O protetor da fé da Cozinha do Inferno é o Diabo.
Quando estreou em 2015 Demolidor recebeu uma quantidade massiva de aceitação pelo publico e crítica especializada. Poucos foram os que não aprovaram a jornada de Matt Murdock em sua transformação no Diabo da Cozinha do Inferno. Consequentemente o peso para uma segunda temporada aumentou exponencialmente, assim como a pressão em cima da equipe técnica. Com o novo ano é notável ver que a série evoluiu e passou de uma história de origem, para o desenvolvimento de todos os pormenores na vida de um verdadeiro super-herói mascarado. Logo de cara a necessidade de transformação prezou por tirar o produtor executivo Steven S. Deknight, e inserir Doug Petrie e Marco Ramirez como showrunners da segunda temporada da série.
Falando a respeito do novo time de showrunners: Douglas Petrie começou em Buffy e teve uma história um tanto quanto complicada no mundo das séries, não em termos de qualidade, mas em aceitação. Seu trabalho sempre foi polarizador, dividido entre quem ama e quem odeia, exceto Charlie’s Angels que todo mundo detestou (eu acho). Você poderá ver o trabalho de Doug em American Horror Story: Coven, Pushing Daisies, Tru Calling e CSI, além de sua passagem por Buffy a Caça Vampiros a partir da quinta temporada e com mais força na sexta, aquela que metade dos fãs adora e a outra metade simplesmente aceita. Já o companheiro de produção de Doug, Marco Ramirez pode ser considerado um novato, mas com peso igual ao do companheiro. Ramirez tem em seu currículo Da Vinci’s Demon e Fear of The Walking Dead, além de já ter escrito roteiros para Sons of Anarchy. É importante reconhecer que apesar de terem trabalhado nos mais diversos gêneros, ambos os produtores sempre tiveram em suas mãos material com personalidade forte, condizente com Demolidor e a proposta da Marvel para a Netflix. São elementos reais misturados com o fantástico. Sempre exacerbando o emocional humano por trás destes heróis, bruxas e afins.
Tudo neste primeiro episódio é mais leve e bem mais animador do que o começo da primeira temporada, no ano passado. Agora que Matt já está uniformizado é praticamente como se ele estivesse respondendo a um chamado divino. Levando em consideração a religião e fé do personagem, é mais do que óbvia a conexão entre missão e expiação. Diferente do desenvolvido anteriormente, não é mais a culpa a força motriz do herói, mas sim a certeza de que apenas ele é capaz de salvar as pessoas que estão nas trevas, invisíveis aos olhos cegos da justiça. Existe um entendimento muito grande a respeito da própria natureza. Matt não se considera um homem perfeito, mas compreende que o anjo salvador não aparece envolto em luz. E no caso dele, possui chifres.
Assim como no ano de estreia, estamos enfrentando as consequências de ações do passado. Através da ação dos Vingadores na batalha de Nova York surgiu a oportunidade para que Wilson Fisk tomasse o bairro que cresceu e representou tanta mágoa em sua via. O antigo vilão utilizou a especulação imobiliária e potencializou o crime para sujar as ruas, de uma forma que apenas ele conseguiria limpar. Agora que não temos mais o Fisk, a ordem natural da vida segue seu rumo, encontrando substitutos para se alimentar do corpo da Cozinha do Inferno. Vários cartéis e gangues surgem para substituir a atividade dos russos, da Madame Gao e os outros empenhados na missão fracassada do Rei do Crime. Note que eu optei por chamar a Cozinha do Inferno de corpo e acho mais do que apropriado poder fazê-lo. Existe um nível crível no desenvolvimento daquele lugar em que a série impõe a sua presença como a de um personagem vital para o desenvolvido da trama.

Para um episódio mais centralizado no desenvolvimento de personagens, quem assume a direção é Phil Abraham, que invoca toda a sua experiência em cenas mais intimistas para trazer uma nova luz ao trio Matt, Foggy e Karen. É interessante ver que o trabalho do diretor em Orange is the New Black, por exemplo, recebe uma roupagem nova ao ser traduzida para um mundo de superpoderes. Em duas cenas similares, na sequência do bar, Matt utiliza seu dom de compreender a emoção humana através dos batimentos cardíacos. De um lado temos Karen mostrando (sem perceber) o que sente pelo advogado e do outro o cliente conectado a máfia irlandesa, exibindo seu medo e a verdade em seu discurso. A “brincadeira” aqui, que flutua do comportamento da mocinha para o capanga, mostra que em ambos os casos o Matt sabe exatamente o que está acontecendo, mas só escolhe agir em um deles. Aquele que para ele é mais fácil.
Existiu um diálogo entre Matt e Foggy que praticamente delimita Matt enquanto advogado e herói. Ele acredita que seu trabalho importante acontece quando a noite cai, enquanto ele está salvando mulheres de maridos abusivos, ou quando o alcance da lei é demorado. Contudo ele nunca coloca seu trabalho acima da lei ou da responsabilidade que possui. O Demolidor salva a mulher do marido abusivo por compreender que através dos métodos convencionais ela estaria morta, mas ele não se coloca totalmente como júri, juiz e executor. No final o homem tem os dois braços quebrados e uma ação judicial, e é essa a extensão do poder de alguém que não deveria tê-lo e sabe muito bem disso. Em sua mente aquele é o casamento perfeito, a utopia de um herói em um mundo tão humano. E é aí que eu imagino que entrará o Justiceiro, para chacoalhar a visão do Matt e elevar a tensão entre justiça e justiceiro.
A própria abordagem escolhida para retratar a ação do Demolidor e a do Justiceiro é uma amostra da posição de ambas as personagens neste mundo caótico. Matt sente-se confortável trabalhando nas sombras, apesar dos riscos. Na montagem inicial do episódio nós quase não vemos o seu rosto, não até que o “trabalho” esteja concluído e finalizado com um sorriso de satisfação. Assim funciona o Justiceiro, mas com uma justificativa diferente. Matt opera nas sombras porque ele precisa que seus inimigos sintam medo dele. Quando um herói opta por não matar o vilão, ele precisa de algum tipo de ferramenta de controle, neste caso o temor. Já o Justiceiro também opta por não mostrar o rosto, se aproximando do mocinho, mas sua abordagem é bem mais cruel, o distanciando completamente. No caso do Punisher é muito mais pessoal, frio e calculista. Não mostrar a face para ele é apenas uma conveniência.
O embate entre os dois também mostra o quão confortável Matt se tornou dentro de seu uniforme de vigilante. O personagem que antes demonstrava total habilidade de seus movimentos agora aparenta certa lentidão, imagino que um presente de alguns meses mais tranquilos. A luta entre mocinho e vilão veio rápida, indo contra o que havia sido apresentado no primeiro ano, em que o Wilson Fisk só foi dar as caras no quarto episódio. Também é outro forte indicador do quão mudada a primeira temporada da série está, além de bem mais heroica. Como primeiro episódio para a segunda temporada de Demolidor Bang serve para separar a série daquilo que já conhecíamos a respeito do vigilante. O clima aqui não é mais o de sombras. Apesar de continuar operando nelas, o Demolidor não está em uma posição de mistério, mas sim de herói. Claro que não essa aparente tranquilidade não durou muito tempo e quando ideais do herói forem confrontados, quero ver como Matt se comportará em sua inabalável fé no trabalho de seus punhos.
Easter eggs e outras informações
– A propaganda de whisky Wild Turkey que aparece na parede do Josie’s é o mesmo que a Jessica Jones consome interruptamente em sua série.
– A gangue ‘Dogs of Hell’ é a mesma que surgiu em Agents of S.H.I.E.L.D., no episódio Yes Men.
– O personagem conhecido como “Turco” existe nos quadrinhos e teve sua primeira aparição em Daredevil #69 de 1970. Na nona arte ele já chegou ser designando para trabalhar ao lado do pai do Matt, Jack Murdock, como um capanga.
– Rua Meatpack 13 é uma conexão ao Meatpacking District. Este local já apareceu várias vezes e nos mais diversos números de vários heróis, como Homem Aranha, Quarteto Fantástico, Jovens Vingadores e Blade.
– Existem dois personagens chamados Smitty na Marvel, porém com conexão direta ao Wolverine. O primeiro foi um minerador que teve sua paixão acidentalmente morta por Logan, e o segundo um ladrão, assassinado pelo Wolverine.
– Foi mencionado durante o episódio o personagem ‘Pope’. Bom, não tem conexão com a série, mas é interessante lembrar que este é o codinome do Ahura, filho da Medusa e Blackbolt, rainha e rei dos inumanos.
– Também existe um artista chamado Paul Pope dentro da casa das ideias. Ele foi responsável pela capa e roteiro de Strange Tales 5 vol. 1 e por escrever Capitão América: Vermelho, branco e azul 1, número #1. Seu trabalho mais recente foi durante o evento Guerras Secretas, de 2015, onde desenvolveu a arte de Battleworld 3.
– Grotto é o apelido de um criminoso designado por seu chefe, Eric Slaughter, para enfrentar a Elektra. Obviamente ele foi derrotado pela ninja assassina com muita facilidade. O personagem já trabalhou ao lado do Turco e para o Rei do Crime. Entre suas atividades preferidas podemos listas: jogar poker no Josie’s e já roubou um traje de papai Noel para coletar dinheiro em Nova York. Seu debut foi em Daredevil #168, de 1981.
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