Matt e Elektra brincam de espiões em um perigoso jogo de Senhor e Senhora Demolidor.

Levante a mão se você se lembrou de 007, ou do filme Sr. e Sra. Smith enquanto assistia ao sexto episódio de Demolidor. Com certeza ficou muito fácil traçar um paralelo entre o que a série apresentou e com clássicos de espionagem. O mais interessante, porém, é notar que o roteiro “diferente” não prejudicou Daredevil, ao contrário, ofereceu uma nova ótica para a dinâmica entre Matt e Elektra. Também foi evidente, desde a escolha para a música inicial do episódio, um rock, que o ritmo seria pouco usual. Mais leve e menos sisudo, o clima dividiu momentos de tensão com uma pitada de comédia e funcionou. Enquanto Foggy recebe uma luz menos humorada frente o julgamento do Justiceiro, Matt consegue, pela primeira vez, não aparentar o peso do mundo em suas costas. Cortesia de uma ninja assassina que sabe muito bem se fazer de bêbada.

Depois de um começo mais pesado com um problema tão grave e emergencial quanto o Justiceiro, é compreensível o ritmo menos “poluído” do episódio. Ainda estamos lidando com a grande crise de identidade sofrida por Matt Murdock. Suas interações com a Elektra libertam um lado menos contido para o personagem que aparenta grande controle emocional, algo necessário para o homem que “trabalha” sentindo o ambiente em que está através de vibrações mínimas, como por exemplo, a batida de um coração, ou o cheiro no ar. Ao lado da parceira o relacionamento recebe uma nova luz, um novo tipo de abordagem e o personagem heroico, justo e religioso, ganha tons mais avermelhados.

Cada tipo de interação entre os personagens é carregado de sexualidade e tensão. Veja como a Elektra sorri após a luta e como tanto ela quanto o Demolidor respiram de forma ofegante, não de uma maneira cansada, mas quase sexual. Para ele é um tipo de libertação, poder lutar como um espírito livre, relembrando o período em que ele era apenas um garoto correndo livre pelos telhados de Nova York. Matt ainda guarda aspectos daquela criança em seu subconsciente. Existe a necessidade de libertação e Elektra completa com perfeição essa lacuna. Ela age de uma maneira menos agressiva que a do Justiceiro ao tentar trazer a mente do Demolidor para dentro da sua própria natureza. E como toda conclusão do prazer carnal, ambos terminam se alimentando de maneira descontrolada.

Permaneço totalmente refém da Elektra, uma mulher mentirosa, sínica e bem humorada. Novamente é a Marvel mostrando como construir uma personagem feminina forte, sem desprezar as características base da história que originou aquela mulher. E dentro do escopo apresentado até agora ainda não temos a mínima noção do que ela quer, ou sua pretensão real com o Demolidor, além de trazer um pouco de caos para a vida pessoal e profissional de Matt Murdock. O relacionamento ainda permeia o problema com todo herói que segue a abordagem de não matar. Um tema recorrente nessa temporada. Não existe uma banalização da vida humana, mas ao mesmo tempo tudo soa como uma solução passageira. E é dentro desta ótica que aparecem Elektra e Justiceiro, na temporada que gira ao redor da crise de fé e identidade de seu herói principal.

Elektra oferece algo que o Matthew precisa: um alívio para alma. Como herói e advogado o personagem sempre teve seus momentos de libertação dentro de uma igreja, confessando seus pecados e ações para um padre. É um peso muito grande ser julgado por Deus. Elektra não oferece julgamentos, mas apresenta missões. E no momento que ela demonstra a sua habilidade em manipular o Matt, a dúvida aparece: Ele está sendo manipulado porque quer, ou porque realmente sente a necessidade de alguém o guiando? Assim que Elektra informa a respeito do livro com as atividades ilegais em Hell’s Kitchen a linguagem corporal do personagem muda automaticamente. Até mesmo o constante discurso de desprezo que o advogado desprende para a “parceira” é um indicador de conformação. Não é um ódio realmente representado pelo personagem, ao contrário, é mais como um tipo de mantra que Matt repete para si mesmo, uma forma de confirmar que Elektra é má. Nosso herói gosta de mentir para si mesmo e é um reflexo muito grande do discurso do Justiceiro no começo da temporada, enquanto os dois dividiam um momento íntimo em cima do prédio.

Enquanto tudo soa extremamente “divertido” em um lado do núcleo da série, no outro a possibilidade de pena de morte para o Justiceiro traz um clima bem mais sério para a temporada. Lentamente o caso de Frank Castle recebe uma roupagem bem menos fácil de compreender. Existe sim um plano maior no envolvimento da Reyes, algo que vai além de mera ambição. Dentro dessa dinâmica apresentada o peso do desenvolvimento de Murdock e Nelson é muito interessante e é o responsável por cimentar o lado heroico de heróis sem fantasia. Dentro de uma série adaptada conhecida como extremamente realista, este é o mundo verdadeiramente real sendo apresentado.

Dedicando um momento para discutir os relacionamentos pessoais entre coadjuvantes e protagonista, é muito evidente notar que ao lado do Matt o Foggy praticamente desaparece. Sua função durante a discussão entre Matt e Reyes é a de agir como notas de rodapé, enquanto Murdock assume o discurso que antes o lado Nelson da advocacia havia entregado. Ainda guardo ressalvas, especialmente ao considerar o relacionamento entre Matt e Karen, desejo muito que ele não termine de uma forma clichê, criando algum tipo de cisão entre os amigos. É muito mais interessante ter o trabalho com o Castle corroendo a amizade do que inserir a Karen dentro do cadinho reservado para mulheres más que estragam a amizade entre homens. A personagem não merece esse tratamento, tão pouco a audiência.

Já que estamos falando da Karen, achei sua conexão com o Justiceiro muito interessante. A personagem, que já passou de secretária para algo mais, age como uma espécie de âncora para Frank Castle, o prendendo em um ponto fixo após meses em um turbulento oceano. Se existe alguém adequado para tal dinâmica, esse alguém é Karen Page. A construção da personagem até agora permite tal abordagem para a série. Também nos ajuda a entender o quão fragmentada a mente do Frank Castle é. Gostei bastante da maneira rápida que a série lidou com o personagem e como o está reinserindo dentro da produção enquanto divide o foco com a Elektra.

Essa atitude do roteiro é louvável e apesar de querer mais do descontrolado e louco Castle, é necessário compreender que o personagem precisa de uma nova roupagem, afinal, estamos até considerando um futuro spin-off. É um pouco clichê ter a Karen ali? É, mas quem somos nós para reclamar de um roteiro que aproveita um momento um pouco conveniente para desenvolver sua história?

Observando o panorama geral a segunda temporada da série permanece extremamente satisfatória e bem mais diversa que o ano de estreia. As interações, especialmente para os coadjuvantes, estão superiores em nível e relevância se comparadas ao que havíamos acompanhado lá em 2015. Existe uma parte do Frank que está incompleta e Karen o ajuda. Como personagem ela o conecta ao seu passado e expande a história do Justiceiro de uma maneira que apenas com essas conversas seria possível e quando o Frank declara não ser culpado, a escala pesa infinitamente para o time de advogados. Também foi através deste sexto episódio que conseguimos um tom menos sério para o Demolidor e, novamente, expandir consideravelmente o leque de ações do protagonista da série. E você vai me dizer que não é divertido assistir o Matt abrindo um cofre com o seu poder? Ou melhor, perceber o quanto ele se diverte? Mais claro do que nunca, o diabo está nos detalhes.

Easter eggs e outras informações

– A Yakuza, a máfia japonesa, já teve participação marcante nas histórias em quadrinhos da Marvel. Alguns personagens já foram membros da organização, como por exemplo: Wade Wilson, o Deadpool.

– A máfia japonesa já teve participação marcante nas revistas do Demolidor e em The King of Hell’s Kitchen o herói precisou se unir a Luke Cage, Punho de Ferro e Homem Aranha para impedir que a Yakuza tomasse o controle de Hell’s Kitchen. Outro número expressivo foi Daredevil #307, em que os chefões da máfia lutam para tomar o controle do antigo império do Rei do Crime, este número tem conexão direta com Punisher War Journal #46 e pertence ao arco Dead Man’s Hand.

– Durante o episódio é possível ver a Elektra utilizando suas habilidades como hacker. Bom, não existe muita conexão com sua contraparte na nona arte aí, mas existe uma ativista alemã famosa que adotou o pseudônimo de Elektra e que se considerava um hacker da filosofia.

– O personagem Christopher Roth é uma clara homenagem aos artistas da Marvel, Christopher Rule e Werner Roth. Christopher esteve envolvido em Tales to Astonish, Journey into Mistery, Weird Wonder Tales, Quarteto Fantástico, Black Knight e Love Adventures. Já Werner trabalhou em X-Men, Apache Kid, Marvel Tales, Kid Colt Outlaw (que apareceu em Agent Carter), Jungle Action, além de ter criado vários personagens do período clássico da Marvel.

– É mencionado que o julgamento do Frank Castle será o ‘Julgamento do século’. Este é exatamente o mesmo nome utilizado para um arco em que Punho de Ferro e Luke Cage pedem ajuda do Matt Murdock para ajudar o Tigre Branco, Hector Ayala, em uma acusação falsa de assassinato.

– Também existiu no arco Punisher: Trial of the Punisher de 2013 uma disputa judicial depois que Frank Castle assume ter assassinado um promotor e se entrega para a policia. Nela o Demolidor não é advogado da defesa, mas aparece em um flashback como testemunha do Castle. O caso é chamado de The people vs Frank Castle.

– No final do episódio foi possível ver uma caixa com dedos, sendo guardada pelo aparente líder da Yakuza. Bom, a suspeita é que na verdade tudo esteja conectado a organização criminosa Tentáculo, ou como é conhecida nos Estados Unidos, The Hand (mão). Existe também um vilão na nona arte e que está aparecendo bastante nos números recentes do Demolidor, Dez Dedos. O personagem possui dez dedos em cada mão, já foi membro do Tentáculo e está dando muito trabalho para o Demolidor e seu novo ajudante, Blindspot.

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