Um beijo de amor verdadeiro consegue salvar um episódio mediano.
Once Upon a Time não é uma série muito boa quando pensamos em representação. Sua única princesa negra, Rapunzel, não ganhou uma trama interessante, ou qualquer tipo de destaque relevante. Desde a saída de Sidney e do excelente Giancarlo Esposito, nenhum ator negro recebeu o cuidado necessário. Tivemos Lancelot por alguns episódios, mas o próprio roteiro desorganizado apagou a presença do personagem de Sinqua Walls, tão rápido quanto o seu retorno dos mortos. Resumindo: não existe diversidade na série que deveria agir como um exemplo para transformação de contos clássicos em algo bem mais relacionável com o tempo moderno.
Quando começou sua jornada no mundo de animações a Disney trabalhou unicamente dentro do escopo de um período em que o branco era visto como o mais facilmente relacionável e com retorno financeiro mais fácil. O mundo mudou e a representatividade já está provando ser a receita para uma melhor aceitação do público, olha aí Star Wars com um elenco composto por uma mulher, um latino e um negro, faturando alto no Box Office. Não faz mais sentido viver de homens e mulheres brancas salvando o mundo sempre. Quando pensamos na representatividade de homossexuais então? São contos de fadas, invisíveis, ou pelo menos eram em Once Upon a Time.
Um passo importante foi dado com o episódio Ruby Slippers. Durante quatro anos e meio muito se discutiu a respeito da falta de coragem da série em representar personagens homossexuais. Direcionada para apenas um tipo de família a produção e a própria ABC se esqueceram de dedicar um tempo em suas histórias para reconhecer que seu público também é diverso. Há um tempo surgiu Mulan, com sua confissão de amor para Aurora, mas o tratamento foi o mais cruel possível. Isolaram a personagem e por não conseguir tratar sua sexualidade, a empurraram para vários núcleos diferentes, mas sempre sem um arco merecido. De parceira da Aurora e terceira roda, para membro do grupo de Robin, até terminar como tutora da Mérida e amiga da Ruby. Os roteiristas estavam praticamente gritando por socorro, afinal, criaram um tema que eles não estavam dispostos a desenvolver de modo algum, ou não podiam. E sabe o que é mais triste? Mulan ainda permanece silenciada.
Ruby Slippers pega a história de Dorothy e a conecta diretamente a de Ruby, almejando criar um momento dividido entre submundo e Oz. Mais uma vez Once Upon a Time está demonstrando um interesse bem grande naquele mundo, de uma maneira que eu espero que vá além de apenas uma meia temporada e depois o total esquecimento – é o padrão. Utilizar ambas essas personagens, porém, provou ser um belo acerto da série. Ruby sempre foi uma favorita dos fãs, mas que nunca conseguiu brilhar o suficiente. A atriz acabou indo para outra série e levou com ela a esperança de um arco maior e melhor para a Chapeuzinho Vermelho de Storybrooke. Seu retorno marcou o nascimento de uma nova esperança, a de vê-la nos braços de Mulan e finalmente o reconhecimento do relacionamento homoafetivo dentro da série.

E então entramos no primeiro beijo entre um casal homossexual em Once Upon a Time. É um reconhecimento que veio tardio, mas que finalmente apareceu. Quando analiso o significado do beijo de amor verdadeiro dentro da mitologia da série, todo o ato simboliza um avanço importante e com um peso gigantesco. Era algo que estava faltando e é bom ver um pouco de representatividade. Já em termos de história? Faria mais sentido se fosse com Mulan, mas não irei reclamar. Presente é presente, não é? Tudo o que pavimentou o caminho até o beijo, entretanto, não foi lá tão grandioso assim e digno de menção. É um evento que chama mais a atenção por ser uma surpresa do que por ter uma boa história, com um roteiro amarrado e coeso – são detalhes que dificilmente a série consegue impor totalmente.
E mesmo que o episódio tenha sido importante e com uma história responsável por transformar uma personagem querida, mas desprezada por muito tempo, em novamente alguém que está no holofote, a série permanece extremamente incompetente ao tentar convergir sua história para algo maior na temporada. Emma, Regina e companhia continuam tentando encontrar uma maneira de derrotar Hades, mas ainda sem qualquer tipo de emergência que realmente faça com que o telespectador se preocupe com o direcionamento da trama. Não existe nada responsável por transformar a missão central em perigosa, arriscada, nada que nos faça torcer. Até o momento a impressão permanece a mesma, simplesmente não consigo me importar se o grupo irá sair do submundo, ou se irão permanecer lá por toda a eternidade. Quem está precisando mesmo de um beijo de amor verdadeiro são os produtores da série, que estão em um sono profundo e não conseguem acordar de maneira alguma para salvar a produção que ainda defendem. Só que não irei me voluntariar como tributo, não rola mais amor.
Ps. Henry desenhou o beijo de amor verdadeiro entre a Ruby e a Dorothy. Imagino que a onisciência do autor não passe do beijo, né? Ou será que rola um livro capa preta proibidão com o bate virilha ilustrado de amor verdadeiro também? Quero e preciso.
PS². Cruella deveria ser prefeita de todas as cidades de Once Upon a Time.
PS³. Bebê Neal já ganhou um apelido: queixo de cinzel.
PS4. “Manda um oi pro Roland, sei que o Robin gostaria”. Acho que o Roland prefere a presença do pai, já que a mãe faleceu tem pouquíssimo tempo. E é assim, amiguinhos, que nasce um grande vilão.
PS5. A atriz que interpreta a Snow White está grávida de novo, mas como a família Charming está grande demais e já não existe espaço para bebês negligenciados, decidiram mandá-la de volta para Storybrooke enquanto Ginnifer Goodwin relaxa um pouco.
PS6. Trailer do Josh Dallas e da Ginnifer Goodwin deve requisitar troca de amortecedores mensalmente.
PS7. Mulan é a casamenteira oficial de Once Upon a Time. Também é dela aquele meme “vendo você beijar outras bocas”. Coitada.
PS8. Nenhuma cena do Hades baterá o seu momento cheirando o pote de tia Em.
PS9. Primeiro romance LGBT da série. Até o final da série rola beijo entre a Emma e a Regina. Se não acontecer, já pode preparar a votação do impeachment. Em nome do beijo lésbico entre Regina e Emma, eu voto SIM SIM SIM pirlimpimpim.
PS10. Piratas tem péssima caligrafia, mas sabem aplicar o lápis de olho como ninguém.
PS11. Sapatinho de prata transportador mágico finalmente ganhou seu rubi, não é fofo? Agora só falta a série incluir a sandália gladiadora que te teletransporta direto para a Grécia antiga, que é exatamente de onde o calçado nunca deveria ter saído.
PS12. Ruby é gente como a gente. Tem o crush na segunda-feira e na quarta-feira à noite já é amor verdadeiro, amor eterno.
PS13. Belle espetou o dedo por vontade própria para não precisar ficar arrastando o barrigão pelo submundo. Sabe quem realmente dormiu para tudo isso? Euzinho.
PS14. Finalmente Snow poderá voltar a ser uma moça bela, recatada e do lar.















