Com finale dupla, Girls falou sobre amor próprio.

Uau. Que temporada de Girls. Depois de cinco anos, a série ainda consegue entregar surpresas da mesma forma como fazia em seu primeiro ano. O primeiro episódio do final duplo, Love Stories mostrou uma Hannah disposta a reinventar-se, mas não só na protagonista vimos esse sentimento. Marnie, Ray, Shosh e Elijah também tomaram a mesma direção, todos com resultados diferentes, no entanto.

A cold open de Love Stories (dirigido por Alex Karpovsky, o Ray, e escrito por Dunham) mostra o fim da linha para Fran, que enfrenta dificuldades para aceitar o fim do relacionamento com Hannah, e a protagonista disposta a tudo para se livrar do personagem. Fran, que começou como bom moço, se transformou através da temporada, chegando a se tornar o macho que não sabe lidar com a rejeição de uma mulher. Mas Hannah recebeu sinais do universo de que era tempo de mudar, e assim fez. Abandonou o emprego de professora de queixo erguido, parabenizada pelo antigo chefe. Encontrou com uma antiga colega enquanto vagava pelas ruas de New York.

E é aí que Girls começa a mostrar suas facetas. Nunca antes na série Lena Dunham afirmou tanto que se ama, e que isso é uma coisa positiva. Em diálogo com Tally (interpretada pela brilhante Jenny Slate), Hannah afirma sentir inveja da vida da amiga. Mas as descobertas pessoais de Hannah, e sua experiência de vida, superam qualquer livro de contos ou ensaios. É lindo ver Hannah roubar uma bicicleta e explorar New York, reafirmando a leveza que Hannah se tornou. Por trás do egoísmo e infantilidade que muitos afirmam ser as características mais insuportáveis da protagonista de Girls, existe uma personagem sensível e disposta a ser feliz, lembrando sempre que as características negativas de Hannah são reflexo claro da autocrítica de Dunham.

Dirigindo-se à última temporada da série, Girls também toma decisões ousadas e que soam definitivas. Primeiramente ao juntar Marnie e Ray (após um “sonho amoroso” onde Marnie penteava os longos cabelos negros de Ray). Reinsere Shosh na vida de Ray e alivia sua carga dramática, transformando-a em uma espiã do marketing para o bar falido do amigo (um bar anti-hipster, para “pessoas normais”, por sinal). Por último, dá profundidade extra a Elijah, que tem diálogo interessantíssimo com Dill sobre amor. De novo Girls reforça o argumento da temporada, de que os personagens começam a se movimentar em direção a maturidade.

Outro tema recorrente, ainda que bastante silencioso (pois dificilmente vemos essas palavras saindo da boca das personagens) é o afastamento entre Hannah e Jessa. Em certo ponto da conversa com Tally, entre tragadas de maconha, Hannah diz sentir saudade de Jessa e Adam. Ao descer as escadas do seu prédio, existe um encontro cômico (porque maconha deixa tudo mais engraçado) com o novo casal, que cuida do bebê da sumida Caroline e do excêntrico Laird. Esse é o gatilho para a segunda metade da season finale.

I Love You Babe (dirigido por Jenni Konner) começa com Hannah se exercitando, e ainda que com certa dificuldade, não desistindo. Lembra quando a personagem se arrastava pelas ruas atrás de Adam, quando tentava praticar corrida? Essa Hannah provavelmente evoluiu. Girls mostra através do bem-estar físico, o bem-estar emocional e a aceitação das coisas da vida por parte de Hannah. Se em finales anteriores esse era o momento de crise ou de quebra da harmonia, agora o contrário acontece. Hannah nunca esteve tão bem. E através do episódio, a ode de Lena à Hannah se repete, e se intensifica.

Hannah, que literalmente na primeira cena da série, se mostra completamente dependente dos pais, agora quase os ignora enquanto esperam nos degraus de sua casa. Porque existem coisas mais importantes a se fazer. Mas enquanto Hannah se prepara para se apresentar em um pequeno festival de histórias, as coisas se intensificam negativamente no arco de Jessa e Adam.

Nos últimos episódios, principalmente depois de Caroline abandonar Laird o bebê do casal, deixando Adam com alguma responsabilidade em cuidar do sobrinho, a relação de Adam e Jessa começou a desandar. O bebê representa uma responsabilidade, e como ela pode acabar com o encanto de uma aventura. Ao relembrar Hannah, Jessa é silenciada por Adam e a maturidade do personagem se esvai ao ponto que demonstrações físicas de raiva tomam conta. Jessa e Adam discutem de maneira nunca antes representada na série. A sequência toda é impressionante e assustadora. As tendências sociopatas de Adam parecem se aprimorar e a fragilidade de Jessa também (a atuação dos dois também é digna de destaque). A grande questão é que Adam quer esquecer, enquanto Jessa precisa se reaproximar. É interessante ver como Hannah consegue provocar reações e sentimentos diferentes em cada um dos personagens da série. No fim, a relação que parecia destruída só se transforma abertamente em uma relação abusiva, com uma cena que mostra o silêncio cruel de dois corpos nus em meio à destruição.

Enquanto isso, no festival de histórias de Hannah, a série entrega seu mais belo monólogo, com todas as características de Dunham, elevando mais ainda a temporada ao fazer a personagem admitir em voz alta os acontecimentos com Jessa, a única forma de realmente conseguir aceitar e caminhar em direção à superação. O monólogo é engraçado, trágico, inteligente e sensível. Faz o espectador rever rapidamente em sua memória os momentos em que as coisas começaram a dar errado entre as amigas. Emociona por reafirmar a segurança de Hannah com sua vida, seu corpo, suas decisões. Emociona ao ver a personagem contando sobre a cesta de frutas e os mais sinceros desejos de que Jessa e Adam sejam felizes. Mas principalmente ao dizer que Hannah será Hannah eternamente (e que consequentemente Dunham será Dunham). Com um sorriso no rosto da protagonista, e ao som de I Love You Baby, Girls se encaminha para a última temporada dessa jornada de autoconhecimento constante.

Outras observações:

Tad retorna a casa do homem que “roubou sua carteira”. A maneira como Girls aborda a homossexualidade de forma que foge de estereótipos é digna de reconhecimento.

Elijah diz para Loreen que está a algumas cervejas de tentar fode-la. Que responde com “você faz meu tipo”. O texto cômico de Girls segue afiado.

Desi se mostrou um otário, mais uma vez. Será que a próxima temporada volta com o personagem na turnê, com Marnie e Ray? Espero que não.

Shosh dançando com o antigo dono da cafeteria de Ray. Que elegante e dócil.

Obrigado a todos que acompanharam as reviews de Girls. Até a próxima temporada!

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