Sim, sem mais delongas: esse foi a melhor season première de House of Cards. Depois de tropeços e irregularidades em sua terceira temporada, a série retornou firme e petulante. Se nos primeiros capítulos, uma certeza implacável era a de que, independente de jogos políticos, sensacionalismos, traições e mágoas, a união Underwood permaneceria inabalável, esse Chapter 40 enterrou de vez essa ideia. A saída de Claire da Casa Branca não foi um capricho nem detalhe, a série não recuou e agora o palco está montado para um embate voraz entre a Primeira-Dama e o Presidente ao longo desse quarto ano.
E, diante desse embate, a primeira cena da temporada foi emblemática: Lucas Goodwin declamando um conto erótico para que o colega de cela se masturbasse. Equilibrando-se entre o humor e o drama, esse momento retoma uma figura que possui conhecimento para causar estrago na rixa entre os protagonistas. O editor que foi sacrificado em prol do segredo da informação sobre a morte de Zoe Barns, fora da prisão, pode continuar sua busca pelo desmascaramento de Frank e levar Claire em seu rastro. No entanto, assim como os outros plots expostos no episódio, Lucas, ou melhor, John Carlyle, é uma possibilidade rica, mas apenas latente no momento.
Substituindo a Rússia e Petrov, o Poder Armênio pode vir a assumir o posto de bandeira da política internacional da temporada. House of Cards não costuma trazer à tona elementos com pompa para descarta-los e o colega de cela de Lucas foi um instrumento do roteiro para apresentar a organização criminosa. Apesar de uma organização criminosa estadunidense, as inspirações do Poder Armênio são russas e seu rastro de ação já se tornou internacional. Diante disso, esse é um plot que pode vir a fomentar a tensão na temporada: uma questão de segurança social e política começada por eles seria uma pedra grande no sapato de Underwood, mas provavelmente o alcance deles será em torno de Lucas.
Heather Dunbar ficou em segundo plano na première e isso era necessário. Apesar de poucos segundos de tela, sua força é progressivamente maior. Prova disso foi a barganha entre Seth e a chefe de gabinete de Dunbar: mesmo que Seth tente ser fiel a Frank, a força da barganha está se tornando de Heather e a tentação de buscar alternativas em caso de derrota na campanha se torna mais presente. Heather também foi instrumento do roteiro para complementar a exposição do dano que Claire é capaz de causar na campanha de Frank. E essa exposição rendeu os melhores momentos do episódio.
Mesmo que não queira admitir para si ou para a esposa, Frank sabe que Claire é crucial para sua vida e ambições políticas. E, para deixar isso claro, a série produziu uma das cenas mais selvagens e incríveis de sua história: a briga física e violenta entre os Underwood. Que direção, que montagem e que atuações nessa cena! No entanto, o melhor desse sonho é a exposição do psicológico perturbado e nervoso de FU: ele podia agredir brutalmente Claire, mas quando ela revida, o faz de forma contida e selvagem, esfaqueando-o. E o resto do episódio criou o terreno para a construção concreta dessa, por enquanto, possibilidade.
Claire sabe o poder que tem, sabe manobrar a política e, principalmente, sabe virar o jogo de forma fria e ágil. Por mais que Frank tentasse derrubá-la e impedir que ela perdesse o foco dele e de sua campanha, a Primeira Dama bateu o pé e deixou claro que isso não é o que vai acontecer. Sua conversa com Doris foi exemplar: ela deixou que a Congressista justificasse o não para então jogar suas cartas na mesa, surpreendendo a Doug e a própria Doris. Com Leann, a Primeira Dama repete esse jogo e se guarnece de uma figura petulante e ousada. Além disso, a chegada da mãe de Claire na história só a fortifica ainda mais. O “Você é mais forte que ele, mas você tem que colocá-lo no lugar dele” que ela fala à filha revela de onde vem a força da protagonista, assim como fecha o círculo imponente em torno da candidata a congressista.
House of Cards retornou bem, firme, coerente e tensa. Não expôs bombas nem cliffhangers, deu continuidade à terceira temporada e abriu espaço para os novos caminhos de seu universo. Soube administrar a seriedade da política e o humor irônico característico. Trouxe Kevin Spacey e, principalmente, Robin Wright excelentes em cena. E ainda deixou um detalhe curioso para nós: dessa vez, Frank não quebrou a quarta parede, afinal sua preocupação não é com seu ego e sim com a ameaça da esposa, mas poderia isso também ser sinal de que nessa temporada Claire será o foco? Independente do caso, que venham os próximos 12 capítulos.
P.S.: Que diálogo lindo foi entre Leann e Doug – “Você está falando com o presidente”, “Sim, eu conheci a voz dele”. Leann prometendo muito desde já com essa petulância toda.
P.S.: Ellen Burstyn e Cicely Tyson reinando em seus poucos momentos em tela. Indicações a Emmy a caminho.
P.S.: Robin Wright esteve magnífica nesse episódio. Os olhares e as expressões de desprezo contido foram um primor.














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