As lentes para o terceiro céu.
Uma das coisas mais desesperadoras acerca da culpa é a forma corrosiva com a qual ela nos domina. Existem alguns seres abençoados que andam pela terra muito conscientes da forma aleatória com a qual o destino age. Outros, onde me incluo infelizmente, querem pensar racionalmente, mas em suas personalidades ansiosas e sanguíneas, estão num conflito constante para livrar-se da obsessão da responsabilidade.
Quem sofre ou já sofreu de Transtorno Compulsivo Obsessivo, mesmo nos menores graus, sabe do que estou falando. Esse tipo de transtorno pressiona, esmaga as pessoas que sempre se sentem relevantes nas engrenagens que determinam quem sofre determinado tipo de mal. Quando se está tomado por essa condição alarmante, alguma coisa de ruim acontecerá com você ou com alguém que você ama, se todo o ritual obsessivo que sua mente determina não for seguido milimetricamente. O resultado é uma existência impossível, de paralisação e culpa.
O evento do “arrebatamento” no qual se apoia a dramaturgia de The Leftovers é uma constante fonte de remorsos. Mas, nenhum outro personagem do show tem um papel tão incrível nisso tudo quanto Nora. Para os que estão em volta, há uma divisão de impressões bem clara: alguns tem uma imensa compaixão pela mulher que perdeu toda a família na Partida Repentina; outros se perguntam por que todos foram levados, menos ela. A própria Nora, enfim, também se pergunta isso todos os dias e nutre, secretamente, uma profunda suspeita de que existe uma responsabilidade pelo ocorrido em algum lugar.
Ao decidir trabalhar junto às famílias dos desaparecidos em busca de um padrão, Nora estava, de modo velado, buscando explicações para o que aconteceu com ela. Sempre foi bastante complexo, porque ao mesmo tempo em que ela rejeita os aspectos sobrenaturais, religiosos, ela também cede às próprias suspeitas de que o 14 de outubro não agiu assim tão aleatoriamente. Foi por isso que ela pagou 3 milhões para morar em Miracle e foi por isso que ela sofreu tanto quando acordou no meio da noite e Kevin tinha sumido. Ela diz que não, mas passa o tempo todo brigando com a possibilidade de algo ser sua culpa.
Nesse outro estupendo episódio dessa irretocável segunda temporada, The Leftovers confrontou Nora novamente com esse fantasma da responsabilidade. Desde que começamos esse ano que a ciência passou a ser um dos aspectos provocativos do enredo. A personagem, sempre muito mais disposta a aceitar abordagens práticas, fica ali, espreitando as teorias científicas, querendo provas de que pode continuar bradando sem medo que sim, ela não tem culpa nenhuma e tudo foi completamente aleatório.
Quando Nora ouve a teoria das “lentes”, ela se afeta profundamente. Para qualquer mente preparada para culpas, as circunstâncias que envolvem a personagem são mesmo no mínimo curiosas. Só ela não foi levada na Partida e bastou que chegasse a Miracle para que uma “pseudo-partida” acontecesse. Ela não quer aceitar essa possibilidade, mas entende a lógica. Foi somente quando a mulher dos telefonemas descambou para o religioso, que Nora se viu no controle novamente.
A tal pesquisadora dos telefonemas falou do anjo Azrael como aquele que teria “possuído” Nora. Adoraria ter ouvido o resto da ligação, sobretudo porque a menção não foi solta ao nada. Conhecido como O Anjo da Morte, ele tem versões aproximadas entre as tradições judaicas e islâmicas. Um fato interessante é que no meio dos textos, havia um trecho que dizia que Azrael “tinha subido aos céus sem morrer”, o que não deixa de ser uma abordagem poética do arrebatamento. No meio de suas conceituações, o ser aparece como um anjo subordinado a Deus na sua missão de levar os seres humanos até o Terceiro Céu.
Seria muito sedutora a ideia de que Azrael estivesse se rebelando contra Deus, descendo do Terceiro Céu e levando pessoas para lá aleatoriamente; e que Miracle seria uma espécie de território proibido para ele. Mas, acho cada vez mais que The Leftovers não é uma série sobre resolver o mistério e sim sobre mostrar como somos atingidos pelas incompreensões potencialmente sobrenaturais que nos cercam. Não se esqueçam que estamos falando de como a ciência e o lúdico se chocam nessa temporada. A própria ideia de Terceiro Céu é uma espécie de junção desses conceitos.
Primeiro Céu: É aquele que olhamos debaixo para cima. É o espaço onde voam os pássaros.
Segundo Céu: É onde habitam os astros, sol, lua e estrelas.
Terceiro Céu: É a dimensão além dos astros, também conhecida como O Jardim. Para quem não sabe, o nome antigo de Miracle era Jarden, uma das grafias que também querem dizer Jardim.
Os seres humanos sempre foram assim, sempre procuraram justificativas para o que deveria ser injustificável. Algo tão grande como a Partida sem dúvida elevaria isso a níveis quase insuportáveis. É como se todos sofressem de um imenso transtorno compulsivo obsessivo, repetindo padrões em busca de segurança ou para proteger entes queridos. The Leftovers foi imensamente certeira ao não dar importância demais a perguntas que se adiam nas respostas, podendo gerar expectativas. Saber que o sacrifício do bode, por exemplo, foi apenas mais um dos comportamentos supersticiosos da cidade, demonstrou o cuidado que Perrota e Lindelof tem tido com a dramaturgia do show.
A outra “lente” que estaria sendo movida para esse caminho de flagelo se chama Erika. Foi muito impressionante ver Regina King e Carrie Coon dividindo o posto de protagonistas dessa semana, vivendo duas mulheres atormentadas pela ideia de que são responsáveis pelo que aconteceu com seus filhos. Nora perseguiu aquele questionário porque queria ser aliviada e o levou para Erika afim de dar a ela a mesma absolvição. Erika realmente acha que seu desejo foi atendido e sua filha foi levada como resposta. E o pássaro estava vivo… Como negar isso? Lá estava Nora, sentada, querendo passar a certeza de que tudo era aleatório quando na verdade o questionário, as respostas de Erika e o conjunto de circunstâncias iam apontando para outra direção.
É incrível como esse segundo ano tem sido coeso, porque até mesmo a ligação de Laurie procurando por Tom (ainda saberemos porquê) se correlacionava com as dinâmicas de culpa e castigo desse episódio. Outro exemplo é que quando Nora falha na tentativa de desmistificar as suspeitas de Erika, ela se equipara ao constante trabalho contra a correnteza que John vem fazendo. Assim, do mesmo jeito que a casa dele é apedrejada, Erika vai até a casa de Nora e a apedreja. Nesse mundo de The Leftovers as pessoas não apenas são dominadas pela culpa, mas elas se agarram a ela como propósito de vida.
Enfim, Lens foi um episódio incrível, sensível e triste, sobre como é horrível não ter respostas para circunstâncias inexplicáveis que acabam nos consumindo… E elas nunca são boas, elas nunca são justas conosco. O demônio Azrael, que possui Nora, é o demônio da culpa, contra a qual ela luta com a razão, mas que sempre a arrasta para o abismo… Erika agora conhece esse demônio e ele de forma alguma representa os benefícios do Eden. Para mim essas culpas soam sempre devastadoras… Para mim a possibilidade de ser responsável pelo mal alheio é perturbadora. Existe um pesar sem tamanho quando paramos para pensar nisso. Culpa pelo que se foi, medo de perder o que ficou. The Lefovers enfim se consagrou numa dimensão além do Terceiro Céu. Ela é uma série sobre o primeiro dos infernos.
“Em verdade que não convém gloriar-me; mas passarei às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em CRISTO que, há catorze anos (se no corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; DEUS o sabe), foi arrebatado até ao terceiro céu. E sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; DEUS o sabe) foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis, de que ao homem não é lícito falar”
2 Coríntios 12.1
As Sobras: Que manobra linda do roteiro fazer com que Nora voltasse de modo informal a trabalhar com os questionários.
As Sobras 2: Kevin finalmente assumindo que está cada vez mais nos braços da esquizofrenia. Tensa a cena em que ele conta a Nora que Patti estava ali falando com ele sobre ser um grande erro contar sobre ela.
As Sobras 3: Stay, na voz de Rihanna, destruindo tudo. Rola abaixo-assinado para uma trilha comercializada? Esse segundo ano está simplesmente genial.















