Guto Parente | Brasil, 2016, 71’, Ficção

O caso de Ezequiel é deveras estranho. Sexto longa do cearense Guto Parente – um dos diretores mais prolíficos em atividade aqui no país, dirigindo uma grande quantidade de trabalhos por ano desde dois mil e oito –, é provavelmente o filme mais excêntrico a ser exibido na mostra competitiva desse 5º Olhar de Cinema. A película parte de uma premissa simples, não fosse pela mão pesada e inventiva de Parente segurando a câmera. Um homem (Euzébio Zloccowick) nos seus quarenta anos, cabelos longos, barba largada, perdeu a esposa há pouco tempo. Certo dia, à noite, um ponto de luz verde atravessa os céus, e aterrissa silenciosamente na cobertura de sua casa. Os desdobramentos do encontro entre os dois são o pretexto para o filme mais fantasioso e experimental da carreira de Parente.

O elemento mais marcante aqui é o descarado uso de uma estética próxima àquela proposta pelo cinema trash, tanto nos efeitos visuais quanto na natureza das atuações. O uso da luz, por exemplo, em especial nas aparições do ser extraterrestre na casa de Ezequiel, é exagerado, estourado, e a própria atuação de Caio Dias é excessiva, hiperbólica, canalizando um espírito que lembra o do expressionismo alemão justamente pelo exageiro, e o próprio Dias se assemelha a uma espécie de Cézanne moderno. Há, entretanto, uma confusão tonal que prejudica o filme, em algum nível. A abertura sóbria, silenciosa, com takes longos de Ezequiel melancólico lamentando a morte da amada em casa, parece apontar para um caminho oposto ao que o longa de Parente toma. Outra vez, é preciso chamar atenção para as aparições do ser extraterrestre, que além de sempre banhado em uma luz absurdamente verde, está em constante convulsão corporal, balançando-se, com a boca aberta, e confunde o público, que deveria sim rir do absurdo, mas acaba por considerar aquele um elemento mal realizado em meio a uma história séria e profunda, sendo que é, como o filme vai mostrando, um elemento estranho, mas propositalmente.

‘O Estranho Caso De Ezequiel’ constitui-se, na realidade, de dois filmes quase independentes. O primeiro, que corre por pouco mais de quarenta e cinco minutos, mostra a dinâmica entre Ezequiel e aquele ser estranho em sua casa, e que, por algum motivo, traz de volta à vida sua amada morta (Nataly Rocha), e consequentemente a felicidade na vida do homem. É uma situação inesquecivelmente bizarra, a estética igualmente absurda, que funde gêneros como quem testa roupas para sair à noite, traz pitadas de terror, drama e comédia, e funciona em toda sua particularidade.

Já o segundo filme se passa mais de duas centenas de anos depois, em um planeta distante, presumidamente aquele de onde veio o personagem de Caio Dias. Aqui, Guto Parente abandona qualquer pretensão narrativa, e abusa dos recursos sensoriais que tem a seu dispor. Estilizados ao extremo e tão saturados que doem os olhos, a meia hora final do filme é um gigante videoclipe orquestrado por duas ou três canções indies, que parece algo que Mac DeMarco assistiria fumado numa tarde de domingo. É inevitável pensar, então, que talvez ‘O Estranho Caso…’ funcionasse melhor fosse uma dupla ou trio de curtas-metragens, já que falta ao longa um pouco de coesão, mesmo que seja para amarrar elementos tão extravagantes.

Para aqueles que sabem apreciar esse cinema mais absurdista, que se desarma de pretensões argumentativas e sabe entreter e explorar os limites da normalidade, ‘O Estranho Caso De Ezequiel’ será um prato cheio. De qualquer forma, goste ou não, é bom ver que o Olhar de Cinema é também lar dessas obras menos convencionais, e não se limita aos “filmes sérios” ou “de mensagens”.

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