Dreaming on the last mile home

Things are always better

When we’re all together

I’m dreaming on the last mile home

(Last mile home, Kings of Leon)

Há filmes que somente conseguimos assistir acompanhados pelos ecos de outros filmes, seja pelas referências ou então pelo histórico de trabalho dos artistas que estão envolvidos na produção. Foi o que aconteceu comigo ao ver Ricki and The Flash (2015), de Jonathan Demme. Primeiramente, levando em consideração que estamos em um drama familiar que trata do retorno de uma mãe ao seio familiar, Linda, interpretada por Meryl Streep, remeti a Álbum de família (2014), de John Wells. Nesse filme, Meryl Streep, na pele da ácida Violet, também está no papel de uma mãe que mantém uma teia complexa de relações familiares. Por isso que iniciei o texto com a música tema desse filme, em que a banda Kings of Leon realiza um canto saudoso das pessoas que estão em busca do restabelecimento de vínculos com o seu lar.

Para quem conhece o Jonathan Demme de O Silêncio dos Inocentes (1991) e Filadélfia (1993), o seu novo filme pode decepcionar um pouco, mesmo com a presença de uma das atrizes mais idolatradas dos últimos anos no lugar de protagonista. Ricki and The Flash escolhe um modo de narração bem convencional para contar a história da rockeira que optou deixar a sua família para seguir uma carreira musical. O filme, em vários momentos, opta por escolhas fáceis e previsíveis, sem o aprofundamento do conteúdo dramático que possuía potencial para desenvolvimento. Ainda assim, o filme possui acertos, desde a excelente trilha sonora até a escolha de Mamie Gummer (nossa eterna Nancy Crozier, de The Good Wife) como atriz coadjuvante. Ah, e não podemos esquecer de Diablo Cody.

Para começar, quando você imaginou ver Meryl Streep cantando Lady Gaga e Pink? Para os fãs da atriz, isso já valeu muito. O início da trajetória de Linda no filme parte da ligação de seu ex-marido, que pede que ela viaje ao seu encontro para dar apoio à filha recém-divorciada. Com a chegada de Linda, os ressentimentos do passado começam vir à tona. O filme indica que Linda, ao retornar para o seu antigo lar, não está com vontade de se aproximar da vida que deixou para trás, tanto é que ela se identifica como Ricki Rendazzo. A relação com Julie, como era de se esperar, é retomada de modo intempestivo, só que mais pelo fato de esta se encontrar no meio de um divórcio do que por ter que lidar com a mãe que um dia a abandonou. É nesse ponto que vejo um dos grandes acertos do filme: o laço afetivo entre Linda e Julie é restabelecido bem mais rápido do que eu imaginava. Dos três filhos de Linda, pensava que Julie fosse a personagem que mais se manteria distante. Porém, o seu estado emocional é uma das razões para que ela aceite o tipo de ajuda que a sua mãe tem para oferecer. A cena do café, inclusive, mostra que Julie possui tons de personalidade semelhantes ao de Linda. Aliás, os momentos entre essas duas personagens, mãe e filha também fora de cena, rendem boas cenas para o filme.

O reencontro dos membros da família foi uma situação bastante aguardada desde o início do filme: a torta de climão era certa e foi posta à mesa no meio de um restaurante. A propósito, uma escolha um tanto infeliz realizar esse tipo de encontro em público, pois desconfortos e brigas eram iminentes. Como eu sou fã de dramas familiares, gostei muito da cena, apesar da reprodução de certos clichês, como, por exemplo: o filho que recebe a mãe de braços abertos, Josh (Sebastian Stan), e o filho que a rejeita sempre que tem uma oportunidade, Adam (Nick Westrate). O clima de estranhamento se intensifica quando a namorada de Josh pergunta por Maureen (Audra McDonald), a madrasta, não demostrando desejo de conhecer a sua futura outra sogra. O desconhecimento de alguns fatos familiares distanciou mais Linda da sua família do que o esperado, vide o diálogo: “I was born gay (Adam). I was bom Ricki (Linda). Touché” (Pete Brummel, interpretado por Kevin Kline). O pai é o apaziguador dos conflitos, já que, aparentemente, não sente rancor pela ex-esposa e entende os motivos de sua partida. Esse momento também serve para expor os conflitos entre os irmãos, algo que só é mostrado nessa parte do filme.

Outro momento bacana do filme é quando Julie está conseguindo se recuperar e encontra o ex-marido com a atual namorada em um bar. Penso que essa foi uma das cenas que mais exigiram de Mamie Gummer e a atriz soube transpor a fragilidade, desprezo e raiva carregadas por sua personagem. Algo que me surpreendeu foi a entrada de seus pais no bar para confrontar o ex-genro. Sem dúvidas, mais um acerto do filme. Vê-los juntos em defesa da filha foi muito bonito, tanto quanto foi cômico Linda comparar o homem que magoou a sua filha com um cachorro. Em seguida, a abertura do baú de família foi o mote de reaproximação entre Pete e Linda, o que gerou um conflito inevitável com a volta de Maureen. Linda mostrou, em poucos segundos, que era o contraponto da vida certinha de Pete, e que ele precisava disso.

O olhar fuzilante de Linda ao rever Maureen foi amedrontador. A sutileza da instauração da tensão entre as duas, principalmente através das ironias de Maureen (“eu não queria ficar longe da minha família” ou “você ficou bem com o meu robe”), foi um grande acerto do roteiro, pois deixou o telespectador em dúvida em relação às porções de ódio que havia entre as duas. O diálogo “lavando a roupa suja” mostrou que Maureen foi uma pessoa que Linda nunca conseguiu ser. Por outro lado, há um vice-versa nessa relação, visto que a personalidade livre de Ricki, a disposição de ir ao desconhecido era algo fora do alcance da rival. O embate das personagens mostrou o quanto era complexo para Linda aceitar que Maureen “ocupou” o seu lugar com amor e maternidade, fazendo, ainda, com que os seus filhos não esquecessem a mãe que escolheu a carreira profissional.

O desabafo de Ricki no palco ao voltar para Los Angeles foi triste e representou bem muitos anos da imagem da mulher na família em nossa sociedade: “O pai pode fazer o que quiser. Ele pode se arriscar, se viciar em drogas, se afastar. Quem liga se vai magoar alguém? Mas se você for mulher, Deus nos perdoe se perdermos uma audição escolar ou um casamento, porque você tinha um show. Parabéns! Você é um monstro”. A culpa que Linda carrega por ter coragem de ser Ricki é oriunda de uma sociedade que não admite que a mulher faça as suas próprias escolhas, visto que essas escolhas precisam ser feitas sempre em consonância com a maternidade em primeiro lugar. A conversa com o seu namorado também coloca Linda de frente a uma outra dura imagem social: são os pais que a obrigação de amar e não esquecer seus filhos, regra que, aparentemente, não se inverte. Essa constatação só atribui mais peso aos ombros da rockeira. Foi então que me veio a mente a Joanna, de Kramer vs. Kramer (1979), de Robert Benton, filme que deu o primeiro Oscar da carreira de Meryl e que a apresentava numa posição semelhante à de Ricki. Será que nós progredimos nesse ínterim da década de 70 aos dias de hoje? Será que mais vale uma mãe presente e infeliz do que uma mãe distante, mas de bem consigo mesma?

Chegando ao final do filme, Jonathan Demme nos leva ao contexto de uma outra obra: O casamento de Rachel (2009), quando mantém a atmosfera dessa narrativa com a entrada de Ricki no local da festa de casamento de um de seus filhos. O momento cerimonial, em que Julie fica indecisa ao cumprir o ritual do casamento de seu irmão, a meu ver, foi utilizada como uma solução fácil para dizer que os seus problemas estavam superados. A personagem, que teve muito espaço na primeira parte do filme, merecia uma conclusão mais digna de sua história. Os últimos minutos são cobertos pelo emocionante e sincero discurso de Linda ao ofertar aos noivos a única coisa que ela poderia dar: eu não vou falar, rsrs. Nesse caminho, o roteiro do filme destaca a importância que Linda dava as coisas simples, algo que ela provavelmente não poderia dar o mesmo valor se estivesse na vida de luxo de seu ex-marido. A “reconciliação” com Maureen veio na medida certa: a frase de gratidão dita para mulher que criou os seus filhos surtiu um efeito tão poderoso quanto ao longo diálogo.

Ricki and The Flash, apesar de seguir um ponto de vista de narração convencional, acerta em algumas escolhas de apresentação dos laços afetivos dessa família fragilizada por conta de uma separação. Meryl Streep está magnífica, como sempre, se bem que, em algumas passagens da história, tive a impressão de que, musicalmente, ela parecia estar mais à vontade com a sua Donna de Mamma Mia (2008), de Phyllida Loyd. Espero que a sua prole apareça mais nas telas. Admiro Mammie Gummer desde as suas pequenas (e memoráveis) aparições em The Good Wife. Para quem gosta de drama familiar, o filme conta com os principais recursos para a construção de uma narrativa desse gênero. Confesso que senti muita falta de mais cenas conflituosas com a família completa. Esse tema de retorno para casa e a tentativa de recomposição dos elos familiares nas mãos de uma boa equipe de produção, combinado a um bom elenco (como é o caso) sempre rendem um bom entretenimento de cunho reflexivo e inquietante.

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Diogo Souza
Graduado em Letras-Português, Mestre em Literatura e Ensino, Doutorando em Estudos Literários, pesquisador das relações interartes entre a literatura e o cinema, cinéfilo, leitor de poesia, e às vezes cronista.