Valeu a pena a segunda temporada, Demolidor?

Ao olhar tudo o que aconteceu em treze episódios a pergunta não poderia ser outra. A resposta, porém, também não deverá ser diferente para a maioria: Valeu a pena. Demolidor é uma série de “herói” que trabalha de maneira muito particular dentro do atual mercado de adaptações de histórias em quadrinhos. Mais séria e centralizada a produção desenvolve seu roteiro e personagens como uma grande linha do tempo ininterrupta. Todo o competente time teve ótimos momentos em um ano muito dividido, mas no final, coeso. Frank Castle, Elektra Natchios, Karen Page, Franklin Nelson e Matt Murdock ganharam o aprofundamento necessário para fazer de Marvel’s Daredevil um verdadeiro evento anual. Claro que a série ainda está longe da perfeição, mas já está bem próxima de atingir tal posição em um mar de mediocridade que semanalmente é apresentado quando observamos o que poderia acontecer e o que verdadeiramente acontece durante a Era dos super-heróis na TV.

O principal dilema levantado através desta sequência foi ao redor da identidade de Matt Murdock como um verdadeiro herói. Não mais utilizando seu uniforme preto, após uma mudança de capacete e a adição de uma nova arma, o roteiro não escondeu a vontade de aproximar o personagem cada vez mais de sua contraparte nos quadrinhos. O trabalho também foi muito competente ao criar uma história agradável para ambos os lados da moeda, o de fãs antigos e novos do herói que atende pela alcunha de ‘Diabo’. Tudo isso coroando o excelente percurso em cima do escritório de Murdock e Nelson com a entrega de sequências jurídicas bem embasadas e tão importantes quanto as várias lutas apresentadas. O pacote completo.

Dividida entre ideologia e compreensão humana Demolidor encontrou um ponto válido em sua sala de execução ao separar o clima urbano e começar a inserir pontos mais fantasiosos com a abordagem do Tentáculo. A crescente invasão mística balanceou bem a presença de um vigilante conhecido como Justiceiro. De maneira geral a série foi bem satisfatória ao realizar essa divisão e trabalhar dois assuntos tão diferentes, mas complementares quando analisamos a criação de dois personagens com traços bem parecidos. Ainda estamos longe de ver a queda de Murdock e suas crenças, mas tudo o que aconteceu dentro da temporada leva a entender que este momento está muito próximo. Nosso protagonista ainda está a um dia ruim de se tornar alguém como o Justiceiro e esse é um sonho maravilhoso que precisa se tornar realidade. É o saber cair e levantar e até então o nosso herói esteve bem firme, ou melhor, estava.

A fé inabalável do protagonista sofreu um impacto muito grande enquanto o herói direcionava o seu foco nas mais diversas complicações da mentalidade humana. Frank Castle e Elektra conferiram uma seriedade a mais para a imagem de Matt Murdock e demonstraram a real intenção dos roteiristas: fazer o católico protetor de Nova York questionar sua própria fé. O reflexo ainda vai demorar um pouco para ser sentido e imagino que só conseguiremos ter essa execução após a nova empreitada da Marvel Netflix, a que deverá culminar na união de Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro em Defensores.

Foram muitas tramas recebendo uma finalização durante este último episódio. Frank Castle terminou abraçando a missão de ser um Justiceiro e de compreender a sua verdadeira saga dentro deste mundo tão corrupto e apodrecido. A montagem de sua cena final serviu para aguçar nossa curiosidade e funciona muito bem como a proposta de uma nova série para o personagem. Jon Bernthal conseguiu fazer um Punisher que foi muito além do que estava dentro das páginas das histórias em quadrinhos. Bem mais humano e menos frio do que o esperado, o resultado foi para lá de satisfatório e digno. Todo os dilemas e discussões que sentimos ao analisar sua história, passando do julgamento para o encontro com o Blacksmith, conferiu uma seriedade e um entendimento gigantesco para a proposta de sua inclusão. O principal fator foi o de dividir a audiência em uma discussão que encaixa muito bem no período social em que estamos: herói ou vilão? Bandido bom é bandido morto? Se você parou para pensar em qualquer uma destas perguntas, então a série cumpriu bem o papel que propôs.

Falando a respeito dos coadjuvantes e da grande relevância que tiveram, Foggy finalizou sua história através de uma ótima conexão com Hogarth. Também é uma formidável maneira de nos lembrar a personalidade da famosa advogada de Jessica Jones. O envolvimento de Foggy no assunto de vigilantes enriquece e permite a participação do personagem em outras séries da Marvel para Netlix, especialmente agora que sabemos que ele estará envolvido em casos que centralizam as pessoas com “particularidades” em Nova York. Já Karen terminou de forma admirável, cumprindo o papel que desenvolveram para a personagem como uma repórter e substituindo a lacuna deixada por Ben Urich – ainda preferia o Ben, mas aceito de coração aberto a coragem e audácia da senhorita Page, uma mulher forte e poderosa para o rol de mulheres magnificas da Marvel.

Já Elektra foi uma personagem que teve um caminho bem conturbado dentro de Demolidor e vê-la recebendo um uniforme criado por Melvin adicionou uma ótima camada para uma personagem que representa muito dentro da mitologia da série. Também conseguimos ver finalmente a adição final de uma arma que o Demolidor utiliza constantemente nos quadrinhos, outra perfeita maneira de terminar a segunda temporada da série. Pensando na trajetória completa da assassina eu achei tudo muito bem desenvolvido e com um peso delimitador para a personagem dentro do futuro de Daredevil.

Toda a questão ao redor do afastamento de Matt Murdock da sua vida como advogado teve uma ótica muito peculiar após a sua confissão de que ele estaria disposto a abandonar tudo para continuar sua missão de salvar Elektra de um destino que ela acreditava estar imposto em seus ombros. Claro que a série terminou com uma triste consequência para a assassina, dentro da mesma caixa misteriosa que será responsável por sua ressurreição. Mas esta história ainda está longe de receber uma conclusão. Entendendo a maneira com que a produção trabalha, sempre trazendo em seu novo ano elementos do anterior, é de se esperar que Elodie Young volte para reprisar seu papel mais uma vez. Só nos resta descobrir como será trabalhado o seu renascimento e se estes elementos finalmente começarão a receber mais repostas do que perguntas.

De maneira geral a segunda temporada de Demolidor foi sim superior a primeira. Obviamente a força dos episódios iniciais foi diminuindo até a conclusão de A Cold Day in Hell’s Kitchen, mas a complexidade da construção do roteiro abrilhantou e muito o caminho trilhado pela nova turma de showrunners, Doug Petrie e Marco Ramirez, os mesmos que assinaram o primeiro e último capítulo do segundo ano da série. Se em 2015 acompanhamos o nascimento do Demolidor como herói, agora vimos a personalidade do protagonista recebendo todas as camadas necessárias para compreendê-lo como o definitivo Diabo da Cozinha do Inferno. Porém o grande destaque foi ter a belíssima condução da história dos personagens secundários, um ponto que havia pecado muito durante o reinado de Wilson Fisk. E com nomes como Justiceiro e Elektra Natchios, eu não esperava nada diferente.

Easter eggs e outras informações

– Elektra teve alguns detalhes vermelhos adicionados a sua indumentária, mas a maior conexão com os quadrinhos com certeza foi a sua cena final, enrolada em um pano brilhante e demonstrando que o renascimento da assassina será escarlate.

– Nos quadrinhos o Tentáculo tentou trazer a personagem dos mortos dez anos após seu assassinato, mas falhou durante o ritual. Quem precisou terminar o trabalho foi o próprio Demolidor.

– A maneira que Nobu mata a personagem é bem próxima ao que aconteceu entre a heroína e o vilão Mercenário. Imagino que após a utilização da cena idêntica no filme estrelado por Ben Affleck a série tenha prezado por criar uma nova abordagem e assim salientar todo o abismo que separa o filme de Marvel’s Daredevil.

– O disco que o Frank Castle pegou, escrito MICRO, é uma homenagem ao personagem Microchip, auxiliar do Justiceiro nos quadrinhos.

– Obrigado pela presença de todos e nos vemos na terceira temporada de Demolidor.

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