No seu segundo episódio, Preacher começou a se parecer mais com… bem, Preacher. O que mais me incomodou na estreia foi a maluquice e o humor estrebuchado parecerem tão pontuais. E ainda que esse meu sentimento ainda não tenha desaparecido, achei o episódio menos tímido e absurdamente divertido. Fazia tempo que não via um piloto tão decepcionante seguido por um episódio tão bom.
Já que assim como Jesse Custer (o dos quadrinhos, ao menos) eu também alimento uma paixão calorosa pelos western spaghetti, resolvi adotar uma estrutura para os meus textos que dividem os aspectos relevantes do episódio em três categorias: o Bom (o que me agradou), o Mau (o que achei ruim) e o Feio (o que ainda não tenho certeza de como me faz sentir ou que poderia ser melhor, mas não incomoda).
Agora que isso já chegou à superfície, vamos discutir sobre o episódio. Como mencionei no parágrafo inicial, Preacher pareceu ter mais orgulho das suas raízes nesse episódio, mas aquela necessidade de ser encarada como um grande drama ainda está lá. A pegada charmosa de Preacher, para mim, era a história ser uma declaração de amor de Garth Ennis às coisas que o conquistaram ao longo da sua vida. O autor gosta de Laurel & Hardy, portanto vemos Jesse e Cassidy discutindo sobre a superioridade dos comediantes a Chaplin. O autor odeia as ideias da psicologia moderna, portanto vemos Jesse e Cassidy confessando o quanto odeiam expressões como insegurança. Todo o espectro religioso da obra é uma brincadeira com a visão pessoal do próprio escritor. Preacher servia como um desabafo político-social descarado do próprio autor (e a maior prova disto é os personagens estranhamente terem opiniões bastante semelhantes sobre assuntos tão específicos).
A série ainda não parece ter encontrado essa honestidade. Ao invés disto, ela quer ser vista como algo mais sofisticado e denso, algo que Preacher muitas vezes sucedeu em ser justamente por não ter esta natureza como a sua meta. Recomendo os textos sobre Preacher do Fábio Kazim aqui no SM para quem quiser ter uma noção do espírito único da série.
O Bom,
O flashback do Santo dos Assassinos como introdução foi uma jogada fantástica e me calou o bico, já que semana passada eu assumi que o personagem não apareceria na série. Foi bem simples, mas deve ter despertado aquela dúvida bacana na cabeça dos espectadores não familiarizados com o material original. É uma pena que a cena não tenha sido relevante para o resto do episódio e que tenha sido apenas uma forma de preparar terreno. Gostei bastante do efeito de vignette que escolheram para identificar os flashbacks, com as bordas do quadro ligeiramente desfocadas.
Algo legal que retornou nesse episódio foi a piadinha do marquee da igreja (não sei uma tradução legal pra essa palavra, mas estou falando do painel de saudações). Só espero que isso não seja o máximo de humor negro com o catolicismo que a AMC esteja disposta a fazer. Aliás, o bom humor foi o que tornou esse episódio especial. Ao contrário do piloto, onde tive o sentimento de que as piadas eram pequenas sketches desconexas, aqui elas estão super bem integradas. A cena em que Jesse toma a bebida do Cassidy e desmaia, por exemplo, funcionou muito bem, apesar de resumir perfeitamente para mim porque o Jesse da TV ainda não tem nada de Jesse Custer.
Estou adorando o lado mais trippy/viajado da série e espero que seja algo recorrente. No episódio passado tivemos a animação do espaço e aqui temos uma do organismo de Jesse por dentro. [SPOILER] Espero que façam uma representação bem colorida e caricata do Gênesis. Estou falando da cabeça de bebê gigante chorando nos céus mesmo. A própria origem da entidade daria uma sequência em stop-motion divertidíssima. [/SPOILER]
A pancadaria entre Cassidy e os investigadores na igreja foi espetacular! Aquilo foi Preacher puro! Fiquei com a impressão de que estão filmando essas cenas com uma taxa de frames diferente do padrão de 30 fps. Não consegui entender ainda como estão deixando elas tão plásticas e animatrônicas. De longe uma das sequências de ação mais bem filmadas e montadas que vi nos últimos tempos. Nos quadrinhos as brigas são um pouco mais cruas e a graça era ver um vampiro super-poderoso como Cassidy lutando como um malandro de rua, mas a adaptação ficou impecável. Além de engraçado, conseguiram deixar a sequência tensa. A mãozinha apertando o gatilho da serra e deslizando até o Jesse foi um toque extremamente inventivo. O sujeito cantando foi uma quebra de expectativas genial e a sugestão sonora que ele usa para separar os investigadores dos outros é intrinsicamente engraçado. Que coisa boa ver que de vez em quando o Seth Rogen se lembra de como fazer comédia com a linguagem incrível que tem nas mãos.
O Mau
Por outro lado, a amizade entre Jesse e Cassidy, por mais que tenha funcionado em termos de dinâmica, foi terrível em termos de crescimento. Sério, ficou muito mal escrito. No segundo episódio os personagens parecem já se conhecer há meses, como se já tivessem entendido as suas diferenças de personalidade e as tivessem superado. Pô, uma das coisas mais bacanas foi a maneira orgânica e motivada com que Ennis construiu a amizade dos dois nos quadrinhos. A impressão que ficou aqui foi a de que como os dois têm de ser amigos, eles serão amigos. Isso já tinha ficado meio porco no piloto, mas aqui ficou bem pior. Não há razão nenhuma para Cassidy, que estava vivo para lutar na Guerra da Independência da Irlanda, ficar tão próximo de um reverendo tão subitamente. Aliás, esse era um dos conflitos do personagem, não se aproximar de ninguém para não ter de vê-los morrer. Aqui os dois são camaradas porque o Cassidy o viu quebrar alguns caras na porrada e resolveu “ajudar” (?).
Um grande problema com a galeria dos personagens é o choque de interesses entre todos eles. Fica a ideia de que estão todos ali sem qualquer razão. Tulip quer convencer Jesse a ajudá-la nuns golpes, Cassidy está escapando de alguns vampiros, Jesse quer ganhar o Óscar de melhor reverendo… parece que a cidade toda é feita de papelão. Parece que estamos vendo uma sitcom sobre uma cidadezinha no interior e de vez em quando um dos muitos secundários aparece para interagir com o protagonista e avançar um pouco a história do episódio. O maior exemplo disso foi a trama do pedófilo, que pareceu existir ali somente para ativar os poderes de Jesse e demonstrar a sua violência. Bem, se o reverendo já sabia dos impulsos do sujeito, me parece muito conveniente que ele só tenha decidido fazer algo sobre a situação (possivelmente) meses depois. Ele arranja confusão com a cidade toda assim que descobre que um homem está batendo na mulher e no filho, mas resolve ser progressista sobre o abusador de crianças em potencial? Não genvou nem comentar o quão mal dirigida foi a cena em que Jesse descobre os seus poderes (e a pós-produção também não ajudou).
e o Feio
Contradizendo alguns boatos, a AMC aparentemente descartou a possibilidade de uma abertura com Son of a Preacher Man. Caraca, imaginem o quão MARAVILHOSO poderia ter sido. Ao invés disto, temos um título genérico com uma tipografia genérica. Enquanto isso, ainda há quem de alguma forma não veja o quanto o canal está tentando transformar a série num dramalhão. Escutem a música e imaginem o favor enorme que ela faria para o tom da série.
Ainda não sei bem o que acho do efeito sonoro que colocaram na voz do Jesse quando ele usa a Palavra. Eu não gostava muito da sugestão visual que usavam nos quadrinhos, mas funcionava. O efeitou ficou aceitável, mas não parece ter o impacto celestial que as vítimas de Jesse descreviam na história original. Não parece algo que você consegue imaginar se tornando uma tendência na internet e fazendo mais pessoas conhecerem Preacher por ser tão único.
Não gosto da Tulip sem o boné! Ficou tão legal nela semana passada. Me fazia esquecer o quanto eu odiava a personagem que a Ruth Negga fazia em Misfits. Ficou bem legal, mas espero que não se restrinjam a esse estilo e mostrem que uma mulher pode apreciar os mais diferentes tipos de vestuário.
Ainda não cheguei à uma conclusão sobre o Cassidy achar O Grande Lebowski superestimado. Será que o Cassidy dos quadrinhos concordaria com isso? Quer dizer, acho que isso combina um pouco com o gosto específico do personagem para comédia. Consigo imaginar ele preferindo Queime Depois de Ler. Se assim como Ennis fazia Rogen tiver usado o personagem para conduzir uma opinião pessoal, a coisa faz mais sentido. Falta canábis e peido nos filmes dos Coen para agradar o comediante.
A coisa mais legal que a série jogou no lixo foi o mistério dos olhos do Cassidy. [SPOILER:] Quando vemos eles pela primeira vez nos quadrinhos é um big deal, porque eles são bem demoníacos. [/SPOILER] Além disso, teria sido um detalhe ímpar para o personagem nunca tirar os óculos. São coisas pequenas assim que mostram que Rogen parece entender só a camada superficial de Preacher.
A capacidade de expressar fúria suprimida do Dominic Cooper é bem problemática. Acho que no mundo real até um cego seria capaz de enxergar o seu ódio enquanto o pedófilo faz a sua confissão, mas convenientemente não foi óbvio para o personagem. A Ruth Negga também podia demonstrar melhor o lado ameaçador (porém divertido) que a personagem tem. Ela não mostrou muito bem o “dynamic range” emocional da Tulip ainda.
Dois episódios e a narrativa já está meio poluída. Cassidy sendo caçado, Tulip e o seu mapa, Santo dos Assassinos e Odin Quincannon como vilão da temporada? Foi muita coisa para introduzir em dois episódios. Como eu já referi, a aparição do Santo, ainda que legal, ficou virtualmente inútil dentro do episódio. Quanto ao Odin, acho o personagem um tiro no pé. Não porque ele surge numa fase bem tardia nos quadrinhos (e sequer é um vilão de grande porte… RÁ!), mas porque o Jackie Earle Haley é fisicamente ameaçador demais para o personagem. Poxa, o cara interpretou o Rorscharch. Tira toda a essência do vilão. Haley teria sido uma excelente escolha para interpretar o Her Starr, por exemplo. [SPOILER] Além disso, duvido que a AMC tenha bolas para mostrar o personagem sendo protegido pela KKK e transando com pedaços gigantes de carne… o que eram basicamente os únicos traços característicos do personagem. Deveriam ter começado logo com o arco do Graal. [/SPOILER] Isso não seria um problema se eu confiasse na aptidão narrativa do Rogen. O que não é o caso. Não consigo ver ele sabendo lidar com tanta coisa, mas vamos ver.
… e a sentença é…
Essa semana a série acertou bastante, mas ainda não está completamente nos trilhos. Ainda não é o potencial todo que a trama tem, mas também é cedo. Só nos cabe rezar para que a AMC não tente fazer de Preacher o seu novo The Walking Dead e entenda que tem algo com o poder de ser verdadeiramente relevante nas mãos. Ou não. Se Preacher for pelo ralo, sempre teremos Cassidy mutilando gente com uma serra-elétrica numa igreja.















