Apesar do título, o episódio parece que não conseguiria reconhecer possibilidades nem que elas formassem uma gangue e o atacassem com uma serra elétrica numa esquina escura. Depois do ótimo episódio da semana passada, Preacher volta com um capítulo com gosto de comida requentada. Nada acontece, não há senso de urgência e quando chegam os créditos… puff! Você se esquece do que acabou de ver.
E se isto acontece, é porque a equipe de produção ainda não parece ter entendido a fórmula narrativa serializada. Três episódios depois, Jesse ainda está lutando para compreender a sua habilidade (não a sua natureza misteriosa, mas a sua própria essência) e todas as tramas só parecem se conectar porque ele está no meio de todas elas. O roteiro deste terceiro episódio, por exemplo, foi um dos piores que saíram da AMC em algum tempo. Pertence à mesma gaveta de onde saem os episódios sacanas de The Walking Dead e os seus brilhantes ganchos.
O episódio desconsiderou completamente (em alguns momentos, pareceu rir da ideia) o maior fundamento da escrita para televisão: dar ao seu espectador a impressão de que cada episódio é necessário para acompanhar o crescimento do personagem. Bem, não é o caso aqui. O texto de The Possibilities é puro e genuinamente… Burro. Não há evidência mais concreta para essa afirmação do que a linha de acontecimentos do episódio: Jesse está cuidando dos seus assuntos e Tulip acaba tropeçando no seu caminho; Jesse subitamente decide ir atrás de Carlos com Tulip, mas sem jamais parecer que quer de fato estar ali; Jesse e Donnie se confrontam no banheiro (e aqui Rogen e seus companheiros se lambuzam mais uma vez no seu fetiche em usar epifanias como motivações para os personagens); Jesse resolve não ir atrás de Carlos com Tulip (algo que você nunca acreditou que ele faria em primeiro lugar).
Se um grupo de trabalhadores decidisse jogar pedras num muro até esculpirem um novo prédio, provavelmente teriam mais sucesso do que The Possibilities teve em avançar a história. Mas para não ignorarmos o pouco de bom que houve no episódio, vamos lá.
O Bom,
A abertura da série ficou decente. Ainda prefiro a ideia de uma versão com Son of a Preacher Man tocando, mas é melhor do que só ter um título jogado no início de cada episódio. Só achei que algumas imagens fizeram a coisa acabar tendo mais uma vibe de Thomas Pynchon do que de Preacher.
A participação de Tulip foi o que redimiu um pouco o episódio. A sua cena com o policial, embora pudesse ser melhor escrita (de preferência de uma forma que o coitado do homem da lei não soasse um imbecil facilmente manipulável), funcionou muito bem. Os diálogos da personagem melhoraram bastante e ela tem uma personalidade bem cativante. A Ruth Negga pareceu ter mais espaço e liberdade para explorar a personagem e consolidar melhor quem Tulip é. Espero que a Amy apareça na série. Era uma das minhas personagens prediletas dos quadrinhos e adoraria ver as suas interações com a releitura que fizeram de Tulip.
Não que não fosse esperado, mas Cassidy também foi uma ótima fonte de entretenimento. O acento, que no piloto foi um problema enorme e que ainda não estava perfeito no episódio passado, está inteligível. [SPOILER] Também me diverti muito vendo ele contracenar com a dupla enviada pelo céu. Se você está se perguntando o porquê de isto estar categorizado como spoilers, estou apenas me prevenindo para o caso de alguém não ter entendido que eles estavam se referindo ao céu num sentido literal. [/SPOILER] Porém, para mim agora ficou claro que nem no espírito do Cassidy acertaram. Não é um problema muito grande para mim porque não gostei dos rumos que Ennis tomou com o personagem nos quadrinhos, mas também não sei se aceito sem ressalvas a AMC tê-lo reduzido a um alívio cômico (ou ter feito ele gostar de Justin Bieber).
O Feio,
A sequência inicial foi bem ruim. O espectador distante do material original (que é a quem deveriam estar segmentando a série) deve ter se confundido ainda mais essa semana. Estão enchendo de coisa uma história em que o protagonista ainda sequer entendeu o que diabos quer fazer ou o que ele é capaz de fazer. Talvez funcionasse melhor se a série abraçasse o absurdo, mas como ela se recusa a fazer isso, eu vou ter de continuar lamentando por quem não está entendendo nada. [SPOILER] E pelo visto não vão parar, porque já é o terceiro vilão (ou antagonista, porque o segundo vai fazer muita gente questionar essa nomenclatura) que introduzem. Odin Quincannon, o Santo dos Assassinos e agora o teaser pro Herr Starr (outro dos meus favoritos de Preacher). E eu estou é com a impressão que o trenzinho do fanservice acabou de sair. [/SPOILER]
Todo mundo na cidade é legal. Até o sujeito que bate no filho e o outro que tem desejos sexuais por crianças são legais. Ninguém é babaca ou ruim. Preacher não é uma narrativa com um ensemble cast (onde todos são protagonistas), ela é uma história fortemente inspirada pelos westerns e pela ideia americana de que você tem sempre um herói (o bom patriota) e um vilão (o comunista, na maioria das vezes). E isso era uma daquelas coisas que dava aquele charme ao material original. Aqui, como temos um drama ‘maduro’ e realístico, ninguém pode ser muito ruim, porque isso é caricato e obsoleto hoje em dia. ‘Esse cara aqui… ele bate na mulher, ele bate no filho, ele tenta bater no reverendo… mas ele se redime com o filho, tá vendo? O chefe dele é pior, tá vendo? Nós não temos pretos e brancos, temos cinzentos, tá vendo?’ Outra personificação disso é o pai do Cara de Cu, que acabou sendo retratado como um xerife gente boa, embora os seus abusos fossem bem importantes para o futuro do filho. O único ruim mesmo é o Odin, que almoça ouvindo os gemidos de animais sendo mutilados. Esse sim. São os roteiristas dizendo ‘é esse aí que vocês têm de odiar… tão vendo?’. Só que ele não é excêntrico. Ele não é doido. É um cara malvado que fala pouco. Aquele charme de western, do pistoleiro justo que entra no bar e dá uma surra no bigodudo se metendo com as mocinhas? Você veio ao lugar errado.
Mas o maior problema de Preacher, sem dúvidas, é o protótipo que os produtores por alguma razão chamam de Jesse Custer. Dominic Cooper interpreta o que é, de longe, uma das adaptações mais insossas que qualquer herói da linha Vertigo já recebeu.
Imaginem o Homem-Aranha. Super-herói que todo mundo conhece, certo? Até o seu avô consegue reconhecer o Homem-Aranha e descrever o personagem em algumas palavras. Agora imaginem que no seu próximo filme, o garoto por trás da máscara continue sendo Peter Parker, mas ele agora é… Burro. Peter não sabe as operações básicas da Matemática, ele não consegue passar dos exames nem com a ajuda de cola e ele continua repetindo. Além disso, ele não é engraçado, cheio de si ou honesto. Ele chora pelos cantos da escola por ser um fracassado, se afasta de todos que tentam se aproximar dele e não gosta de falar mais do que quatro ou cinco palavras por mês. Como Homem-Aranha, o seu uniforme é preto e ele usa uma capa. Na verdade, ele sequer usa uma Aranha como símbolo. O seu símbolo é um escorpião. Agora imaginem que nunca tivemos qualquer adaptação do Homem-Aranha e que o grande público passará a pensar no personagem desse jeito. Nunca houve um Homem-Aranha brincalhão e esperto fora dos quadrinhos, só o depressivo Homem-Escorpião.
Do fundo do meu coração: o Homem-Escorpião ainda seria uma releitura mais apropriada do a que fizeram de Jesse Custer.
Jesse é, na ausência de melhores palavras, um fracassado com papel higiênico nas calças. Ele decide usar a Palavra numa moribunda, mas sai correndo no instante em que ela abre os olhos. Afinal de contas, se os olhos dela estão abertos, ela automaticamente deixou de estar num estado vegetativo. Ele batiza um pedófilo em água escaldante e ordena que ele se esqueça da garotinha por quem está obcecado, mas assume que ele é uma espécie de pedófilo monogâmico e que não irá sentir atração por mais nenhuma das dezenas de garotinhas no ônibus (que Jesse não teve problema algum em deixar ele continuar dirigindo). Ele não se impõe ou toma partido em qualquer arco dramático. Muito pelo contrário, as coisas simplesmente acontecem e ele está lá no meio para falar com uma voz rouca e supostamente amedrontadora. A coisa mais impulsiva que esse Jesse deve ter feito foi denunciar a página da ATEA no Facebook. Aquele herói oitentista que você sente que conseguiria dar uns sopapos em qualquer um e que varia entre altruísta como um santo e violento como um maníaco? Ele não existe.
A direção também não ajuda. Algum estagiário achou que seria uma ideia bacana filmar os momentos em que Jesse usa os seus poderes em grandes close-ups contra-picados. O resultado são planos que não só te deixam com o corpo congelado pelo constrangimento, como também confundem, já que esse tipo de plano acabou criando um significado específico no imaginário popular (de que o personagem em questão está possuído).
e o Feio
O flashback da luta na igreja foi totalmente desnecessário e ofensivo. Foi um novo estágio no joguinho de ‘chame o espectador de burro’, já que eu acho que ninguém se esqueceria da melhor cena de toda a série até agora (e a única acima do medíocre).
Não entendi como o Donnie chegou no posto sem a Tulip reparar. E se ela viu ele chegando, não entendo porque a mesma mulher que quase saiu na pancadaria com um motorista desconhecido deixaria alguém com vontade de matar o seu ex-namorado tentar a sorte. Se eu tiver perdido algum detalhe nessa sequência, me avisem. Passei uma parte considerável da minha noite tentando ver o episódio e caindo no sono.
Esse Odin Quincannon parece uma porcaria de vilão. Já esclareci que não ia com a cara do personagem dos quadrinhos, mas ele se encaixava no arco que Ennis estava construindo (que, aliás, é o meu arco favorito dos quadrinhos). Aqui ele é um claro exemplo de que Rogen e sua turminha não fogem do clichê de pensar que excentricidade significa um bom vilão. Como ainda não vimos praticamente nada do personagem, me pareceu injusto colocar essa observação lá em cima.
… e a sentença é…
Este tribunal declara o episódio filler e o condena a 10 anos revendo o piloto. Nada acontece. Ou talvez tenha acontecido e eu estivesse dormindo. Não houve conclusão, não houve gancho e neste exato momento, não há nenhuma razão para continuar acompanhando Preacher a não ser a esperança de que a série fique boa. Não de que fique melhor, não de que continue como está… de que fique boa. E isso é extremamente decepcionante. Se você é uploader da série em algum site de downloads, a melhor coisa que você pode fazer pelos seus visitantes é compartilhar Better Call Saul e colocar os títulos dos episódios de Preacher.















