arrow e Legends of Tomorrow, conseguiu numa manobra que faria inveja a um ginasta experiente, agregar Supergirl, que foi transferida da CBS. Junte a essa turma mais uma adaptação de quadrinhos, Riverdale (nem a Archie Comics eles perdoam) e você tem boa parte da grade da CW só dependendo de adaptações de quadrinhos. Ainda teremos o remake de uma série brasileira da Globo (pasmem), No Tomorrow (Como Aproveitar o Fim do Mundo) e a primeira adaptação de filmes da casa, com Alta Frequência.

Já na CBS, teremos a adaptação do filme Dia de Treinamento, o remake de MacGyver (80’s lives!) e Bull, nova série baseada no famoso médico da TV americana, Dr. Phil. Enquanto isso, a NBC, além da adaptação de Busca Implacável, vai apostar na “nova True Blood, a série Midnight, Texas, da mesma autora. Sem falar nos dois novos spin-offs da casa: The Blacklist: Redemption e Chicago Justice.

A FOX vai apelar bonito, rebootando 24 com 24: Legacy e Prison Break. E ainda couve espaço para as adaptações de dois filmes famosos, Máquina Mortífera e O Exorcista. A ABC vai apostar também em nomes conhecidos pelo grande público, como o escritor H.G. Wells em Tme After Time e Romeu e Julieta com Still Star-Crossed.

Depois de tudo isso o que fica evidente é a crescente aposta em adaptações, reboots, spin-offs e prequels de obras já definidas e com certo “fanbase” consolidado. Mesmo que muito dos sucessos de audiência atuais sejam de obras criadas de uma ideia original, como por exemplo The Big Bang Theory e Empire, mas as apostas em conteúdo oriundo de algo já realizado, é mais do que tendência, já virou norma. E citando as normas, é passível de notar que nesse ano há três grandes campos sendo escavados numa “corrida do ouro” desesperada em busca da audiência. Os quadrinhos ainda não apresentam desgaste, mas já se tornam algo démodé. Esse ano, o que vem com grande força são os filmes, as comédias com grandes astros e a nova queridinha dos canais americanos: viagem no tempo.

As apostas em filmes não são garantias de sucesso e o exemplo mais recente disso e cancelamento de Rush Hour e o possível cancelamento de Limitless. O remake do filme de ação/comédia se mostrou um péssimo negócio (Shame on you CBS!), com baixíssima audiência. Já Limitless conseguiu expandir com sucesso o filme de origem, sendo melhor em alguns momentos que a obra original, mas não conseguiu emplacar a audiência esperada, permanecendo na “bolha”.

As comédias também não são sinônimo de sucesso, mas sempre trazem um “buzz” para o canal, mesmo que por pouco tempo. Os sitcons são um gênero já capenga, mas que sempre atraem nomes como Joel McHale, Kevin James e Marlon Wayans para os projetos engatados. Conte aí a nova tentativa de Matt Leblanc de emplacar algo depois de Episodes e você tem o escopo desse nicho na próxima temporada.

Mas o hype mesmo está condensado nas tramas de viagem no tempo. Praticamente cada emissora terá uma série para chamar de sua com tramas temporais: a ABC com Time After Time, Fox com Making History e a NBC com Timeless. São os quadrinhos, os vampiros, as tramas rocambolescas “all over again”. Quando um gênero faz sucesso, todos correm na direção da mesma aposta, saturando algo que já não está lá grandes coisas. Os focos das tramas são obviamente diferentes, indo da comédia ao realismo fantástico, passando pelo crime histórico, mas uma enxurrada de produções do mesmo gênero é sempre algo a se ter sob uma ótica mais apurada de análise.

Se a cultura da adaptação será a ruína do formato atual da televisão aberta americana, ainda não sabemos. Só utilizando viagem no tempo para saber. Mas temos a certeza que isso demonstra uma preguiça na criação de novos conceitos originais e um declínio na qualidade do conteúdo apresentado, tornando tudo muito pasteurizado e similar, não importe para qual canal você corra. “Nada se cria, tudo se transforma” já diria Lavoisier. Pelo visto os canais americanos ainda não se deram conta disso e por lá estão mais para “Nada se cria, tudo se adapta”.

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.