A justiça é mais cega do que a paixão?
Fazer silêncio é fazer justiça?
Falta de justiça tem cura?
Existe justiça na vingança?
Uma narrativa contada de um modo não muito habitual para o telespectador brasileiro. Essa foi a primeira impressão que tive quando assisti os dois primeiros episódios de Justiça, nova minissérie da Globo, escrita por Manuela Dias, de Ligações Perigosas, e dirigida por José Luiz Villamarim, de O rebu. Para os apreciadores da sétima arte e para os telespectadores de séries estrangeiras, a dupla narração é um recurso bastante conhecido, geralmente utilizado para conferir uma complexidade na forma de apresentar a história e quebrar a sequência linear dos fatos. É por esse caminho que conhecemos as histórias do quarteto de protagonistas Vicente (Jesuíta Barbosa), Fátima (Adriana Esteves), Rose (Jéssica Ellen) e Maurício (Cauã Reymond). A cada dia da semana, uma história, respectivamente nessa ordem das personagens, será mostrada. Porém, nos capítulos 1 e 2, já contamos com a presença de alguns acontecimentos que serão desenvolvidos de forma mais aprofundada nos episódios seguintes.
No capítulo de estreia, começamos com o drama de Elisa (Débora Bloch), professora de Direito que sofre com a iminência da saída do assassino da sua filha, Vicente. Numa cena bem emocionante, ela confessa ao namorado, Heitor (Cássio Gabus Mendes), que deseja dar três tiros na cabeça de Vicente assim que ele colocar os pés para fora da cadeia. Quando questionada se buscava por justiça ou vingança, a professora justificou que estava sendo guiada por seu instinto materno e, o fato de o criminoso ser solto em tão pouco tempo, soava como uma espécie de anulação da existência de sua filha.
Elisa não se importa em ser presa, já que, para ela, valeria a pena passar esse tempo na cadeia, já que não tinha mais a sua filha, e muito menos a sensação de que Vicente pagou pelo o que fez. O namorado a indaga que se essa “justiça com as próprias mãos” é válida, pois é algo que não trará a sua filha de volta. Entretanto, é difícil compreender os sentimentos de uma mãe que teve sua única filha morta à queima roupa. Depois desse momento, a narrativa retrocede sete anos e nós, telespectadores, vamos ao momentos que precederam o assassinato.
Controlador, possessivo e com jeito de playboy, Vicente aparece em tela pela primeira vez exibindo-se, numa tentativa forçada de convencer a sogra de que o casamento com Isabela (Marina Ruy Barbosa) será uma união bonita. Quando todos estão confraternizando no barco, já temos um primeiro impasse: a amizade de Isabela com um ex-namorado de adolescência. Vicente já se referia à namorada como “sua mulher”, num tom que a marcava como objeto, propriedade. Além disso, ele se sentia desconfortável com esse ex-namorado chamando Isabela por apelido, querendo ter direito sobre isso também. Quase todas as cenas do casal foram de discussão, brigas por motivos torpes ou então, mesmo quando estavam aparentemente bem, uma tensão pairava sobre eles.
Para quem olha de fora de um relacionamento que segue um rumo como o de Isabela e Vicente, é bem visível que ele a trata de forma abusiva. Para ela, que está envolvida amorosamente, o poder e a obsessão (os berços que dão origem a variados tipos de abuso) são confundidos, talvez, como uma forma de ciúme. Em momento social e cultural que vivemos atualmente, essa discussão em televisão aberta, ainda que em um horário que não é visto pela maioria dos telespectadores, é bem válida. Esse episódio, por ter a função de apresentar logo a relação dos dois e avançar para o foco narrativo principal, foi um tanto corrido em relação à construção da personagem Isabela. Por outro lado, percebemos que ela estava demonstrando sinais de cansaço no que corresponde a essa relação.
Quantas pessoas não se sentiram no lugar de Isabela na cena em que Vicente pede para que ela troque de roupa dentro de sua própria casa, pois havia um pintor trabalhando no local? Em seguida, vemos Isabela com uma calça, que cobria não só suas pernas, como também os seus desejos e os seus direitos. A situação da falência da empresa do pai potencializou a agressividade de Vicente que, ao invés de ir buscar conforto com a namorada, aparentemente, dirigiu-se a sua casa apenas para despejar toda a sua raiva em outra pessoa. Sendo assim, é compreensível que, depois de ser maltratada em tantas ocasiões, ela deseje estar na companhia de alguém que a conforte.
De certa forma, podemos dizer que Isabela tinha consciência do que Vicente era capaz. Ele carregava uma arma de fogo consigo, abraçava-a com esse objeto. Porém, não quero com isso, de jeito algum, dizer que a culpa foi dela, ou que ela poderia ter se prevenido mais. O amor, às vezes, desativa certos tipos de mecanismos de defesa. Por conta disso, muitas pessoas julgam bastante as pessoas violentadas por relações abusivas, pois não entendem que, aquilo que está a olho nu para quem está fora do relacionamento, pode estar camuflado, invisível ou escondido nos olhos daquela ou daquele que sofre. É um tema que sugere uma discussão extensa e polêmica. Voltaremos a falar sobre isso assim que possível.

No trânsito do assassinato para Recife em 2016, tivemos um gancho muito bom: Elisa interrompe o plano de matar Vicente ao vê-lo sair da cadeia e se abraçar com a sua filha (?) e, provavelmente, a mãe da criança. Será que ele tinha uma amante? Sob quais circunstâncias ele se tornou pai?
Agora, vamos ao episódio 2, que mostrou uma história tão triste quanto a primeira. Na pele de Fátima, Adriana Esteves dá vida a uma mulher pobre, empregada doméstica, que é feliz ao lado da família que possui. Ela e seu marido, Waldir, um motorista de ônibus, tiveram a paz de suas vidas roubadas com a chegada dos novos vizinhos, o sempre vilão Enrique Diaz, como o policial Douglas, e a venenosa Kellen, Leandra Leal. Recém-casados, os novos vizinhos vivem um embate: ele possui um amor incondicional por Furacão, o cachorro, e ela não gosta do animal. Kellen usa o seu corpo e a sua sensualidade para exercer o seu poder sobre Douglas, que acata todos os seus pedidos. Mesmo quando Furacão estraga a festa de aniversário de Mayara, filha de Fátima e Waldir, Douglas solta novamente o animal no quintal, que volta a causar problemas.
Toda a sequência de acontecimentos trágicos que ocorre nessa história é consequência desse conflito entre vizinhos, algo muito corriqueiro. Para complicar ainda mais a vida de Waldir, a empresa em que ele trabalha declara falência, situação que o aproxima do retorno ao vício da bebida. Em uma confusão de bar, o motorista é esfaqueado na frente de sua família. Na noite em que ele é internado no hospital, seu filho é atacado pelo Furacão. Movido pelo espírito “se me atacar, eu vou atacar”, Fátima mata o cachorro, o que gera revolta no vizinho, fazendo-o com que ele plante drogas em sua casa e chame os seus colegas policiais para prendê-la.
Toda essa sequência é encerrada pelo abandono das duas crianças, que, infelizmente, representam muitas outras em nosso Brasil. Muitas crianças, vítimas de situações como esta, que perdem os pais repentinamente, vão para as ruas, prostituição, cadeia… Com o pai no hospital e a mãe presa, ambos pegam um ônibus, sozinhos. Ao voltarem para casa, Mayara lança um olhar para Kellen que me lembrou muito Rita, de Avenida Brasil, quando foi jogada no lixão por Carminha (Adriana Esteves). E então, podemos esperar, quem sabe, uma vingança vindo por aí, mas agora protagonizada pelo embate das personagens de Júlia Dalavia (Mayara nos dias atuais) e Leandra Leal? O que será que aconteceu com Waldir?
O retorno de Fátima para casa foi uma das cenas mais tristes da minissérie até agora. Foi muito bom a direção não ter mostrado logo o rosto da personagem ao ver o seu lar sem vida, tomado por um capinzal. Ela se afastou da câmera e o telespectador somente viu, nos primeiros segundos, aquele corpo miúdo desaparecendo naquele espaço de solidão, naquele espaço do último encontro entre mãe e filhos.

Será que, depois dessas reviravoltas marcadas pelos surpresas do destino, já sabemos o que esperar de Justiça? Pelos ótimos teasers, eu esperava muito drama, histórias interessantes, boa trilha sonora e um elenco bem sintonizado com as suas personagens. Até agora, vi tudo isso. Há outras coisas que podemos comentar, mas vamos deixar para as próximas reviews. Falando nisso, nossas reviews sobre Justiça irão ao ar a cada dois episódios: às quartas, review dos capítulos de segunda e terça, e, aos sábados, review dos capítulos de quinta e sexta.
Nesses primeiros capítulos, notamos que as histórias das quatro personagens se cruzam. Maurício trabalha para a empresa do pai de Vicente e Fátima trabalhava como empregada para a sogra do rapaz. A inserção da história de Maurício e Rose foi feita, indiretamente, pelo olhar de Waldir. Vicente passou pelo caminho de Rose, tal como Elisa passou pelo caminho de Maurício. Esse ponto de vista múltiplo, a chamada dupla narração, quando um fato é visto por variados ângulos, está sendo explorado de uma forma bem coerente, dando uma bagunçada na cabeça de alguns telespectadores, saindo da narração convencional. Filmes como Corações apaixonados (1998), Magnólia (1999), 21 Gramas (2001), Crash – no limite (2006) e Babel (2006) são exemplos de narrativas em que tinham como foco o cruzamento de histórias, mostrando como as nossas vidas são interferidas pelas vidas de outras pessoas mais do que imaginamos.
Take 1: De todo o elenco, acho que os destaques, até agora, vão para Débora Bloch e Adriana Esteves, personagens, inclusive, que tiveram mais tempo em cena.
Take 2: A música tema da minissérie, “Hallelujah”, de Rufus Wainwright já fez parte da trilha de The O.C., mais especificamente no final da terceira temporada. É uma canção que possui uma carga dramática muito intensa. Gostei muito da escolha. Arcade Fire, Iggy Pop, e Zizi Possi também compõem essa maravilhosa trilha sonora.
Take 3: O capítulo 2, partindo do meu lugar de nordestino, trouxe uma identificação maior com Recife: as personagens, o cenário e as cenas de confraternização. É bacana ver o nordeste representado na TV. Porém, sinto falta de mais atores nordestinos e negros. Além disso, o nordeste não é só feito de Bahia e Pernambuco, não é mesmo? São dois Estados lindos e encantadores, mas a figura dessa região na teledramaturgia brasileira precisa sair um pouco desse eixo.
Take 4: Muito legal ver os quatro protagonistas lado a lado na cena delegacia.
Take 5: A minissérie possui ótimas personagens coadjuvantes, em especial, Kellen e Elisa.
Take 6: Não entendi direito o porquê de Elisa já sair de seu quarto praticamente gritando e chorando. Ela, naquela posição inicial, só conseguiria ouvir os gritos, e não Vicente com a arma apontada para Isabela.
Take 7: O fictício jornal “Diário de notícias” também foi um recurso utilizado para mostrar como pessoas de estilos de vidas tão diferentes estavam unidos, naquela noite, pela eclosão de uma tragédia. Vendo o roso de cada personagem na manchete, há um reforço na expectativa de quando iremos ver essas histórias se cruzarem de forma direta, sendo imprevisível o que poderá acontecer depois disso…















