Qual o futuro do canal depois do fim de Mad Men? Essa semana o showrunner Matthew Weiner comentou sobre o final da série, que está cada vez mais próximo.

Sorte ou competência? O que levou a AMC a ser um dos canais mais aclamados pelos espectadores quando se trata de qualidade? Depois do sucesso de crítica e de público de Mad Men, em 2007, o canal conseguiu decolar uma das séries mais queridas da história recente da televisão americana: em 2008 estreou Breaking Bad. É inevitável que o sentimento do espectador seja de que o canal tende a criar boas séries e que isso pode seguir sendo uma verdade. O problema é que tirando as duas citadas acima, a AMC tem problemas com sua (antiga, atual e futura) programação, que divide opiniões e separa críticos do “público geral” quando abordadas questões de qualidade. O que também prejudica as novas produções são a baixa audiência, devido a uma concorrência enorme e da alta qualidade da programação de canais concorrentes.

A AMC é uma emissora pretensiosa e procura vender suas novas séries comparando-as com seus maiores sucessos: Low Winter Sun era a nova Breaking Bad. Halt and Catch Fire a nova Mad Men. O simples fato da primeira falar sobre o crime e a segunda ser “de época” fez com que a divulgação do canal achasse essas conexões que posteriormente só causariam vergonha. Seria então, a AMC o canal de “two-hit wonders”? Será que seu futuro não reserva mais uma grande série capaz de comover uma multidão, unir críticos e o “povo”, gerar audiência consistente e criar mais um ícone da pop culture?

Séries que não estão mais entre nós: Rubicon, The Killing e Low Winter Sun.

Rubicon é um caso interessante. Uma série que ninguém assistiu, mas que quem assistiu adorou. Sua curta vida a transformou em um ícone cult, e a jornada de treze episódios parece ser o suficiente para construir sua história. O próprio presidente da AMC na época de seu cancelamento afirmou que uma temporada era tempo o suficiente para contar o que era pretendido. Eu nunca assisti a série, não conheço pessoas que assistiram. Talvez Rubicon seja uma miragem audiovisual.

The Killing mostra como o canal é jovem e ainda tem questões a resolver quando se trata de negócios: A série foi cancelada um milhão de vezes, gerou raiva coletiva no fim de sua primeira temporada por causa de um cliffhanger, não é a melhor coisa do mundo mas também não é ruim de se assistir, e hoje é tratada como “uma série original do Netflix”. The Killing não tem a ideia mais original em sua concepção, e é adaptação de uma série europeia. Seus cancelamentos mostram que a série não foi sucesso de audiência, e parece que o público da internet foi mais generoso com ela, visto o lugar onde agora reside. No fim, The Killing não passa de uma série medíocre com bons protagonistas, mas cheia de red herrings e mais chuva que o dilúvio de Noé.

Low Winter Sun: a coitada que foi comparada com Breaking Bad antes mesmo de sua estreia. O público estava prestes a ficar órfão de uma das séries mais importantes da atualidade, e a AMC viu uma oportunidade de vender seu próximo produto na onda do emocional abalado coletivo que dominava os fãs de Heisenberg e Jesse Pinkman. Ao criar altas expectativas nessas pessoas, o resultado foi um desastre: as poucas pessoas que assistiram Low Winter Sun odiaram. A maioria nem se deu ao trabalho de conferir. Resultado: uma temporada apenas e a série foi para o túmulo. Low Winter Sun era uma série problemática, mas a única pessoa no mundo que gostou o suficiente para escrever um parágrafo sobre ela (eu) termina-o da maneira como a série terminou: sem muita importância.

Fenômeno de audiência, mas fracasso narrativo: The Walking Dead está aí.

E vai ficar por mais um bom tempo, quer você goste ou não. Talvez a AMC não precise se preocupar tanto assim. Se decidir cancelar toda a sua programação original e passar dois episódios de The Walking Dead por dia, durante três anos, alguém irá abraçar a ideia e devorará episódios como se fossem hambúrgueres. The Walking Dead não é a pior série do mundo (falo isso porque não quero ser assassinado pelos fãs), mas também está longe do status que a AMC procura. A série é sucesso de audiência, e isso faz com que o texto (que nunca foi grande coisa) relaxe mais ainda. Independente da qualidade da série, The Walking Dead é a galinha dos ovos de ouro do canal, e provavelmente será por muito tempo. O mundo da série é muito grande e as possibilidades narrativas são enormes. The Walking Dead será explorada até todo o espectador começar a assistir os cinquenta spin-offs da série que possibilitarão o canal de continuar comprando outras produções de qualidade que não dão audiência alguma. Por essa perspectiva, The Walking Dead acaba se tornando algo maravilhoso para quem gosta de boa televisão, ainda mais que ninguém é obrigado a assistir essa bomba.

Futuro insosso: Hell on Wheels, Turn e Halt and Catch Fire

Hell on Wheels (a nova Deadwood!) também não é uma série ruim. A jornada de Cullen Bohannon na construção da estrada de ferro tem bons momentos e alguns personagens interessantes. Além de ser um documento semi-histórico do passado dos Estados Unidos. Mas Hell on Wheels está muito, muito longe de chegar próximo da excelência de Deadwood, e mesmo que tente construir Bohannon com algumas características de Seth Bullock (senso de justiça, lealdade, coragem), não obtém sucesso. Hell on Wheels acaba se tornando mais importante que Deadwood em alguns pontos, como ao lidar muito mais com problemas raciais e com o desenvolvimento das sociedades caóticas que tomavam conta do interior dos Estados Unidos e que empurravam os nativos americanos para a ponta do precipício. Soará repetitivo, mas Hell on WHeels está longe do apelo de Mad Men e Breaking Bad. Suas quatro temporadas soam como um milagre, visto a falta de interesse tanto da crítica quanto do público. Até que vale a pena conferir a série, só não espere pela morte de personagens importantes, porque eles “morrem” no season finale e na premiere estão de volta de alguma maneira milagrosa, tipo em Vampire Diaries. Isso é bem decepcionante.

Turn e Halt and Catch Fire: As duas novatas da AMC atraíram alguma atenção e há quem diga que são boas séries. A segunda, principalmente, tem um argumento bem interessante e parece ser pioneira no assunto da criação dos computadores e tudo que envolvia esse mundo em 1980. Turn já é um registro histórico e envolve espionagem em uma época sem drones ou microcâmaras. Também não conta com a Carrie de Homeland, apesar de que vários homens de peruca loira tentem se passar por ela.

Um embrião de esperança: Better Call Saul.

Se a CBS pode ter trinta e cinco spin-offs de CSI e a NBC pode ter vinte e dois de Law and Order, por que a AMC não pode usar a fama de sua maior série para contar melhor a história de um personagem que todo mundo ama? Better Call Saul é uma das séries mais esperadas de 2015 e a possibilidade de sucesso é tão grande que o canal se atropelou e renovou-a para segunda temporada. Bob Odenkirk é competente. A equipe da série é competente. Tudo indica uma chance alta de sucesso. Talvez daqui uns anos a AMC passe um episódio de The Walking Dead em um dia, e Better Call Saul no outro, intercalando seus sucessos pro resto da vida.

Ao analisar essas séries todas, uma mistura de esperança e receio tomam conta do espírito. O canal tem competência de prospectar boas séries, mas ultimamente vem dando luz verde para qualquer coisa, esperando que o espectador compre tudo por causa do logotipo presente na embalagem. A AMC é sim um bom canal, mas talvez precise descer do salto alto e perceber que existem outras emissoras igualmente competentes ao seu redor, e a batalha pela audiência só tende a se tornar mais acirrada.

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