Dia do caçador.

Saber lidar com as consequências dos atos talvez seja a qualidade mais nobre de um líder. O processo que leva até essa conclusão, bem, esse é mais complicado. Afinal enfrentar os fantasmas do passado é uma tarefa árdua e muitas vezes um caminho sem retorno. E esse terceiro episódio de Marco Polo é sobre as consequências. Tudo que vai tem volta.

Mais que uma parábola visual, uma parábola narrativa aquela escalada de Kublai e Polo em busca de respostas sobre o desafio de Kaidu. A cada passo mais acima na montanha, as verdades eram jogadas em torrente para fora de ambos, colocando os necessários pingos nos “is” para que a relação entre os dois chegasse no ponto final do episódio. Transformar Polo num membro definitivo da armada do Khan é um ato mais afirmativo do que acolher o estrangeiro em seu reino. Sozinhos, colocando os fatos em xeque e o lobo perseguindo implacavelmente a dupla, como o temor “metafórico” que acometia ambos. O de Polo de estar se aliando a alguém que vai de conflito a seus valores ocidentais e Khan de estar perdendo o poder que arduamente conquistou. Quanto a esse segundo, a decisão de seguir o plano de Ahmad e expor o corpo do imperador menino pendurado nos portões da fortaleza imperial foi talvez seu maior erro. As rebeliões sejam talvez o menor dos males, ao se concentrar somente em Marco e perder o primeiro alicerce conhecido, a Imperatriz Chabi, Kublai vai caminhando para um destino cada vez mais caótico e inesperado.

Chabi e Ahmad vão, cada um a seu modo, colocando em práticas o que antes só era esquematizado mentalmente. Kokachin entrou numa sinuca psicológica ao ser forçada a se casar com Jingim e agora entra novamente no mesmo jogo, no plano físico. A exigência da imperatriz de que a princesa tenha um herdeiro antes da disputa pelo canato rendeu os melhores momentos do episódio, com a refeição “à la Khaleesi” para melhorar a fertilidade e a submissão final de gerar um herdeiro, mesmo que esse não venha do príncipe herdeiro. Ahmad acertou de um lado, ao afastar o Khan da esposa, mas acabou errando de outro ao dar certa visibilidade a Jingim. Mais comedido e diplomático que o pai, o príncipe acabou convencendo aliados do primo a ponderarem sobre a legitimidade do pai. Talvez não se curvem ao Khan ou a Kaidu, mas no futuro se curvem a Jingim.

Mas no meio do caminho de Ahmad tinha uma pedra chamada Kaidu. Mesmo com toda a tradição do candidato ao canato, escolher coroar a filha, Khutulun, como herdeira é uma jogada fora do comum. A garota é realmente mais condizente a comandar após o pai, mas o irmão não vai receber muito bem essa notícia e aposto na disputa certa entre os dois pelo poder. O certo é que a emboscada que vitimou a perna de Ahmad mostra que até a conclusão de seus planos há variáveis que podem aparecer de todos os lados, de onde se menos espera.

Nas estepes de Marco Polo cada curva no caminho traz novos perigos desconhecidos até então. E nessa terra disputada a caça tem muito mais chances de sucesso do que o caçador no final do dia.

Bayartaj!

PS 1: Prevejo tretas fortes com Mei Lin e a guarda costas unidas para derrotar Ahmad (acho que seja ele);

PS 2: Mais uma cold opening poderosa na série;

PS 3: Treta mais forte ainda vai ser se chegar nos ouvidos do Khan que Jingim não tem sangue real afinal. As imperatrizes guardam mais segredos do que parecem…

PS 4: Byamba correndo o risco de ser o “primeiro-cavalheiro” da história mongol.

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.