Arthur Tuoto | Brasil, 2016, 63’, Ficção/Experimental

O papel da imagem no cinema, enquanto ferramenta linguística de comunicação, é alvo de constante debate entre os estudiosos da sétima arte. O que antes nasceu como mera expansão da fotografia, evoluiu, já nos anos 30, para se tornar o papel no qual eram escritas as histórias mais populares de seus tempos. Hoje, o cinema, já maduro, comporta uma multiplicidade de usos para as imagens que não entram em conflito entre si. Há diretores, como Matías Piñeiro, homenageado com a mostra Foco nesse 5º Olhar, que se interessam por um cinema falante, rico em palavras, ao redor das quais idealizam-se as filmagens e, do outro lado do espectro, há obras como ‘Carnívora’, que usam o visual enquanto linguagem própria e soberana.

Nada disso equivale a dizer, contudo, que ‘Carnívora’ não mantém uma relação com o cinema narrativo, muito pelo contrário. Baseado no breve conto The Carnivore, de Katherine MacLean – surpreendentemente evocativo e com uma mitologia riquíssima ao contar a história de uma mulher encontrada por seres alienígenas descendentes de animais herbívoros –, o longa, composto integralmente de materiais de domínio público, incorpora a gravação de uma leitura do texto, no inglês original, e que é o norte pelo qual se guia o espectador, criando sentido para as imagens. Sempre que há fala, porém, a tela é escura, e distingue-se claramente o material da fonte original e as elucidações de Tuoto, diretor do filme. As imagens, então, são uma espécie de meditação acerca das questões levantadas pelo conto sobre a natureza humana, devaneios que funcionam sob uma lógica próxima à dos fluxos da imaginação.

O grande mérito do filme, sem dúvidas, deve ser atribuído a MacLean, cujo texto cativante e hipnótico parece eliminar o mundo ao redor quando lido em voz alta. No entanto, isso não quer dizer que Tuoto não seja extremamente sensível e competente nas suas escolhas enquanto diretor. Pelo contrário, há uma noção de ritmo notável ao fundir prosa e imagética ponderadas, de forma que ambos os elementos sejam igual e constantemente interessantes, com um tempo de tela nada maior ou menor do que o necessário, além de ter consciência dos limites do formato, usando o tempo com economia e encerrando o longa com pouco mais de uma hora marcada no relógio.

A seleção de imagens feitas por Tuoto, portanto, trabalham de forma a expandir as questões filosóficas do conto, que vão da natureza da violência na sociedade ao nosso papel na cadeia alimentar. A cada curto trecho do curto conto, observamos uma variedade extensa de imagens, sejam caseiras e familiares ou grandes registros oficiais de tempos de guerra, e que não são nem ilustrações para as palavras de MacLean nem explicação para as lacunas por elas deixadas, mas sim estímulos mentais, cujos sentidos são essencialmente subjetivos.

‘Carnívora’ é um raro caso de cinema que atropela as barreiras da convencionalidade, ao mesmo tempo que é integralmente acessível, devido à clareza de ideias transmitidas pela literatura. As palavras da americana mantêm os pés do espectador no chão, permitindo que as filmagens sejam um convite opcional a um aprofundamento, uma ressignificação, de forma a trazer à tona conflitos que são pessoais, íntimos, embora brotem de problemas tão universais.

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