Os heróis que conhecemos e adoramos nasceram no berço esplêndido da Era de Ouro dos Quadrinhos, nos idos de 1938 até meados da década de 50. Inúmeros personagens, alguns hoje em dia esquecidos outros ainda em voga, surgiram da imaginação dos escritores e desenhistas em meio a um mundo em guerra. Superman e Batman são dessa época (assim como grandes nomes de sua concorrente direta) e ainda guardam a “aura” de baluartes da nona arte. Superman desde então carrega o peso do retrato messiânico de um herói santificado, de salvador da humanidade. “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” (Batman v Superman: Dawn of Justice) acaba sendo o exemplo fidedigno disso, mas se perde em meio a grandes arroubos megalomaníacos.
Em o “Homem de Aço” tivemos a chegada do Superman à Terra e as consequências de sua luta com Zod. A destruição decorrente da batalha (mesmo sendo bastante criticada) é totalmente natural. Afinal, o Superman é um ser onipotente, capaz de destruir o planeta inúmeras vezes e uma batalha daquela magnitude não teria como ser menos destrutiva e letal. E desse conflito é que surge a força motor que guia toda essa sequência que acaba servindo de origem para a grande equipe da DC nos cinemas. Em “BvS” o tom messiânico do Superman fica ainda mais evidente. Imagine-se no lugar do personagem. Dedicado a uma causa que não é sua e mesmo assim constantemente examinado pela mídia (da qual faz parte), o governo e principalmente aqueles que querem sua completa aniquilação. Em um determinado momento Martha Kent fala ao filho que ele “não tem nenhuma responsabilidade para com os humanos”. Tudo que ele faz é demonstrando sua preocupação pela humanidade. A dicotomia de Deus/ Humano é inerente ao personagem e a batalha que dá título ao filme só corrobora o lado do Superman na história. É como se pedíssemos intermitente por um salvador e quando o mesmo surgisse, tentássemos controlar ao nosso bel prazer as vontades do mesmo.
A DC tem uma cronologia confusa a respeito de suas produções cinematográficas. Reboot após reboot a editora vai tentando, as vezes com sucesso, as vezes com fracassos triunfais (Lanterna Verde estou falando de você). Com a trilogia de Batman do Nolan e com o “Homem de Aço” finalmente ela tomou um certo rumo em direção a coesão cinematográfica. O problema é que para chegar no ponto em que a concorrente se encontra ela colocou os carros na frente dos bois e errou rudemente. “BvS” era originalmente uma sequência direta de “HdA”, mas por motivos internos resolveram rebootar o Batman na brincadeira, menos de 5 anos depois da trilogia que definiu o personagem para a nova geração. Usando uma trama famosa dos quadrinhos, o surgimento do conflito entre os dois grandes heróis da casa acabou servindo como desculpa para uma apressada tentativa de apresentar a “Liga da Justiça” sem ter de apresentar vários personagens em diferentes filmes. A cada nova inclusão ou participação minhas expectativas abaixavam ainda mais a respeito do filme. E isso foi de certo modo bom, já que “BvS” é um filme assistivel, mas muito longe do que você esperava para o encontro dos três grandes heróis, a chamada “Trindade” (e esse é somente um dos paralelos com o cristianismo, o filme é repleto deles, quase como se botassem um neon em cima do Superman, com letras garrafais, piscando: Jesus).
Batman surge como uma espécie de apoio forçado, uma tentativa de “salvar” a audiência, como se Superman por si só não fosse o suficiente para dar retorno financeiro. Ben Affleck dá vida a um Batman que na falta de comparação melhor é um “garoto mimado com muito dinheiro disponível”. A inclusão dele em Metropolis durante o ataque foi só o motivo para que o “mimimi” eterno da perda dos pais do personagem desse lugar a uma sanha vingativa que não tem proposito nenhum, a não ser criar um conflito vazio com final anticlimático em prol do “legado”. A inspiração no arco criado por Frank Miller só é executada em alguns poucos momentos com afinco, dando lugar a interpretações frouxas de uma das obras mais consagradas da DC. A cada contraponto entre os conflitos entre os dos personagens, vamos vendo que o Superman é na verdade o motor narrativo do filme e verdadeiro protagonista (mesmo que os créditos de abertura, título e créditos de encerramento tentem empurrar Batman como mais importante goela abaixo a todo momento).
E a baixa expectativa para com a obra foi na verdade uma grande ajuda na apreciação de alguns elementos que se destacam na trama. Gal Gadot encarna uma Mulher Maravilha interessante, mas que por falta de contexto fica com cara de participação especial de luxo com um papel de destaque na batalha final, forçando a origem e maiores problematizações para um filme solo. O Lex Luthor de Jesse Eisenberg é na verdade um amálgama do próprio personagem (Luthor) com uma pitada curiosa do histrionismo vibrante do Coringa, aqui só sugerido. Ele é quem dá vida ao grosso da “treta” e age tanto no background como no plano central como elemento de caos e balburdia, sendo talvez uma das melhores coisas do filme. Quanto as participações especiais tão alardeadas, acontecem em variados graus de destaque. Enquanto algumas trazem elementos interessantes para o futuro da DC nos cinemas, outras estão perto do puro “fan service”, quase uma cota para personagens aparecerem e logo em seguida sumirem sem nenhuma cerimônia.
O filme na verdade se resume a uma grande colcha de retalhos que tenta homenagear grandes sagas, jogos e capas icônicas da DC, mas que falha justamente no sentido de coesão da obra. Zack Snyder fez o que pôde com o roteiro de Chris Terrio e David S. Goyer, mas ficou amarrado no processo de tentar dar sentido ao mesmo tempo em que impõe sua marca característica de direção. Ver a morte dos pais de Bruce Wayne pela enésima vez é apenas do menor dos problemas aqui. A DC vai ter de rebolar para dar mais estofo a sua franquia cinematográfica e emplacar não somente mais um filme com bons efeitos especiais (porque a batalha final em alguns momentos chega a ser entediante vide ao uso de um CGI comum, muito aquém dos de filmes do gênero), mas com um roteiro que acompanhe todo o planejamento (que parecia inexistente até então) que ela demonstra em suas contrapartes em papel. A “Liga da Justiça” dá seus primeiros passos, trôpegos e cambaleantes, infelizmente. “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” é um bom filme e só. Numa época em que outros filmes de heróis conseguiram aliar texto excelente com ação ainda mais competente (“Watchmen”, do próprio Snyder e da DC são um exemplo), se utilizar de efeitos como bengala para arrecadar bilheteria é um movimento mais do que preguiçoso. Agora é esperar que “Esquadrão Suicida” não seja tão genérico quanto. E espero com todas as minhas forças que não seja.
* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Warner Bros. Pictures Brasil















