Todos renascem para a luz através da escuridão nessa quinta temporada que só me seduz e comove semana após semana.
Tem uma história que eu quero contar pra vocês e que faz parte do universo das Crônicas Vampirescas, de Anne Rice. Impossível não pensar nessa referência, que exemplifica tão bem as inspirações para a abordagem vampírica desse ano, tão criticada por alguns de vocês nos comentários. American Horror Story escolheu falar de renascimento e ela não poderia fazer isso da perspectiva tradicional. Na mitologia do horror (que por definição traz consigo a regra das criaturas fantásticas, dos monstros), nenhuma outra espécie se correlaciona tão bem com o “nascimento” como a dos vampiros.
A história é bem simples, quem já viu o filme Entrevista com o vampiro sabe do que se trata. O vampiro Lestat encontra o jovem Louis perdido na vida boêmia e em busca de companhia, lhe oferece o “dom negro”. Segundo Lestat, Louis está recebendo o direito a escolher, coisa que o próprio Lestat nunca teve. Nada lhe foi ensinado, inclusive. Louis aceita e depois de transformado, começa a rejeitar, um a um, os ensinamentos de seu criador, que vê seu “filho” traindo suas expectativas. Lestat então resolve dar uma irmã para Louis, alguém de quem ele pudesse cuidar. A menina Claudia logo se volta contra Lestat também, por ter sido impedida de um dia virar uma mulher. Ambos os filhos do criador lhe atacam e lhe subjugam. Enfim, Lestat não era “a melhor das mães”.
Sempre houve dentro da mitologia vampírica uma certa reverência ao ato distorcido da criação pelas mãos da morte. Quando alguém te leva até o limite da existência e lhe ajuda a reencontrar a “vida”, está, de certa forma, lhe parindo de novo, lhe dando uma nova chance de cortar os cordões e reaprender a seguir. Ficou extremamente claro pra mim, nesse lindo episódio, porque a Condessa é a grande estrela dessa temporada. Ela é a ferramenta progenitora da verdade. Pelo sangue e pela morte ela dá a luz a novas versões dos mesmos seres, antes encolhidos nas próprias fraquezas e que agora podem agir conforme os códigos do próprio desejo. E embora mate com frequência, existe algo na Condessa que desvenda almas e ela é capaz de preservar, como preservou Iris, Liz e Alex. Sim, porque embora Alex tenha sido transformada, a motivação da Condessa parece ter pouco a ver consigo mesma.
Alex fez besteira, entretanto. Ter transformado o menino com sarampo ainda foi um ato maternal, do mesmo calibre que fez a Condessa transformá-la por causa de Holden. Mas, foi besteira e ela provavelmente vai pagar por isso. Porém, nunca esperei que nessa segunda parte do episódio de Halloween a série fosse ter coragem para ir tão longe e mostrar um bando de crianças massacrando professores numa escola de ensino infantil. Foi muito ousado, foi até meio doentio, se considerarmos o quanto o ambiente escolar americano já é cheio de uma péssima mitologia. Fiquei travado em frente a TV, sem conseguir acreditar naquele bando de crianças assassinando adultos para beber sangue. Uma sequência para ficar na história da TV, sem dúvidas.
Embora isso tenha acontecido fora do hotel, está completamente correlacionado ao que acontece dentro dele. Um instinto maternal bizarro e ainda não explicado fez a Condessa sequestrar essas crianças, o instinto maternal fez Alex chegar até Holden, o instinto maternal fez a Condessa transformar Alex e o instinto maternal fez Alex transformar o menino. E é assim como vocês sabem… Mães podem destruir mundos para protegerem suas crias, ainda que suas crias estejam também destruindo mundos. Essa relação com maternidade e renascimento norteia todo esse ano e provavelmente tem muito a ver com a forma como a paternidade mudou a vida de Ryan Murphy, antes fruto de uma família que o rejeitara e renascido através da escuridão e do medo.
Iris é outra que está nesse “berçário”. E pelas mãos do filho que a rejeitara, vejam que irônico. Foi simplesmente maravilhoso ver Kathy Bates dando voz a uma personagem que desde o começo se prostrou diante da existência monocórdia, voltada apenas para o ato da maternidade, como se qualquer outro aspecto de si mesma fosse invisível. Para Iris ser mãe era a justificativa para estar no mundo, mas ela importa, ela tem uma sombra que não pode ser ignorada… E junto com Liz ela percebe isso finalmente.
“Você se torna capaz de ver tudo quando o mundo não te vê”. Essa foi só uma das frases maravilhosas dessa semana. E acho que muitos de vocês se correlacionam com ela. Geralmente, a invisibilidade metafórica nos acomete quando olhamos em volta e tudo parece alegrar-se de estar vivo, enquanto nada de excitante parece querer nos acontecer. Então, o olhar panorâmico fica aguçado e vemos com foco especial e torturante todos os risos entre amigos, olhares entre apaixonados e desejos entre os amantes. E não soamos adequados a nada… É angustiante e assustadoramente possível.
A história de Liz Taylor também é outro dos mais lindos momentos do show e serviu para retirar Iris da sua letargia. E vejam que incrível, não são só atos de vampirismo que despertam as pessoas na temporada, basta que elas aceitem a “sombra que não pode ser ignorada” e que mesmo que não faça parte do “eu” que o mundo quer que sejamos, precisa ser vivida para que a felicidade seja possível. E Gaga diz isso depois de matar duas pessoas… O quão maravilhosa essa série consegue ser ao falar de aceitação e felicidade em meio ao crime e ao horror?
Dennis O’Hare brilhou tanto que me fez chorar. O momento em que ele é flagrado pela Condessa e ouve dela que “beleza não te falta, te falta comprometimento”, foi mágico. A cena foi tão forte que até mesmo Gaga subiu um tom na sua interpretação linear e chorou, sorriu, compartilhou de uma emoção verdadeira. Entendo o raciocínio da cantora na hora de criar a personagem, entendo que alguém que viveu tantos anos pode acabar olhando para o mundo com indiferença, esnobismo e assepsia afetiva. Mas, se você não é uma atriz renomada, dificilmente vão ver seu trabalho como parte de uma construção e sim como uma falha de contexto. Não estou dizendo que aprovo a interpretação, estou dizendo só que entendo.
Acho simplesmente lindo que o argumento para que a Condessa tenha desvendado Liz seja “Seu sangue cheira como o sangue de uma mulher”. Ryan sempre foi um entusiasta das questões de gênero e sua obra como um todo nunca se privou de reforçar esse compromisso. A hora certa para abordar Liz foi muito bem calculada… Estamos no momento da temporada em que explodem relações intrínsecas de sangue e afeto; e embora renascer pela perspectiva da minoria (da “sombra”) seja necessário, quase sempre também pode representar muita solidão. By the way, Gaga deve ter amado gravar aquelas cenas, dizendo aquelas coisas que ela, como cantora, sempre defendeu tão brilhantemente.
E não posso terminar sem mencionar que o horror continua presente não só na sua gênese pouco notada (vampiros são uma abordagem clássica do gênero), como também no aspecto visual. Além do antológico massacre na escola, tivemos Darren Cris tendo a sorte de ser assassinado por Kathy Bates. E Kathy colocou a mão na massa, chorando e esfaqueando; e depois chupando o pescoço cortado da vítima. Um primor. Hóspedes como aqueles até eu ia querer matar…
Eu estou tão feliz que mal posso me aguentar em mim… Estou num dos quartos do Cortez, olhando para o meu reflexo inseguro num dos espelhos. Não importa se o carpete tem cor de vômito ou se o cheiro mistura mofo com urina. Estou sentado aqui porque esse é um lugar onde a sombra e a morte transgridem seus valores primários e ganham outro significado… Aqui a escuridão pode fazer brilhar o corredor e a morte pode lhe trazer seu verdadeiro eu. Essa poesia maldosa que ecoa das paredes me esmaga… Eu prefiro ficar aqui. Eu estou num dos quartos do Cortez e mesmo com medo, eu não quero sair… Não quero sair.
Check Out: “Te olho e só vejo perguntas”.
Check Out 2: Esse episódio não precisava mesmo de nenhuma das cenas com John.
Check Out 3: “Divas não sussurram, querida. Elas gritam”.
Check Out 4: Um caixão para mãe e filho, mortos e renascidos.















