Um episódio para amar a Belle e detestar todo o resto.

Once Upon a Time nunca me fez gostar da Belle. Jamais consegui desenvolver uma empatia com a personagem e parte da culpa é da própria equipe de roteiristas. E o motivo para que meu “santo” nunca tenha batido com o dela é bem simples: falta de empatia. Comecei minha crítica do episódio anterior mencionando que a falta de perfeição é o que transforma um herói em alguém relacionável. Ninguém é perfeito, por esse motivo ter uma figura heroica que emula perfeição afasta o telespectador e constrói uma imagem inatingível. Em se tratando de uma série centralizada em personagens saídos de contos de fadas, em que tudo é a ilustração de conceitos de beleza, retidão e heroísmo, as chances de não simpatizar com discursos exagerados de esperança é muito grande. É só observar o que fizeram com Snow White e Encantado. Depois de um tempo qualquer atitude contrária a esse arquétipo terminou inserindo ambas as personagens em uma maré de hipocrisia. Durante praticamente quatro temporadas Belle representou a manifestação física da esperança, da bondade e inteligência, mas de uma maneira arrastada, que sempre terminou por afastá-la dos outros personagens e da própria história. E apesar de ainda ter alguns problemas com a caracterização de Emilie de Ravin, já começo a me afeiçoar um pouco por sua personagem, graças ao nascimento de um lado menos perfeito para a mulher por trás da Fera.

Mesmo que o episódio tenha tratado de expandir um pouco mais a faceta caridosa e justa da Belle, pequenos detalhes já foram suficientes para demonstrar um pouco mais de imperfeição. Ter aquela personagem disposta a cometer erros para atingir seu objetivo me fez simpatizar com a missão proposta. Ainda que Belle tenha centralizado seu desejo em salvar Gastão, seu maior desafio foi entender que apesar de querer fazer o bem, existem consequências até mesmo para o excesso de esperança. Foi através de suas atitudes que ela começou a questionar o “fazer o bem sem olhar a quem”. Quando optou por tentar salvar o ogro, Belle desprezou completamente qualquer consequência direta de suas ações. No final o seu reino foi ameaçado diretamente e tudo o que aconteceu em sua vida, do encontro com a Fera, para uma guerra que dizimou vidas (incluindo a de sua mãe), foi um resultado de sua caridade.

É um padrão bem ousado para a série, impor tal tipo de carga dramática para uma mulher que sempre buscou fazer o que é certo. Mas também é, de certa forma, uma característica que a transforma em alguém com bagagem. De uma maneira bem trágica seu filho foi prometido para Hades, em uma deturpação da própria mitologia do Rumpelstilskin, a criatura que gostava de roubar bebês. E é aí que mora a força da própria Once Upon a Time, criar momentos originais através de histórias clássicas.

Robert Carlyle é sempre um primor. A maneira que o ator pega o texto e o molda para encaixar na psique de seu personagem é um dos pontos positivos da série e explica a relutância da equipe em retirá-lo completamente da história. Muito do que existe hoje é graças ao ator e não mais ao roteiro, que continua expondo sempre uma repetição de tudo o que já vimos. Mas ao contrário de enxergar esse padrão, neste episódio, como uma fraqueza, eu entendo como um impulso para o desenvolvimento da Belle. E olha, a personagem estava precisando de um destaque. Mais do que apenas o holofote de um episódio inteiro dedicado a ela, mas uma forma de mostrar imperfeição para a mulher que só havia me interessando lá na trama da tia Sorveteira, ao ser confrontada por uma versão menos amistosa de si mesma, graças ao espelho mágico.

Então dentro do que Once Upon a Time já se propôs a fazer por seus personagens secundários, Her Handsome Hero é uma ótima maneira de pausar a história principal, mas sem deixá-la de lado. O foco ainda é escapar do submundo, é neste objetivo que o grupo de protagonistas está focado, mas a preocupação em pegar alguém que está na série desde sua primeira temporada e aprofundar com momentos válidos, com certeza valeu a pena. E indo além, também garantiu uma progressão para Hades. Ver o vilão criando um momento para destruir emocionalmente e não fisicamente, é muito bom – ou muito ruim, depende do ponto de vista.

Se a história da Belle foi interessante e ajudou a acrescentar camadas de complexidade para uma personagem até então unidimensional, o restante apresentado no episodio foi a epítome da perda de tempo. Você sabe que nenhum personagem principal da série vai morrer tão cedo, pelo menos não no décimo sétimo episódio e com uma trama paralela ao foco do roteiro. Exatamente por esse motivo o caminho apresentado precisa ser bom, precisa ser convincente. E ao pensar na história da Emma e sua “premonição”, o seu mais novo poder, fica bem complicado entender o sentido em cima de tudo aquilo. Realmente, criaram uma trama paralela apenas para justificar o encontro com a Ruby e criar um gancho para o próximo episódio. Precisava? Não precisava.

Sim, ainda é possível ver vários problemas na base da produção. A quantidade massiva de personagens é o maior deles. O foco precisa sempre ser dividido e a história recebe pausas que não condizem com o que é apresentado anteriormente. Em determinado momento Henry e o livro são importantes e dignos de várias menções, em outro ninguém ao menos se dedica a relembrar o que já aconteceu, ou o que está acontecendo. De todos os inimigos já enfrentados pela série, a falta de foco continua sendo o maior. Não consigo deixar de lado a noção de que lá em Storybrooke ainda existe Camelot, Merida, várias outras personagens e mundo correndo, correndo paralelamente e sem conexão nenhuma com o que está acontecendo agora. Entretanto, apesar de não influenciar, quando a necessidade bater, o roteiro não conseguirá amarrar com propósito o que ficou no pano de fundo. Infelizmente a produção já não demonstra esse tipo de habilidade com quem está na frente, com seu “abre-alas”. No quesito evolução e coesão, Once Upon a Time está deixando de lado o conjunto da obra, que é tão importante quanto o carro de apresentação.

PS. Não sabia que a Snow tinha o poder de materializar capas vermelhas. Miga, você ia fazer o maior sucesso no carnaval.

PS2. Zelena ganhando uma flor seca e abrindo o maior sorriso. É ou não é a melhor debochada do submundo?

PS3. Cada vez que o efeito do cabelo azul do Hades é utilizado, um anjo perde as asas, um unicórnio morre, uma drag queen tem a peruca queimada e uma fada do dente é forçada a fazer um tratamento de canal.

PS4. Emma ganhou o poder da premonição. Que com certeza será colocado no mesmo lugar que o seu dom de detectar mentiras.

PS5. Quando a Belle gritou “ele é meu marido” eu fiquei esperando a tela congelar, a imagem ficar preto e branco e começar o “oi oi oi”.

PS6. Ame alguém que te beija enquanto estrangula e levita o inimigo ao mesmo tempo.

PS7. Alguém socorre? Robin está andando por aí com um bebê nos braços. Melhor forma de justificar o desaparecimento de dois personagens inúteis: “Tão por aí”. Essa série só melhora.

PS8. Rumpel tem o melhor conceito de uso da magia, não é? Comparar assassinato com abertura de cadeado é incrível.

PS9. Tirando o aldeão número 2, ou a moça assustada com cestinha número 3, deve estar ficando cada vez mais difícil trazer personagens relevantes que morreram em cena. Gastão não teve 2 minutos no passado e ganhou um episódio inteiro. Isso que é sustentabilidade.

PS10. Sobrenome do Gastão é LeGume. Já pode adotar a bebê Pistache.

PS11. Cadê o irmão gêmeo do David que não apareceu nunca mais? Sei que bater quadril com a Cruella deve estar mais divertido, mas… C’mon Once Upon a Time. Não dá para introduzir o cara em um episódio e esquecer completamente dele nos próximos três… Oh wait! É o que a série vem fazendo desde sempre. Nem sei porque reclamei.

Artigo anteriorCastle 8×17: Death Wish
Próximo artigoThe Vampire Diaries 7×17: I Went to the Woods