American Horror Story e mais um Halloween de arrepiar a nuca. 

Sempre tive uma atração bizarra e incontrolável por crimes históricos… É bem verdade que também sempre tive um medo irracional de fantasmas e monstros que viriam me pegar nas madrugadas. Uma coisa nunca ajudou a outra, mas coexistem em mim com certa complexidade. Meus sentimentos de compaixão com vítimas de certos infortúnios são extremamente verdadeiros, mas algo em mim nunca se cansa de procurar detalhes sobre como foram mortas. Me compadeço daqueles instantes de contemplação do fim, mas sou atraído pelo valor midiático de tamanhos horrores. 

E foi assim desde sempre… Não sou aquele que se orgulha do apreço pela violência visual. Não olho para cenas de crime com excitação. Compartilho da dor, sinto o pesar, me ofereço com certa morbidez para sentir o sofrimento psicológico do “saber”. Eu tenho certa culpa por ser assim… E me sinto imbecil também. Me lembro que de toda a minha busca incontrolada por detalhes de crimes famosos, a que mais me deixou sequelas foi a busca por informações sobre o Helter Skelter, a série de crimes hediondos cometidos pelos seguidores de Charles Manson (citado no episódio). Depois de consumir absolutamente TUDO sobre o caso, entrei numa espiral de pânicos e medos que me perseguiu por meses e demorou muito até que eu conseguisse voltar a dormir tranquilamente. Eu sou o pior curioso do mundo… Aquele que se esforça pela informação, mas não sabe lidar bem com ela. 

Não estou sozinho, entretanto. A produção artística está do meu lado, me oferecendo livros, artigos, filmes, documentários, episódios… Todo tipo de manifestação de cultura pop possível para enriquecer a atração que certas pessoas têm pela ideia da morte. E de fato, se não fosse a cultura pop, assassinos em série e criminosos célebres não seriam nada mais que uma estatística prisional. James March tem toda razão… Foi a cultura pop que transformou a mediocridade de uma mente assassina em genialidade. E fomos nós, consumidores, que deixamos que o desprezo pela vida, se tornasse midiaticamente relevante. 

Devil’s Night é outro episódio de AHS que entra para a galeria de momentos históricos do show. Ryan Murphy sempre foi um mórbido também, sempre teve atração pela produção de ícones através da dramaturgia e criou uma série só para exercer essa morbidez com a tutela da sensibilidade artística. É uma ironia cruel até… Assassinos que justificaram suas torturas como “arte” sendo abordados constantemente por obras verdadeiramente artísticas. A analogia é essa, a força do programa é essa. 

Mantendo em pauta a regra lançada em Murder House sobre a liberdade dos espíritos no Halloween, Hotel manteve o nível do episódio especial de cada ano e abriu vagas para uma noite de extravagâncias macabras nos corredores do estabelecimento. Esse episódio, entretanto, só pode ser reconhecido em sua força e competência, se o espectador tiver alguma informação prévia. E é aí, senhores, que fico orgulhoso de continuar tirando o chapéu pra Mr. Murphy. Ele não subestima seu público e oferece condições de respeitar quem já sabe e dar oportunidades para que outros, descubram. Pensando nisso, acho que antes de falarmos mais do episódio em si, precisamos primeiro dar uma passada em cada um dos criminosos que fizeram check in no hotel. 

Richard Ramirez

Conhecido como The Night Stalker, o serial killer Richard Ramirez aterrorizava Los Angeles perseguindo pessoas e invadindo residências. Costumava desenhar pentagramas no corpo e ficou hospedado no Hotel Cecil (o mesmo daquele vídeo de Elisa Lam) durante seu período ativo. É bem provável que por isso ele tenha sido o primeiro a aparecer no episódio, naquela cena incrível em que faz o check in com uma Liz Taylor absolutamente tranquila com o fato de hospedar um assassino famoso e já morto. Inclusive, lembrando-o que Charles Manson ainda está vivo e não poderia participar do banquete. Essa consciência dos vivos perante a energia dos mortos sempre foi uma das minhas coisas preferidas lá na primeira temporada.

Zodiac

Esse muita gente conhece por conta do filme lançado alguns anos atrás. Zodiac nunca foi capturado, mesmo tendo deixado uma série de pistas para a imprensa. Provavelmente por isso que no episódio, não vemos o rosto por trás do capuz.

Aileen Wuornos

Também famosa por conta do filme estrelado por Charlize Theron. O diferencial de Aileen sempre foi a profunda consciência do quanto desprezava a própria existência e a raça humana, chegando a pedir ao tribunal que a executasse, porque sabia que se livre, mataria novamente. Lily Rabe ficou com a responsabilidade de interpretá-la e o texto escrito para ela tentou imprimir toda a forma confusa com a qual a mulher via o mundo ao redor. Fiquei surpreso com a caracterização discreta de Lily, o que lhe deu mais trabalho para representar o peso da personagem.

Jeffrey Dahmer

Um dos serial killers mais assustadores dos EUA, matou 17 garotos e rapazes em requintes de crueldade. Praticava necrofilia, canibalismo e fez de sua casa um “altar” de exaltação da morte. Quando foi preso, cabeças humanas, pênis cortados e crânios dilacerados foram encontrados por toda parte.

John Wayne Gacy

Conhecido como “O Palhaço Assassino”, matou 33 garotos e enterrou 29 dentro do próprio porão. Foi descoberto porque a polícia foi fazer uma batida em sua casa e um cheiro estranho começou a incomodar os policiais. Gacy era completamente adorado pela cidade, onde se apresentava como palhaço em diversas festas de aniversário. Não é difícil, inclusive, encontrar algumas fotos dessas festas no Google, o que torna a coisa toda realmente assustadora. John Caroll Lynch foi escalado para viver o criminoso, reprisando sua performance como “palhaço assassino”, ainda que Gacy e Twisty não sejam a mesma pessoa.  O momento em que ele surge na tela com a mesma maquiagem que o palhaço real usava, foi um dos pontos altos desse episódio.

Gordon Stewart

Esse não estava presente no jantar, mas foi lembrado quando descobrimos que o filho da Sra. Evers foi uma das vítimas desse criminoso, que sequestrava e mantinha meninos dentro do galinheiro de sua propriedade. Esse caso acabou ficando famoso por conta da manobra corrupta da polícia de Los Angeles, que subornou um menino (com a promessa de que ele conheceria seu ator preferido) para que ele se passasse pelo filho de Christine Collins, uma mulher que procurava desesperadamente pelo rebento perdido. Após se recusar a aceitar o menino como seu filho, Chistine chegou a ser internada num sanatório e somente quando o menino admitiu a verdade, ela foi liberada. O caso inspirou o filme A Troca, com a Angelina Jolie.

Ainda que Devil’s Night tenha adiado a resposta para o baita cliffhanger do episódio anterior, ele tem uma força representativa admirável. Pudemos ver Lily Rabe brilhando, Evan Peters na sua melhor performance desde o primeiro ano e uma transgressão simbólica que só torna Murphy e seu time cada vez mais provocativos. Wes Bentley teve a chance de dar mais um passo nas mazelas psicológicas de seu personagem e na sequência onde Love e Evers compartilham a dor de terem perdido um filho, a persona “real” e a persona “fantasmagórica” dividem o horror de uma lamentação eterna das mais humanas que a vida pode proporcionar.

Holden acabou estando indiretamente no centro de tudo que envolveu esse episódio. Lowe só está no meio dessa demoníaca relação com March porque de alguma forma os crimes dos mandamentos se relacionam com o impacto que a perda do menino causou em sua vida. Além disso, como eu bem disse, Chloe Sevigny teve sua escalação justificada ao vermos que uma vez descoberta a transformação do filho, a única opção para Alex seria juntar-se a ele na contaminação pelo “vírus”. A Condessa, nesse caso, manipulou as culpas da personagem de modo incontestável e na próxima semana teremos Kathy Bates e Chloe nas suas versões vampíricas que mal podemos esperar pra ver.

Percebam como esse episódio é uma extensão do Mommy, da semana anterior. E também, provavelmente, um arauto do que pode ser a síntese dessa temporada: o renascimento. Alex, Lowe, Iris e a Condessa estão numa constante dinâmica de relações parentais, seja do modo tradicional ou do modo lúdico. Além disso, Holden, Evers, Tristan, Sally e Donovan, são as “crias” que foram extraídas de seu nascimento convencional para descobrir outro tipo de “parto” para um novo mundo. Há uma amargura e um dissabor constante pelo passado e uma condenação eterna a viver pelas consequências dele. Enfim, coisa linda de se ver.

Entendo que pela perspectiva da narrativa central, Devil’s Night se afastou do desenvolvimento central. Mas, com episódios de Halloween sempre foi assim. O que mais me impressiona é que depois de cinco anos, o espírito de American Horror Story se mantém num apogeu completo de manipulação dos signos sombrios do gênero do horror e uma produção comprometida de modo comovente com o que produz e é afetado pela cultura pop. Se é para sermos seduzidos pelos detalhes macabros da existência humana, que seja através dessa arte luxuriosa e provocante, dessa beleza soturna e desse universo medonho.

Check Out: Sally captura desavisados na noite do Halloween e manda pra March só pra poder não ser perturbada o resto do ano.

Check Out: Linda a fotografia de várias das cenas desse episódio, com a luz do sol penetrando as escuridões pelas janelas.

Artigo anteriorA Fazenda 8×06: Quinta Semana
Próximo artigoPrimeiras Impressões: Jessica Jones [Sem Spoilers]