Até aqui, Baskets tem sido extremamente enigmática quando trata dos tempos que Chip passou em Paris. Tivemos um pequeno vislumbre no piloto, quando fomos apresentados à Renoir, e a impressão que ficou daquele episódio foi de uma experiência muito melancólica, tristemente cômica, de um homem tentando se encontrar em um ambiente um tanto hostil, representado pela língua francesa, que constantemente oprimia nosso protagonista. Depois, tivemos alguns poucos flashbacks, memórias, e só. Assim, estabeleceu-se uma espécie de paradoxo, porque Chip se mostrava cada vez mais nostálgico com a França, apegado à Penelope e também à ideia de ser um palhaço artístico, real. Mas se seus anos como estudante na Cidade das Luzes foram tão negativos assim, o que é que o mantém tão ligado a eles? ‘Picnic’ é a resposta para essa pergunta.

O plot do episódio dessa semana é extremamente simples. Chip entra no quarto de sua mãe no hospital e ao deparar-se com ela deitada na cama, inconsciente, aos cuidados dos médicos, tem uma espécie de epifania. Lembra-se de Penelope. Mas mais especificamente, lembra-se de um momento muito especial que compartilhou com ela, como nos é revelado nos minutos finais de ‘Picnic’, e que justamente dá nome ao capítulo dessa semana. Logo após o pedido de casamento, os dois sentaram-se no gramado de uma praça, e comeram pão com queijo de chèvre e vinho. Essa lembrança, então, engatilha Chip a partir do hospital e gastar o resto de seu dia tentando recriar o momento, e falhando miseravelmente, não só por trocar a praça pela beira da estrada, ou o pão por uma baguete de dois metros, mas acima de tudo por estar sozinho.

Mas o mais interessante em ‘Picnic’ são justamente as lembranças de Chip em Paris que, em sua grande maioria, mostram que seus dias por lá não foram de todo ruins e excludentes. Uma sequência ainda na primeira metade do episódio mostra Chip tentando se apresentar nas ruas de Paris, aparentemente pela primeira vez, e seguindo o exemplo de outro artista na esquina ao lado, ele arruma a caixa de som, veste o chapéu, e puxa do bolso um lenço azul, mas assim que o lança ao alto, dois policiais o abordam, demandam a sua licença para se apresentar ali, mas como falam francês, Chip não compreende nada. O outro artista vêm então a seu resgate, e então mais um, e outro palhaço, até que Chip é abraçado por um grande grupo colorido de artistas de rua, e logo todos correm para escapar dos oficiais. É uma cena reconfortante, bonita, e que mostra que Chip, que em Bakersfield tem uma grande dificuldade de se conectar de verdade com as pessoas, não raramente encontrava essa conexão na França, com estranhos na rua.

Mais tarde, vemos o momento em que Chip e Penelope se conheceram, numa casa cultural cheia de artistas e performances, ele a encontra tocando seu violão para uma dúzia de pessoas. Ela canta do coração, é visível, e o retrato do instante em que Chip se apaixona por aquela cantora é extremamente bem realizado e totalmente crível, mesmo que se trate de “amor a primeira vista”. O episódio também fornece uma considerável história de fundo para Penelope pela primeira vez, e fica evidente que sua personalidade ríspida, impaciente e muitas vezes insensível não é de todo gratuita. Ela deixa claro que só irá se casar com ele pelo greencard, que não o ama. É interessante notar, então, que o relacionamento dos dois nasce já como ficção, mas é Chip que fica cego ou indiferente à este fato. O primeiro beijo dos dois, depois que Chip derruba a pirâmide de taças, é em si uma performance para disfarças a gafe na festa. Nunca houve reciprocidade.

O final de ‘Picnic’, com os médicos e Chip correndo para o quarto de Christine, mostra que Baskets sempre teve um plano para sua primeira temporada, um arco geral de todos os dez episódios muito bem estabelecido em volta da família Baskets. Esse plano, entretanto, nunca atrapalhou o desenvolvimento individual de cada episódio, como é caso frequente com séries cômicas e flops de primeira viagem, como The Brink, da HBO. Ao contrário, a força da série é justamente nos pequenos momentos, nos detalhes que são possíveis pois os episódios são “pacientes”. ‘Picnic’ é o melhor que Baskets tem a oferecer, e abre o caminho para um season finale potente, para fechar com chave de ouro essa temporada.

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