Não começou nas redes sociais, como muitos de vocês podem achar… As redes sociais são sim, um bom indicativo de indignação quando você está defendendo ou criticando uma série de TV. Eu, que já fiz críticas a Homeland, The Walking Dead e até a toda-poderosa Breaking Bad, sempre soube muito bem o que era sofrer o julgo das minhas percepções. Sobretudo porque eu sou fã de uma série de coisas que são usadas contra mim depois. Nas redes sociais, a indignação é um resultado natural do trabalho de reviewer e que acaba, por associação, se tornando inerente a qualquer observação feita mesmo que em 140 caracteres.
O que me motivou a escrever esse texto, porém, não foi a reação que recebi nas redes diante das minhas críticas a Game Of Thrones, mas a forma como um quadro de isolamento, desconfiança e descrença, foi se formando a minha volta conforme os episódios da sexta temporada corriam. Não é uma questão melodramática, longe disso. É claro que essas percepções ficaram no âmbito do sensorial. Mas, foi inegável a maneira como parte da minha credibilidade, do apreço que até mesmo amigos chegados tinham pela minha intelectualidade, foi discretamente arranhado por causa do que eu pensava do show. Não de uma forma agressiva, direta, mas daquela maneira inconsciente, vinda da mesma engrenagem que faz com que nos afastemos imediatamente daquele estranho que pensa diferente de nós numa mesa de bar.
A sexta temporada da série foi a melhor até agora (junto com a terceira), mas essa só foi uma percepção possível para mim após o Season Finale. Minha relação com Game of Thrones sempre foi cautelosa, ambígua, o que era perfeitamente natural para mim, que persigo a catarse em tudo o que vejo. GoT tinha problemas em se comunicar dessa forma comigo porque sua narrativa quase completamente literária, construía seus enredos a longo prazo, fazendo com que as temporadas funcionassem como linhas de apoio a um eixo invisível, que só seria desvendado num futuro distante. Ainda que mortes, traições e renúncias acontecessem, as convergências mais essenciais eram uma impossibilidade dramatúrgica, o que ia tornando o tempo dentro e fora do show, um exercício de paciência constante.
Seis anos depois, as recorrências começaram a me aborrecer. Na mesma proporção em que era claro que essa jornada era inevitável e necessária, a teoria do “coito interminável” continuava se aplicando. Para minhas expectativas e meu coração, as trilhas que os personagens trilhavam e que nunca levavam a uma convergência, foram tendo seu apelo enfraquecido. Os discursos de liderança de Dany, as aparições estratégicas dos dragões, os incontáveis diálogos formando ou quebrando alianças, as várias vezes em que um episódio terminou sob a iminência de um avanço, apenas para que esse avanço se situasse também no âmbito do futuro. Uma dramaturgia como a de Game Of Thrones exige a espera e meu envolvimento com o show foi começando a ser comprometido por isso.
Nos primeiros episódios desse ano, essa impaciência foi se tornando um mar bravio dentro de mim, que vi a série recorrendo a elementos como a “ressuscitação da moda” e a reafirmação de “vícios”, com Dany fazendo discursos, aparecendo no final dos episódios com dragões e até surgindo do meio do fogo como já tinha acontecido. E os diálogos sobre alianças continuavam, as idas e vindas nas estradas e montanhas continuavam. Para cada grande evento, uma nova trilha era providenciada e as consequências adiadas… E mais gente que parecia morta voltava, mais promessas de conflito que se interrompiam na etapa da possibilidade. O que eu sentia era uma imensa sensação de deja vú, como se pela sexta vez, a série estivesse jogando com os mesmos elementos de sempre porque não podia tomar grandes decisões que antecipassem viradas, as quais não seria possível desfazer depois.
Tomado por esses sentimentos, eu não me privei de falar sobre eles. A euforia em torno do show é completamente compreenssível, mas a cada declaração de que “a série tinha feito história na TV”, meu pretensioso instinto de indignação tomava a frente e eu me colocava contra isso. De certa forma, me aborrecia que por conta de sua produção impecável e da contemporânea atração das pessoas por personagens amorais, a estrutura realmente nada inovadora de Game Of Thrones ficasse na frente de produções que eu considerava mais importantes para a TV. E era a mesma arrogância dos defensores que me movia, na minha detratação. Eu querendo provar pro mundo que eu via a série com as cores que ela tinha, enquanto o mundo todo se divertia mais que eu.
O gelo da galera começou logo depois… Ser “hater” assumido de algo do tamanho de GoT não é para qualquer um. Aparecia uma galera concordando, mas a maioria não tinha coragem de “sair do armário” e volta e meia eu achava uma frase exclamativa sobre o quanto eu devia estar louco. Nos grupos de discussão – quaisquer deles – minhas opiniões caíam num limbo de indiferença e é bem provável que, secretamente, eu já tivesse virado uma espécie de piada, sem dúvida nenhuma acoplada a sentenças do tipo “o que esperar de alguém que gosta de Glee?”. O amor a Game of Thrones inundava minha timeline em ondas de completa devoção, enquanto a agressividade velada, passiva, daqueles que viam em mim uma aberração egocêntrica, era como uma névoa: visível, mas não palpável.
O apogeu foi na “batalha dos bastardos”, quando tentei desesperadamente lutar contra aquela avalanche de aprovação irracional. Depois de ver a finale (essa sim, extremamente corajosa), a sensação de que a batalha tinha sido somente uma batalha muito bem filmada, só se fortaleceu. Ainda defendo ferrenhamente meus argumentos de que nada naquele episódio era histórico (a não ser orçamentariamente falando), mas, o fato é que a solidão aumentou e eu fui confirmando que os questionadores “morrem” sozinhos nos seus poços de “razão”, enquanto os sonhadores celebram e se inebriam juntos. Mas, porquê pra mim era tão difícil sonhar quando via Game Of Thrones? Logo eu, que moro no ar.
Então, veio o Season Finale… Eu já falei sobre convergência aqui e acho que essa palavra é muito importante para que eu tentasse desvendar minha relação com o show. Convergência em dramaturgia significa ver concretizada a união de expectativas. O Season Finale da sexta temporada foi todo sobre isso e foi tão poderoso justamente porque esperamos MUITO para ver Cersei finalmente agir para chegar ela mesma ao poder, esperamos muito para ver Jon ser reverenciado como um rei, esperamos muito para ver Dany partindo de verdade rumo ao trono… Aconteceram muitas coisas pelas quais esperamos muito e foi em uma delas, especialmente, que eu encontrei o bálsamo tão negado anteriormente.
Para mim, Game Of Thrones é uma narrativa de superação do underdog. Claro que é o underdog numa proporção quase mágica, mas ainda é o underdog. Jon, Dany e Tyrion são para mim os grandes protagonistas dessa história, porque é a busca deles por aceitação e título, que movimenta as tramas principais. No Season Finale, os três puderam mostrar como saíram das sombras da descrença para a luz das honrarias. Então, a série não precisou de dragões, explosões e batalhas para me fazer chorar. Ela só precisou convergir… Na discreta cena em que Dany transformava Tyrion na “mão da rainha”. Naquele momento estavam sendo lançadas à superfície, todas as emoções latentes do pequeno Lannister e de repente, eu perdi o fôlego, os braços arrepiaram e eu solucei. Era um gesto que convergia os destinos dela e dele, um gesto que transformava-os em pessoas ainda mais especiais… Era um gesto definitivo, não era mais um adiamento.
Aí, eu e Game of Thrones fizemos as pazes. Ainda precisei engolir meu orgulho, minha vontade rebelde aquariana de continuar negando o show só pra não dar o braço a torcer. Mas, a vontade de ser feliz era maior, e eu nunca tive vocação pra sofredor. Às vezes o mimimi é necessário, sobretudo nesse trabalho, mas eu não me alimento de confrontação. Prefiro que o sonho me contradiga mil vezes, do que viver perseguindo o amargo da razão. Putz cara, como é bom dizer emocionado:
O Inverno Chegou.
PS do Corvo Branco: Se o coleguinha não engatar na mesma viagem que você quando o assunto for série de TV, preste atenção nos argumentos dele. Se não houver nenhuma tentativa de diminuir você como fã, é só porque ele não embarcou mesmo. Então, vamos ser pessoas melhores e não desejar a morte, nem a dor mais profunda e muito menos a indiferença passivo-agressiva, ok? Na melhor das hipóteses, tudo pode mudar…
PS do Corvo Branco 2: A última vez que escrevi sobre Game of Thrones foi há anos atrás, quando peguei uma review da premiere da quarta temporada e apesar de ter falado bem, fui massacrado nos comentários pelos leitores que simplesmente não me queriam ali. Quase morri, fiz um dramão e falei até em desistir. Talvez tenha sido nesse momento que me obriguei a ser mais racional sobre a série, já que ela me remetia a algo tão ruim. Esse texto aqui, agora, além de uma espécie de mea culpa, é meu revide terapêutico definitivo. “Podem até maltratar meu coração, que meu espírito ninguém vai conseguir quebrar”.














