Inteligente, atual e abusada.

Com tantas comédias pastelão, cheias de tramas recicladas, Master of None surge como uma ilha de bom gosto nesse marzão de futilidades, e a Netflix acerta em cheio ao apostar no show. A série centrada em Dev, com Aziz Ansari bem mais inspirado que em Parks & Recreation (talvez por essa ser uma produção sua), repleto de conflitos sobre que rumo tomar em sua vida. E falando desta forma, até parece muito do que já vimos por aí, mas o grande trunfo do show é seu tom.

Já no piloto, percebemos que não há o que se preocupar em relação a piadas de mau gosto ou situações embaraçosas que mais geram desconforto do que risos. O texto é de uma sofisticação pouco vista em comédias da atualidade, ou seja, se você está atrás de piada de gases intestinais esta não é sua série. Além disso, Dev é um personagem de fácil identificação, tornando-se uma tarefa muito fácil a de sentirmos empatia por ele.

O foco do episódio foi a relação de Dev com a possibilidade de criar raízes, especialmente falando no sentido de ser pai. Toda a sequência dele servindo de babá de Lila e Grant foi muito bem executada, conflitando com a sua ideia (e de Kyle – no início) de que ser pai seria uma experiência positivamente transformadora para ele. Aliás, a forma como foi conduzido o rumo dos ideais de Dev durante o episódio foi primorosa. Foi tudo muito bem executado, sem que em nenhum momento as situações parecessem forçadas.

E o que mais reforça esta ideia é justamente a contemporaneidade do discurso utilizado na série. As dúvidas e os conflitos apresentados no episódio estão presentes também no dia a dia de toda uma geração que vem com dificuldades de desconstruir ideais e padrões estabelecidos há muito tempo na sociedade, e que já não se encaixam tão bem a todos. Que atire a primeira pedra aquele que nunca se questionou em relação a não casar e ter filhos para poder aproveitar a vida. A série joga esta questão da independência de uma maneira muito natural, mostrando que a tal sensação de completude que Kyle fala na festa não é a única opção (e nem tão real, como pudemos notar mais tarde).

Fora isso, a série apresenta-se de uma maneira audaciosa, chegando até a ser sensual, não pelo momento inicial onde temos Dev e sua camisinha furada, pelo contrário. Falo num sentido mais amplo da palavra, onde temos personagens que são extremamente atraentes, de uma forma que chamam a atenção para si, sem que possamos parar de assistir por um momento sequer. Fato este que é comprovado por outro ponto: a linguagem visual.

A série é inovadora não só no texto, mas em seu modo de filmar que foge da zona de conforto da maioria das séries, especialmente comédias. Em alguns momentos dá pra sentir-se dentro da série, assim como ficam claros os pontos em que precisamos tomar um distanciamento necessário. Soma-se a isso, a forma como foram executadas as epifanias de Dev, cada uma em seu tom específico, intimamente ligadas aos seus conteúdos.

Master of None não é perfeita, mas entrega um piloto bem perto disso. Sem perder o aspecto cômico, consegue ser de cortar o coração e ainda instiga reflexão em seus espectadores, dentro de um ótimo texto e atuações excelentes. Tá aí uma comédia que merece a atenção e o voto de confiança de todos. Vale muito a pena incluí-la na sua watchlist.

* Os 10 episódios da temporada já foram liberados pela Netflix e, aos poucos, publicaremos as reviews de cada um.

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