Não é só mais um dia na praia.

Filmes que evocam a pequenez humana perante a força destrutiva da natureza sempre foram os melhores exemplares do suspense. Seja um vulcão, um tornado ou um animal feroz focado em conseguir abater sua presa, a tensão alcança níveis máximos justamente pela proximidade com a audiência. “Águas Rasas” (The Shallows, 2016) entra para o seleto rol, com um filme ironicamente claustrofóbico, calcado na jornada se superação.

Nancy (Blake Lively) é uma jovem que resolveu pausar a vida, para pensar se o rumo que ela toma (ser médica) é realmente o que ela deseja seguir. Indo surfar numa praia isolada do México onde sua mãe surfou anos antes, ela tenta assim entrar em contato com as lembranças da genitora. O que ela não sabe é que o passeio paradisíaco vai acabar se tornando uma luta pela sobrevivência a poucos metros da areia, quando um tubarão incansável a encurrala numa armadilha que aparentemente não tem solução.

Jaume Collet-Serra é um bom diretor de filmes pequenos. Pequeno não de tamanho, mas sim de ambientação. Em pequenos espaços (uma casa, um avião) ele constrói uma narrativa com diversas reviravoltas que prende a atenção do espectador até o fim, mesmo que se utilize de diversos clichês consagrados. A façanha que ele realiza em “Águas Rasas’ é a de criar um ambiente claustrofóbico em pleno mar aberto. Ao focar toda a ação na protagonista e na luta pela sobrevivência na pequena rocha que se ergue na maré baixa, ele cria imediatamente empatia com o drama proposto. Lively também ajuda, entregando uma atuação solida que transmite a urgência necessária, carregando o filme nas costas durante 90% da exibição. Outra coisa é a quebra de expectativa de Collet-Serra cria, ao inicialmente objetificar Lively focando no seu corpo e na sua aparência, para logo em seguida destruir isso tudo mostrando uma mulher forte e segura de si frente a uma adversidade mortal. Se há algo que roube a cena no filme além de Lively é a gaivota companheira de desventura. O animal serve com um parco alivio cômico e também como uma espécie de “espelho natural” da personagem, o que fica ainda mais evidente quando “Bird Set Free” é cantada a plenos pulmões por Sia nos créditos finais.

No final a mensagem de superação acaba sobressaindo sobre o suspense e a tensão. Na vida a motivação vem de coisas simples, momentos de reflexão ou de uma perseguição por um tubarão sanguinário. Os desígnios divinos são difíceis de interpretar. Há clichês e momentos forçados, mas nada que apague o brilho conseguido pelo filme. “Águas Rasas” consegue ser um bom suspense que lhe mantem aflito na poltrona até o final da exibição. E de quebra entrega uma mensagem de superação. Um filme atípico no currículo de filmes de ação de Jaume Collet-Serra.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Sony Pictures Brasil

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.