No último episódio antes do pequeno hiato que nos prepara para o fim, The Good Wife termina de chafurdar na lama.
Era uma vez Alicia Florrick, uma esposa devotada que precisa lidar com um escândalo sexual que lhe transforma na mulher traída mais famosa da América. Ela decide não terminar seu casamento porque ainda ama o marido, mas o ocorrido estremece suas diretrizes éticas e isso abre espaço para o ressurgir de um antigo amor, com quem ela tem que conviver todos os dias no trabalho. Por muito, muito tempo, Alicia vivia dividida entre o amor pelo marido e o amor pelo antigo namorado. Depois, dividida entre o status trazido pelo sobrenome e o amor pelo antigo namorado. E nunca, em nenhum momento de toda essa latência emocional, ela considerou de verdade se expor ou se divorciar. Por mais que amasse Will, por mais que tivesse desejado Finn ou o diretor de sua campanha, divorciar-se nunca foi uma opção. Bem, não até agora…
Jason chegou nos 45 do segundo tempo e pelo jeito faz um sexo tão gostoso, que vale a pena se pegar em restaurantes, andar de cuecas no meio da casa onde ainda mora uma adolescente e considerar uma dolorosa separação. Sei que os Kings podem achar que Alicia chegou no próprio limite com relação a Peter. Mas, que limite é esse? Me corrijam se eu estiver errado, mas os termos entre os dois não me parecem ruins e eles até transaram não faz muito tempo. Cada um na sua e com discrição, já que há política e publicidade envolvidos. Que eu saiba, Alicia também não ia gostar se entrasse na casa onde o marido morasse com um dos filhos e pegasse uma das amantes dele de calcinha no corredor. Então, porque isso agora? Porque nem Will merecia que ela pensasse em divórcio e Jason sim? Bem, eu vou dizer: porque os Kings não tem a menor ideia do que estão fazendo…
Eu não sou contra o divórcio, não me entendam mal. Acho até que o texto da cena onde Alicia vai tirar satisfações com Peter estava corretíssimo, só devia ter sido dito lá atrás, em outros tempos. Seguraram tanto o maldito casamento que agora está acabando a série e eles encontram qualquer motivo esdrúxulo para que a protagonista queira se ver livre dele. E vamos combinar, Jason é um motivo completamente esdrúxulo. Essa relação é forçada nas nossas goelas e eles pensam que estão sendo ousados fazendo Alicia parecer uma ninfomaníaca enlouquecida… Não, quando é óbvio, sem sutileza, não é bacana. Eles querem que acreditemos numa faceta da personagem que nunca existiu. Alicia é uma mulher fogosa, mas ela é uma mulher que vive de convenções e códigos, que está inserida num contexto de dissimulação constante, que aprendeu que o que se quer se faz às escondidas… Seria sim totalmente interessante vê-la mandar tudo isso para as cucuias. Porém, o evento catalisador que tornaria isso coeso ficou lá atrás, na temporada em que Will morreu. Agora não… Agora ela pode continuar transando escondida com quem quiser e ainda aproveitar os privilégios do sobrenome…
Aliás, curioso que quando ela ganha a cadeira de sócia principal, esteja pensando em voltar ao sobrenome de solteira. Diane, que vive querendo ou não querendo Alicia por razões igualmente estapafúrdias, não vai gostar nada de saber disso. A situação dramatúrgica da firma é tão lastimável que dói nos meus ossos. Nada faz sentido e ainda por cima resolveram encerrar a permanência de Cary do modo mais ridículo possível. Colocaram o personagem para ver umas paisagens no computador e pronto, ele quer sair, “se ver livre daquilo”. Quem pode culpá-lo? Se fosse eu que tivesse passado por tantos plots promissores arruinados pelo troca-troca de firmas, também não ia querer ficar. Que desperdício vê-lo ir embora naqueles termos… Que decepção, sobretudo.
O caso era chatíssimo, mas pelo menos o fantasma de outrora dessa semana era Caitlin e ela estava ótima. Fiquei achando que Alicia ia convidar ela para a “firma só de mulheres”, mas ao que parece Diane só quer mesmo Alicia (como se precisasse disso pra viver, algumas semanas depois de tê-la recusado). Em termos de casos jurídicos, tudo está ruim. Eli se salva um pouco porque Marissa faz umas aparições e o dilema dele é realmente consistente. Depois de tantas temporadas fazendo de tudo para proteger Peter, dessa vez ele pode ter que tomar uma decisão que afetará determinantemente a relação deles.
Por fim, providenciaram um cliffhanger que só trará alguma surpresa se a resposta de Alicia for não. Espero, inclusive, que seja. A série só volta no dia 17 de abril e esse pequeno hiato pode ter sido a garantia de que os últimos quatro episódios serão pensados mais atentamente, corrigidos até. Ainda vejo um finale onde Alicia se separe e mude de cidade para advogar anonimamente, como a única opção digna. Porém, depois da forma como resolveram Cary essa semana, não sei mais o que esses roteiristas entendem como dignidade. The Good Wife se sujou de lama tão profundamente nessa temporada, que já não sei mais se tem um jeito de limpar.
Objection: Foi boa a cena entre Jason e Peter. Mas Jeffrey Dean Morgan foi engolido por Chris Noth.
Objection 2: Mais Lucca antes do fim, please.
















