Eu não sou negro, eu sou OJ”

Alguns anos antes de ficar conhecido no mundo todo como um grande esportista, um astro de cinema e um potencial assassino, OJ Simpson, esse ambicioso jovem, ingressou na USC, uma universidade do sul da Califórnia que era conhecida por ser prioritariamente branca. Ele era um dos poucos exemplos de negros que acabavam ingressando nessas faculdades por conta de seu talento para o futebol. Lá, contudo, a passagem de OJ não é lembrada com ares de segregação, muito pelo contrário. De modo muito inteligente – e segundo constam de entrevistas com antigos colegas – OJ aprendeu muito rápido como tornar-se uma “presença confortável”. O que isso quer dizer? Que para os colegas brancos de Simpson, ele não era um “negro referencial”. 

Se existe uma forma de vencer as barreiras da exclusão é a partir da essencialidade. OJ entrou numa importante universidade que quase não tinha negros, mas isso tornou-se possível porque ele seria uma adição fundamental para o time da casa. Sua utilidade vencera a barreira e essa foi uma lição que ele levou consigo, para a vida. É muito natural pensar que uma outra grande forma – talvez a maior delas – de obter consentimento para estar em sociedade sem que haja fronteiras é a partir do exercício da fama. A fama é até hoje o estado de existência que permite tudo. Então, OJ correu atrás e conseguiu tornar-se famoso. 

Esse excelente episódio três de American Crime Story começa com Robert Kardashian indo a um restaurante com os filhos, comemorar o dia dos pais. Para a galera que fica de mimimi porque os Kardashians são “mencionados sem necessidade” nos roteiros, esse teaser foi a resposta derradeira. Eu aconselho: olhem para o panorama completo. Esse é um caso que levanta questões importantíssimas a respeito do poderio midiático; e envolvido nele está o patriarca de uma família que fez seu futuro apoiado em fama. Nada, absolutamente nada que diga respeito aos Kardashians nesse roteiro pode ser considerado desnecessário. Todos sabemos que essa não é uma série apenas sobre um crime, mas é também uma série sobre como a engrenagem social daquela época – naquela cidade – afetou o veredito e a recepção pública. Essa é uma história sobre a “fama sem virtude” e ao fazerem Robert dizer isso aos filhos, os roteiristas estão fazendo uma estupenda ponte entre a atmosfera passada e presente da nossa afetação midiática. 

Aliás, que me perdoem os céticos, mas esse roteiro está simplesmente brilhante. A tão criticada direção das tomadas rastejantes, sinuosas e dos closes dramáticos, ainda está ali (mesmo com Ryan fora da direção). Acho que tudo está completamente contextualizado quando colocamos em perspectiva que essa é uma vida fingida de drama. Mas, nem todos compartilham desse pensamento. Ainda assim, esse roteiro e esse texto são absolutamente complicados de criticar. Ver esse terceiro episódio construir tão bem as relações entre mídia e racismo foi um deleite para mim. Mais do que narrar um crime, eles estão analisando o organismo vivo daquela Los Angeles. 

Esse também foi o episódio que nos mostrou o Dream Team da defesa sendo formado. Quem estudou o caso já sabe que será exatamente na teoria do questionamento de provas, que esse time irá se apoiar. As evidências contra OJ eram tantas que realmente a única forma de encontrar uma brecha seria usar essas evidências contra si mesmas. Essa era a segunda grande estratégia, porque a primeira seria um presente dela, essa mesma da qual já falamos, a mídia, a fama. Essas eram as inimigas realmente poderosas da polícia e da promotoria. E ao assistirmos com atenção esse episódio, dá pra ver o quanto ela era esmagadora. 

Essa imagem acima é a imagem real das capas que apareceram no episódio. A Newsweek usou a imagem sem tratamento em OJ e a Time manipulou as sombras, colocou um desfoque e transformou a foto num símbolo de puro racismo. Na verdade, como bem mostrou o roteiro, o que os editores queriam era dramatizar a edição, mas a inflamada população negra da cidade entendeu que estavam enegrecendo mais ainda o que já era discriminado. Los Angeles e sua sociedade branca e esnobe, queriam transformar aquele homem em culpado, aquele homem que “tinha dado a volta por cima”. 

No ótimo diálogo de Christopher com Marcia, ela demonstra surpresa ao ver que a defesa seguirá pelo caminho racial. Shapiro entendera primeiro que ela era a força da questão, quando soube que Mark Fuhrman, o policial que encontrou o sangue e as luvas na casa de OJ, tinha um histórico racista. Marcia não via, mas Christopher adiantou para ela a forma emocional, pessoal, com a qual a comunidade negra se relacionava com o caso. E de novo, um OJ que se recusava a aceitar que a polícia ou o mundo estivesse tratando aquilo como uma questão racista, fora jogado nessa direção justamente pelos próprios “fãs”. Ninguém sabe se ele realmente disse a frase que serve como chamada dessa review, mas ela só é atribuída a ele porque era assim que ele se via: um homem que transpusera a barreira da cor. 

https://youtu.be/9XUYLWyuy-M 

No minuto 0:46 do vídeo acima, vocês podem ver Jill Shivelly, a única testemunha que viu OJ dirigindo o Bronco muito perto da casa de Nicole naquela noite, dando a entrevista que provocara a irrelevância dela para a promotoria. Esse vídeo é de uma outra entrevista que ela deu muito recentemente, comentando justamente a forma como a série reproduziu o momento. Jill se diz arrependida de ter vendido a própria história por cinco mil dólares e diz que nunca se esquecera de Marcia Clark dizendo-lhe que ela “destruíra o caso”. É praticamente impossível não pensar como é curioso que tenha sido a busca pela fama e pelo dinheiro que possibilitaram a OJ a chance de ter advogados tão importantes e que também foi a busca pela fama e pelo dinheiro, que aniquilou vários argumentos da defesa. Como bem disse Kaito, “a fama é complicada”. 

É como se todos os que estivessem envolvidos o mínimo possível no caso, estivessem desesperados por um pedaço do status quo do crime. Às vezes nem precisavam estar tão envolvidos assim… Os talk shows ferviam de participações de especialistas de todo tipo, se consumiam de ansiedade para encontrar ângulos que garantissem mais audiência. Abaixo, por exemplo, está um dos vídeos exatos usados na cena em que Shapiro mostra a Lee Bailey algumas dessas entrevistas. Trata-se de Vincent Bugliosi, promotor que se tornou famoso ao conseguir a condenação de Charles Manson e seus seguidores com uma argumentação que poderia beirar o risível: eles mataram porque achavam que estavam dando início a uma guerra racial que levaria os negros ao poder, apenas para que eles voltassem de seu exílio (num buraco no deserto) para retomarem o controle do mundo e subjugarem os negros definitivamente. O nome do movimento era Helter Skelter e vários inocentes em Los Angeles morreram por causa dele. Olhem isso… Brancos matando brancos para culpar os negros. Aquela cidade fervia de indignação racial. 

https://youtu.be/eWhP7Jq2J-Y 

Entretanto, a situação toda era muito ambivalente. Quando a matéria na revista New Yorker saiu, a própria capa também era outra denúncia de que a mídia tomara as rédeas daquela situação e que era ela quem tinha o poder, que daria as cartas o jogo. A capa mostrava um salva-vidas com uma TV no colo, ignorando o chamado de várias pessoas que apontavam para um afogamento. Todos no desenho são brancos. Na TV no colo do salva-vidas, uma imagem de OJ. Mais emblemático, impossível.

Toda a comunidade negra – e até parte da branca – que leu aquela entrevista com Shapiro, já estava sendo devidamente catequizada. Mark Fuhrman, o policial “desmascarado” pelo advogado era um grande racista e a insinuação de que OJ era só mais uma vítima já estava feita. Essa entrevista e a maliciosa capa da Time, atravessaram a cidade e o país como uma bíblia da verdade. A mídia, a polícia, as autoridades, o sistema judiciário, a sociedade branca dos Estados Unidos, todos estavam tentando colocar atrás das grades outro negro inocente. Dessa vez, o herói deles. O problema é que nesse caso o herói era culpado.

Na última sequência do episódio outro grande ambicioso, Johnny Cochran, consegue finalmente o que queria: ser chamado. Que outro grande vaidoso ele é… Depois de compreender o caminho que precisava seguir, OJ chama por ele, enfim. Courtey B. Vance surge em cena de modo estupendo, traduzindo perfeitamente a condescendência com a qual ele afaga o novo cliente. OJ, que se aplicou tanto na arte de “não ser negro”, precisou abraçar “um irmão” para conseguir mais chances de ser liberto. Ali não eram advogado e cliente se abraçando, nem negro-inocente e outro justiceiro se encontrando. Ali eram dois oportunismos em convergência. Cochran se aproveitando da fama de OJ e OJ se aproveitando da cor de Cochran. A cor que ele mesmo tinha, mas que “não sabia mais usar”… Genial senhores, genial.

O mais impressionante é que a força do que se desejava para aquele julgamento era maior do que qualquer evidência. Porque enquanto os que acreditavam na inocência de OJ bradavam para os quatro ventos o quanto ele estava sendo perseguido por uma supremacia branca castradora, o áudio da ligação de Nicole para o 911 vazava. Ela apavorada, implorando ajuda, os sons de coisas batendo, os berros de um homem descontrolado ao fundo… Como os que defendiam OJ podiam ignorar isso? Branco ou negro ele era um homem. Nesse caso, ele não era negro, não era branco, não era “OJ”… Ele só era um assassino.

Notas de um Crime: 

– No trecho final desse vídeo acima, a atendente pergunta a Nicole se ela fez algo que chateou o ex-marido. Ela diz: “Há muito tempo atrás, mas sempre volta”.

– Na cena entre Shapiro e Lee, Lee comenta sobre o primeiro grande caso em que trabalhou e cita Sam Sheppard. Sam foi um médico acusado de matar a esposa e que passou toda sua vida afirmando que havia uma terceira pessoa na casa. Foi ele quem inspirou o filme O Fugitivo.

– Foi ÓTIMA a cena entre Kris Jenner e Robert Kardashian. Uma das falas dela acerca de OJ resume tudo: “Tudo sobre ele é fingimento”.

– Courtney B. Vance, que interpreta Cochran, é casado com Angela Basset na vida real. Acho que ela deu uma ajudinha nessa escalação, hein.

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