Once Upon a Time entrega um bom episódio em que o Hércules é o destaque, na maioria do tempo.

Escrever a crítica de um episódio da série na altura do campeonato é como deixar um depoimento no Orkut para uma grande amiga que arrumou um novo namorado e se distanciou da turma. Você sabe exatamente as palavras que precisa dizer, mas não tem certeza se pode usá-las no atual momento. Não sem aparentar uma intimidade que claramente vocês não dividem mais. Enquanto a trama continua lutando por ar em um mar de confusões, meu comportamento é o de não esperar mais nada e me surpreender quando algumas expectativas são confirmadas. Talvez lá na frente essa velha amiga decida abandonar seu novo namorado e volte a se divertir pelos bares de antes. Ou na pior das hipóteses, ela case com ele e termine se encontrando com a gangue uma vez por meia temporada, como este décimo terceiro episódio fez. É uma alegoria bem estranha, confesso, mas é exatamente como me sinto. Semanalmente eu torço para que a velha amiga retorne, mas sem saber ao certo se é justo cobrar dela um comportamento que claramente pertence ao passado. E ser amigo não é aceitar?

Como amiga de longa data é claro que Once Upon a Time ganha diversos passes livres por ser uma série que não abusa de um orçamento mais considerável e por ter também, em seu panteão, personagens que aprendemos a gostar durante nossa infância. Sim, o publico alvo somos nós, os mais velhos que cresceram assistindo clássicos Disney como Branca de Neve, Cinderela e Pequena Sereia. O fator emocional trabalha para tapar buracos deixados por uma equipe técnica claramente falha e sem muita noção do que está sendo feito na maioria das vezes, é só observar a quantidade de correções feitas pelo criador da série em seu Twitter oficial. O ruim é o limite, que obviamente já chegou para muitos. Alguns milhões, para ser mais preciso.

Então ver um episódio como este eleva a minha fé de que existe algo digno de lembrança para a série. Mostra que ainda é possível levar essa amiga para o bar e conversar sobre assuntos divertidos, relembrar o passado, rir dos erros cometidos e torcer por mais encontros. Por isso com certeza poderei guardar na memória a participação de um personagem tão carismático como Hércules. Um favor que não foi desprendido para todos os “clássicos” que passaram pela série. O ruim é este capitulo ainda não ser forte o suficiente para alcançar o título de inesquecível. Não como o beijo de amor verdadeiro da Emma na primeira temporada, para nomear um.

Ver a origem da Snow White do gueto foi um ótimo momento para o episódio, em uma temporada que não está sendo nada, além de extremamente frustrante. Passamos apenas por um episódio com o filtro vermelho do submundo, mas existe um motivo muito sério para que você não use uma caneta vermelha para escrever uma carta, depois de algum tempo fica extremamente cansativo. Quebrar um pouco a sequência de Emma e seus amigos para explorar um tipo diferente de flashback cooperou para enriquecer a mitologia da Snow White, de uma maneira que há muito tempo não era possível ver. Outro ponto muito válido é lembrar que no começo a personagem era muito diferente do que ela se tornou. Honrada e cheia de princípios, mas sempre divertida e útil para o roteiro. Lentamente Mary Margareth foi ficando mais forte que Snow White e hoje, ver a série reconhecendo o erro, é como receber uma carta dos roteiristas confirmando que eles perderam a mão.

O maior problema é chegar a conclusão de quão exausta a série está depois de cinco anos. É algo extremamente comum, afinal, já foram mais de cem episódios desde que Once Upon a Time estreou. Também é o que criou bons momentos para Labor of Love, finalmente ter um sopro de ar fresco dentro de uma produção que está criando história para cinco anos da mesma cena, praticamente. Regina com outro tipo de roupagem e roupa confere um panorama diferente, mas ao mesmo tempo bem comum para quem está fielmente seguindo a ex-rainha má por quase seis anos de vida. E não é pouco tempo, investimos muito em Once Upon a Time para ter sempre o mesmo resultado. Seria como colocar um filho na escola por todo esse tempo e ele só conseguir ler um livro. Bem frustrante, não é? A diferença é que o filho você não pode simplesmente abandonar e tem mão ativa para tentar alguma mudança. Com a série só nos resta torcer.

Existem detalhes em Once Upon a Time que apenas um verdadeiro fã das animações vai perceber. É uma ótima forma de cativar o público que permanece fiel ao material, mas só funciona mesmo quando você tem contato com a obra, ou pretende ter futuramente. Por exemplo, algumas falas de Labor of Love são exatamente idênticas as do filme, como a Meg dizendo “meus amigos me chamam de Meg”, ou a Regina usando o termo “Wonder Boy” para referenciar o semideus, que é a maneira como Megara trata o personagem na animação. São pequenos detalhes que enriquecem a composição da série, mas ao mesmo tempo só impõe conexão sentimental em quem pretende uma imersão maior. É um detalhe que eu sempre chamo a atenção nas minhas críticas para séries baseadas em adaptações da nona arte e nunca antes havia feito para Once Upon a Time. Contudo, nunca antes o fiz por julgar que a própria série não faz questão de deixar clara sua intenção de permanecer fiel ao material de origem. Em alguns pontos é bom sim, mas não podemos direcionar esse comentário para tudo.

O trabalho do amor, belíssimo nome traduzido do episódio e que poderia facilmente ser encaixado em uma novela mexicana, vem com muito da força positiva da série, mas ao mesmo tempo falha em alguns pontos. Ter a introdução do Hércules e sua saída rápida barra a necessidade de constantemente explicar o que o personagem está fazendo e porque não apareceu ainda para ajudar. Contudo, ao invés de o mandarem para uma ilha como fizeram com a Ariel, escolheram colocá-lo no Olimpo, lugar onde seu pai Zeus poderia facilmente intervir em favor dos amigos de seu favorito, ou seja, a mágica ainda pode ser utilizada como muleta narrativa. No fim, a série demonstra ter o mínimo de noção do que funciona e do que já parou de ter efeito. Para nós? Resta descobrir se essa temporada será o nosso assunto não finalizado.

PS1. “Pode me chamar de Herc” – Amigo, com esses braços se você pedir para eu te chamar de TOP, eu chamo, mas só por você.

PS². Filtro vermelho já está tão cansativo quanto a inutilidade do Robin. O cara ficou o episódio inteiro de tocaia enquanto o Henry brincava de cadê o cachorrinho com a Cruella. Não é possível.

PS³. “Você me queimou”. “Você roubou minha maçã. É isso o que acontece quando você rouba de uma bruxa, bruxa.” Regina, sempre com as melhores falas.

PS4. A série fez uma confusão tão grande com os nomes que precisou praticamente criar uma trama específica para o da Snow Maria Margareth Menezes White. Mas de verdade? Continuarei chamando pelo nome oficial: Encosto.

PS5. Mais uma decisão estúpida para o Henry. Já perdi as contas. Qual seria essa?

PS6. E essa trama de escolher quem vai ficar no inferninho do Hades? Convenientemente nenhum anão foi levado para o submundo. Estamos de olho.

PS7. Só eu percebi que o trabalho do Hércules era ficar carregando as coisas de um lado para o outro? Parece um “amigo” que trabalha comigo, sempre fingindo que está ocupado quando o chefe aparece. Fica de um lado para o outro carregando papel e fechando pastas.

PS8. Queria que o Hércules tivesse mencionado o quinto trabalho dele: Ficar limpando um estábulo que não havia sido limpo por trinta anos, cheio de bosta. “Ah meu quinto trabalho Snow, ainda sinto o cheiro”.

PS9. O assunto inacabado de Meg era não ter sido resgatada? Ter sido morta? Não ter tocado o braço do Hércules com luxúria na mente? Todas as alternativas anteriores.

PS10. A série perdeu uma oportunidade de ouro ao não escalar o verdadeiro Hércules: Kevin Sorbo. Também não desprezaria o Ryan Gosling, que interpretou o jovem Hércules por duas temporadas.

PS11. Cerberus padrão novela dos mutantes da Record: Nossa, que isso? Ai que susto. Nossa que cachorrão. Eu nunca vi uma coisa dessas na minha vida. Cachorrão, você viu o Hook?

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