A família que transformou TGIT em GIT
Embora a sinopse de “The Family” indique um plot principal batido e clichê, tratar sobre o desaparecimento de uma criança e os mistérios relacionados a tal tragédia costuma ser no mínimo divertido de assistir. Contudo, após dois episódios, a vontade de olhar para o teto e ver o que está passando na rua, se torna mais interessante do que muitas cenas rolando na televisão.
Com uma história igual ao filme “The Impostor”, e lembrando séries como “Secrets and Lies”, “Finding Carter”, “The Killing” e “The Missing”, a série poderia facilmente aprender com os erros e acertos de seus antecessores e assim, desenvolver personagens e tramas de uma forma que transpassasse o melodrama e suspense barato. Imagine como seria interessante tratar sobre a ressocialização de Adam e Hank? Um reaprendendo como o mundo funciona fora de um quarto e o outro a viver sob olhares de julgamento mais pesados do que o que já vivemos. Imagine como seria interessante tratar de maneira profunda o relacionamento humano e como uma experiência traumática pode afetar o psicológico não só daquele que sofreu, mas de todos os envolvidos? Em um momento em que há a existência de “Room” e “Rectify”, acredito que a série poderia dedicar muito mais airtime para tais plots do que se limitar a uma cena no supermercado ou o ato de dormir no armário.
Entretanto, não há como mudar o que foi feito ou ignorar que “The Family” já deixou claro qual é seu objetivo. Alternando entre o passado e o presente, todas as cenas são sustentadas por um fato, esse Adam não é o Adam. A série nenhum momento tenta te enganar sobre isso ou subestima sua inteligência, porém, dentro da ficção, tratam quase todos seus personagens como bobos e burros. Utilizando mais um clichê, a pessoa que percebe o quão estranho o falso Adam age e que algo errado pode estar acontecendo é a única que ninguém leva a sério. Isto é, sem contar a cegueira dos outros sobre a dúvida de como colocar o barco na garrafa (que o menino fazia o tempo inteiro!!) ou a mudança de gosto em relação a ovos, usar o drama ovelha negra da família para prolongar a descoberta mostra um roteiro raso e provavelmente cansativo no futuro. Além disso, toda a possível trama em volta do DNA, peça fundamental para reconhecer um corpo ou aquele que voltou em casos de desaparecimento, foi resumida na série em uma cena. Me faz até mesmo imaginar que Jenna Bans e seus colegas estavam com preguiça e decidiram enfiar qualquer explicação para satisfazer aos personagens da série de que Adam era o Adam. Sim, os personagens da série, porque sem mostrar ou falar o que foi utilizado para fazer o teste, confundindo nos episódios se o doutor não existia ou não estava na cidade e tendo como prova apenas a palavra da detetive que prendeu um homem inocente por meio de ameaça, é impossível que o telespectador com o mínimo de conhecimento sobre como funciona na realidade aceite esse roteiro preguiçoso.
Ainda nesse sentido, no meio de muitos personagens com uma importância clara e lógica de envolvimento com o plot principal, Bridey Cruz se destaca, porém, de maneira negativa. De blogueira do modo de vida lésbico, cuja existência aparentemente não era lembrada nem mesmo pelo chefe, à repórter investigativa (como esse roteiro passou?), Bridey utiliza de sua sexualidade para conseguir informações do irmão mais velho, Danny Warren. Essa história lhe parece comum? Parece porque é. Usar sexo e outros meios ilícitos como maneira de arrancar informações secretas de alguém não é uma estratégia de ontem, nem do século passado, talvez de Roma Antiga quem sabe. Se ao menos Danny estivesse consciente do jogo de Bridey e fizesse uma troca, seria aceitável, porém mais uma vez a série coloca seu personagem como um bobo que conta informações íntimas e que podem impactar seriamente toda a família, simplesmente por ser bobo.
Contudo, relevando o supracitado e o desenvolvimento extremamente lento dos personagens por existirem uma grande quantidade deles, a série apresenta uma hipótese interessante e cruel, que poderia ser o bote salva-vidas necessário. Por meio do flashback, é possível observar que o desaparecimento de Adam gerou um boom político para Claire, tornando-a prefeita de Red Pines. Além disso, ao analisar o presente, fica claro que Willa se tornou o braço direito da mãe na luta política e possui a frieza necessária nesse meio para pensar em coletivas e na imagem midiática, enquanto seu irmão acabou de ser encontrado. Com todo esse contexto e pequenas cenas ao longo dos dois episódios que nos levam a suspeitar de Willa e seu envolvimento no sumiço do irmão, uma hipótese de que tudo foi arquitetado em prol de um interesse político parece ser até mesmo palpável. Entretanto, ao ver Hank com as luvas de Adam e o sofrimento de Claire com o filho dormindo no armário, paira no ar a dúvida de se há mais de um culpado pela tragédia na família Warren. E, constatando as marcas nas costas de “Adam”, a magreza e aparência abatida, também é possível perguntar se esse menino não é apenas outro que foi sequestrado e está fingindo por ser sua melhor e talvez única saída.















