Por que Lie to Me não nos apresenta sempre episódios como esse?

Spoilers Abaixo:

Não é de hoje que Lie to Me enfrenta problemas com a audiência. Desde a sua primeira temporada os números são baixos e a série corre sérios riscos de cancelamento desde então. Foi renovada pra uma terceira temporada quando ninguém esperava isso porque a FOX precisava de algumas séries para tapar buraco para a entrada de The X-Factor, na próxima fall season. Além disso, a série foi se perdendo cada vez mais no roteiro, culminando em uma piora em sua audiência. Aí, quando provavelmente é tarde demais, a série nos apresenta Funhouse, facilmente o melhor episódio de Lie to Me.

Convencido por Emily a ajudar sua amiga, Amanda, Lightman visita um hospital psiquiátrico para investigar a honestidade do tratamento dado ao pai da garota, Wayne. Lá, causa uma enorme confusão, levando o Dr. Grandon, responsável pelo hospital, à fúria. Após esse incidente, somos levados a uma longa investigação, e nela Lightman parece enlouquecer, agride um segurança do hospital, e é sedado e colocado em observação pelo médico. Tentando descobrir o que o deixou assim, mas nitidamente sem condições, Cal invade a sala de Grandon, enquanto alucina com sua mãe.

Começo minha análise pelo que o episódio tem de melhor: o caso da semana. Na review passada afirmei que Veronica era o melhor dos três episódios analisados. Os roteiristas, provavelmente tendo a mesma impressão, seguiram a mesma linha e criaram Funhouse. E veja bem, o episódio não é um repeteco do anterior. Pelo contrário, os dois são diferentes do primeiro ao último minuto. O que acontece é que mais uma vez a medicina tem papel fundamental no roteiro, e isso ocorre sem as histórias soarem repetidas.

Além da premissa interessante, o caso em si tem um desenvolvimento impecável, envolvendo o espectador do começo ao fim não só com a possibilidade de o hospital estar enganando a família de Wayne, como com a crescente chance de vermos Lightman perdendo a cabeça. Considerando a personalidade do personagem, não seria nada estranho se as alucinações e as atitudes estranhas denunciassem de fato um indício de loucura por parte dele. De fato, em muitos momentos cheguei a pensar se o roteiro não estava tomando um caminho para um melancólico desfecho para a série, com seu protagonista sendo internado por problemas mentais. Aliás, mesmo com a prova de que o verdadeiro culpado era os muffins feitos por Gina, irmã de Wayne,  ficou evidente que Lightman realmente tem problemas, mesmo que não sejam suficientes para caracterizá-lo como doente.

Além dos problemas de seu protagonista, o episódio ainda mostra que os roteiristas têm capacidade de produzir casos interessantes, sem que precise recorrer para assassinatos, ou outros casos de polícia. Além disso, o roteiro ainda toma cuidado ao introduzir seus personagens, sem produzir uma infindável lista de suspeitos, que no fim mostra-se desnecessária. Desde o princípio, o Dr. Grandon surge como grande vilão, com a suspeita de adulterar os medicamentos de Wayne para mantê-lo no hospital por mais tempo. Gina é introduzida em um eficiente diálogo com Torres e Loker, e logo se vê que a irmã tem um ar suspeitíssimo. Baseando-se em manter a dúvida entre o médico e a irmã, o roteiro consegue manter até o fim o mistério, sem que o desfecho soe absurdo e sem sentido.

Com relação à dinâmica entre os personagens, é bom ver que Torres e Loker tiveram um destaque positivo, embora pequeno. Os poucos momentos em que os dois tiveram oportunidade de aparecer o resultado foi muito bom, principalmente por conseguirem trazer um pouco do que Lie to Me nos apresentava antigamente, com alguns truques científicos, e diálogos divertidos. Além disso, Emily mais uma vez teve destaque, novamente sendo a responsável por levar o caso para o Lightman Group. Na review passada comentei como a garota tem agido com o pai, e nesse episódio fica evidente que a relação dela com ele está se invertendo. Cada vez mais ela parece se preocupar com Cal, como se ela fosse mãe dele. O diálogo entre os dois em que ele diz que ela se parece um pouco com a mãe dele é a maior prova disso. Não me surpreenderia se o series finale da série tratasse muito disso.

Uma vez analisado todo o episódio, é bom fazer uma observação com relação a uma reclamação que eu vinha fazendo constantemente: a falta de continuidade da série. Sempre venho aqui e digo que Lie to Me precisa construir alguns arcos para tornar o roteiro mais atrativo para o espectador, já que o público-alvo da série não é o mesmo de produções policiais. Apesar disso, ver um episódio avulso com um roteiro tão bem trabalhado faz com que a continuidade não faça tanta falta assim. Não estou dizendo que a série não precisa desenvolver nenhum arco, mas que às vezes isso pode ficar de lado. Se os roteiristas tivessem a sensibilidade de perceber que casos interessantes podem viver ao lado de arcos bem desenvolvidos, sem que um atrapalhe o outro, a série provavelmente teria vida muito mais longa.

Investindo em um ótimo roteiro com uma inteligente premissa, Funhouse mostra que Lie to Me ainda tem fôlego para produzir bons episódios. Pena que provavelmente isso aconteceu tarde demais.

Obs: Fui só eu ou os enfeites natalinos dão a impressão de que mais uma vez a ordem dos episódios foi alterada?

Obs2: Não esqueci do outro episódio dessa semana, Rebound. Já estou providenciando a review desse. Só considerei que cada episódio mereceria uma review separada.

No twitter: @GabrielOliveira

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