O que se desenhava como um dos piores episódios de Lie to Me desde sua estreia dá uma imensa reviravolta nos últimos minutos e, pela primeira vez em muito tempo, me faz aguardar pelo próximo episódio.

Spoilers Abaixo:

Como episódios ruins conseguem ser bons ao mesmo tempo? Às vezes, mesmo que o roteiro não agrade e que o próprio desenvolvimento da história seja precário, um episódio pode ser um marco para uma grande mudança em uma série. Isso acontece com mais frequência do que se imagina. São os chamados episódios de transição. É bem verdade que seria preferível que o roteiro fosse de maior qualidade, mas meu ponto é que mesmo diante da falta de qualidade o episódio se torna importante. É o que acontece com Lie to Me nesse Double Blind.

Nessa semana, encontramos o Lightman Group sendo acusado por um museu de falhar na leitura de seus funcionários, fazendo com que um ex-policial que nunca havia utilizado sua arma mate um possível criminoso, responsabilizando Torres pelo erro. Ao investigar o possível roubo no museu, Lightman conhece então Naomi, uma bela mulher que aparentemente nada tem a ver com o caso, mas que faz parte de um plano de Cal para pegar os responsáveis pelo crime. Com isso, se envolve com ela no intuito de resolver o caso, para fúria de Foster.

Nessa terceira temporada, Lie to Me tem mostrado que não mais tem competência para construir novos e interessantes casos, com exceção talvez do episódio passado, Dirty Loyal. Aliás, vejo essa perda de fôlego desde o fim da temporada passada, quando tivemos uma sequência de fracos episódios, antes de uma melhora no fim. Aqui a situação não é diferente. Tentando separar a história em dois casos para juntá-los no final, o episódio erra ao não perceber a obviedade da relação de Naomi com os bandidos. Após alguns minutos de tela, o espectador perde a paciência com o caso e se pergunta quando Lightman vai dizer a relação entre as duas subtramas. Além disso, o relacionamento de Cal com Naomi soa sempre tão artificial que é impossível dizer que os dois sentem qualquer atração um pelo outro.

Além da forçada relação entre Lightman e Naomi, o próprio desenvolvimento do caso comete falhas que não costumava cometer. Excessivamente linear, o roteiro não permite nenhuma surpresa e torna-se previsível e sem sal, além de manter-se com um ritmo exageradamente lento. Não que a lentidão seja em si um defeito, mas aqui ela destoa com a própria ideia da série, que sempre conferiu agilidade a seus casos. Além disso, o que vemos em Double Blind é provavelmente o caso mais desinteressante desde seu piloto. Em momento algum o episódio desperta no espectador o interesse em saber o desfecho do caso. Isso deve-se a uma fraca e confusa introdução da trama e de alguns personagens, falhando em causar alguma identificação com a situação.

Mas se praticamente todo o episódio consistiu de erros atrás de erros, seus últimos minutos configuram algo que posso classificar como uma redenção. Há alguns episódios víamos que a relação entre Lightman e Foster não ia nada bem, principalmente no lado profissional da coisa. O problema é que agora a coisa passou para o lado pessoal, com a doutora revoltadíssima com as atitudes do sócio, principalmente por ele não avisá-la como iria resolver o caso e deixá-la perdida. Apesar de ser óbvio que os dois nutrem sentimentos um pelo outro, nada poderia ser melhor para a série do que um conflito interno no Lightman Group. E pelo visto Foster não será a única a enfrentar Lightman. Já vimos anteriormente que Loker já declarou guerra ao patrão e está de saída. Isso me leva a pensar se logo não veremos Torres agindo da mesma forma, apesar de ela dever muito ao chefe. Não me admiraria se a série investisse muito nesses conflitos nessa temporada como forma de conferir ao roteiro uma maior continuidade, como eu sempre pedi.

Já que citei Loker e companhia, é importante perceber como tanto ele como Sarah, Charles e Wallowski sumiram do episódio. É verdade que o enfoque em Torres, Foster, Lightman e Naomi foi tão grande que até tornou raras as cenas dentro do famoso cubo luminoso da sede do Lightman Group, mas o desaparecimento repentino de tantos personagens soa estranho para quem acompanha a série de perto. Apesar de ser preferível eles nem aparecerem a fazer pequenas e inúteis pontas, é importante que a série saiba aproveitar melhor seus coadjuvantes, como faziam na primeira temporada, quando Torres e Loker recebiam grande destaque. Agora, com muitos personagens secundários é complicado fazê-lo, mas é preciso encontrar um meio.

Apresentando um péssimo episódio com um final intrigante, Lie to Me parece querer mudar sua proposta ao tornar seus episódios menos soltos, mas precisa tomar cuidado para que seus casos voltem a ser interessantes como foram. Pessoalmente, eu a considero uma boa série, mas essa terceira temporada ainda não entrou em sintonia, o que é muito perigoso para o futuro.

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