De volta ao velho mundo.

Na sua segunda temporada de existência, The Walking Dead criou um padrão. Ela encontrou sua métrica, seu ritmo, sua melodia. Nunca saberemos se a renúncia de Frank Darabont no hiato entre o primeiro e o segundo ano, não acabou sendo resultado justamente da descoberta dessa engrenagem. Mas, o fato é que uma vez estabelecido esse sistema, a série nunca mais se livrou dele. Quando digo isso, não estou dizendo que ela deveria abrir mão de sua identidade, mas que em algum ponto desse processo essa mesma identidade começou a depor contra o programa.

Vocês sabem do que eu estou falando… Essa métrica diz respeito a forma como eles aprenderam que dividir a narrativa em vários núcleos estica os plots, que não precisam ser abordados semanalmente. Isso economiza grana (espertamente algum dos plots está sempre num itinerário simples como uma floresta ou uma casa), economiza conflitos e aumenta a ansiedade. O problema é que para mantê-lo sob uma redoma de elogios, cada aspecto desse sistema tem que ser impecável. E em se tratando de The Walking Dead ele nem sempre é.

Now foi outro exemplo do quanto a série pode ser enfadonha ainda que esteja no meio do caos. Começamos essa temporada lá em cima, vimos três episódios que conseguiram o impensável ao manterem a tensão dentro de um único dia. Mas, quando eles diminuem o ritmo, eles diminuem mesmo. Eles aniquilam. E não, não estou dizendo que “tem que ter ação sempre”, só estou dizendo que até pra diminuir ritmos há de ser ter competência. Mesmo um álbum enfia uma balala a cada três canções agitadas, mas se essa canção for mesmo boa, esquecemos até dos pulos que dávamos na faixa anterior. 

Depois de três semanas de um fôlego notório, estamos de novo no nosso mundo velho das narrativas entrecortadas. Partimos da semana Morgan, para a semana Alexandria. Seguiremos para a semana Daryl, Sasha e Abraham; e provavelmente antes do mid-season finale, teremos uma semana Enid ou Glenn. As faixas já estão prontas e o ritmo já foi determinado. A questão é que Now foi uma daquelas canções feitas só pra encher o disco e mesmo que alguns momentos importantes estivessem nela, a sensação final, para mim, foi de indiferença. 

Venho aguardando muito pelo clímax de Alexandria. Não é nenhum spoiler dizer que ele vai vir… Por isso, ver a horda de walkers chegando me fez sorrir. Esse foi um episódio conduzido pela perspectiva de Deanna, que assim como na icônica cena dos quadrinhos, diz a Rick que é dele que a cidade precisa. De fato, é na forma como a cidade vem encarando os eventos que está a verdadeira base desse ponto da história. Alguns ainda “dormem”, mas outros já entendem que Alexandria não é uma utopia que será protegida só com boas energias. 

Entendo que a mulher estava perturbada com tudo, mas ver Deanna agindo de modo estúpido não me caiu bem. Ela está abalada, mas não é burra. Já ouviu de Deus e o mundo que walkers só são aniquilados com golpes no cérebro e que era preciso fazer SILÊNCIO para não piorar a situação do lado de fora dos muros. Mas, ela quase foi morta por um walker que não estava nem aí pros golpes no peito e achou que extravasar sua ira dando murros no muro seria uma boa ideia. Isso não é estar emocionalmente abalada, é cometer erros que uma mulher inteligente como ela não deveria cometer. Mas, como ter certeza que esses são detalhes propositais ou frutos de uma postura incoerente dos roteiristas? 

Outra que parece ter emburrecido em uma tarde foi Maggie, que por mais que ame Glenn (e acreditem, entendo o impulso de sair louca atrás dele) precisa pensar no filho que está esperando. Glenn é um dos mais espertos ali e ela sabe disso. Não precisaria se arriscar de ir atrás dele enquanto ele pode estar voltando para ela. Qualquer um vê que o melhor é esperar e não correr o risco de ser devorada no processo. Era tão absurdo que ela realmente não conseguiu e pelo menos essa decisão eu respeitei. 

Ainda tivemos outros pequenos plots em andamento, como os conflitos da jovem médica (o beijinho foi legal, mas acho cedo pra dizer que vai mais longe) e a reaproximação de Rick e Jessie. Nada realmente substancial. A briga entre Carl e Ron foi uma das mais mal ensaiadas da história das séries de TV, mas foi importante porque pode estar preparando terreno para um importante momento dos quadrinhos que mencionarei mais abaixo. 

SPOILERS DOS QUADRINHOS, FUJAM!! 

A invasão a Alexandria é uma realidade iminente. Ainda que pequenos detalhes tenham sido diferentes até aqui, o cerco dos walkers adiantou que provavelmente veremos a tomada acontecer muito em breve. Nos quadrinhos esse foi um momento muito forte para mim, porque foi feito de uma forma que parecia tornar impossível qualquer ato de sobrevivência. E um dos momentos mais fortes foi o tiro que Carl leva no olho, perdendo não só ele como parte do lado direito do rosto. Nos quadrinhos, o personagem equivalente a Deanna é quem dá o tiro, acidentalmente. Mas, pode ser que com a mudança de perfil o tiro seja dado por Ron, que nos quadrinhos nutre secretamente um desejo de vingança contra Rick, pelo que foi feito a seu pai. 

FIM DOS SPOILERS, PODEM SAIR DO ESCONDERIJO 

Sei que já falei sobre a melodia de The Walking Dead e já falei mil vezes que a gente nunca deixa de comprar o CD. Mas, quando caímos nesse miolo de faixas alternadas que já deixam claro que só estão a caminho das canções que realmente interessam, fico desmotivado. TWD ainda não entendeu que TODA canção deve importar e deve ser catártica. E não, essa não é uma impressão só minha, não é má vontade minha, essa é uma espécie de fórmula pela qual a série é conhecida mundialmente. Talvez, se não fosse tão marcante até aqui, não provocaria esse tipo de descrença. O fato é que não podemos ser culpados se agora só sentarmos e esperarmos a enrolação até o próximo clímax… A obrigação do show é nos desarmar com quebras de expectativas, não troféus de previsibilidade. 

Right Bite: A mulher que se matou cortando os pulsos em uma das casas era a esposa do homem que foi devorado no portão, lá no Thank You. Só soube porque li, mas achei um detalhe esperto. 

Wrong Bite: Um episódio inteiro com Morgan e nesse ele não dá uma palavra. TWD e sua forma sempre peculiar de lidar com o equilíbrio. 

Random Bite: Chocante ver o nome de Glenn naquele mural póstumo e bom ver Aaron tendo coragem de assumir suas culpas.

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