Um início de temporada peculiar, de fato.

Se eu fosse roteirista, não sei o que acharia mais difícil: escrever uma série continuada, por anos a fio, tentando manter a qualidade da obra ao mesmo tempo em que os arcos e os personagens se desenvolvem e evoluem, ou então ter que criar novas histórias e novos personagens a cada ano, tendo sempre que, no mínimo, bolar algo no mesmo nível de qualidade que as histórias anteriores.

Não sei dizer até que ponto é válida a constante comparação entre as temporadas, mas enquanto este recurso não está completamente saturado, podemos perceber que temos dois inícios completamente diferentes: enquanto na temporada de estreia já tínhamos tido muitas mortes e ação a essa altura do campeonato, aqui temos um início voltado muito mais para a tensão dos possíveis desdobramentos do que violência explícita propriamente dita. Não me entendam mal, não que isso seja um coisa ruim, até porquê Fargo não se resume a violência explícita. Personagens de morais dúbias e tensão pelo inesperado também fazem parte da obra, e neste quesito a temporada tem se mantido fiel.

O problema é pensarmos quanto tempo ela vai poder utilizar esses recursos sem começar a soar repetitiva, algo que vislumbramos neste The Myth of Sisyphus. No episódio anterior um dos melhores momentos (se não o melhor) é a cena em que o xerife aborda Milligan e os irmãos Kitchen pela possibilidade de alguém perder a cabeça e a situação sair do controle. A tensão no ar era palpável. Recordo esse momento para vermos que aqui isso acontece duas vezes: a primeira, na fazenda Gerhardt, com Lou e Ben interrogando, se é que podemos chamar aquilo de interrogatório, a família acerca de Rye. Novamente a tensão, juntamente com os diálogos bem escritos, deixa o espectador na incerteza de o que vai realmente acontecer. O outro momento, aí sim um pouco mais explícito, se dá na cena em que Lou entra na loja de Skip e se depara com Milligan e os irmãos Kitchen (e sim, isso soa como um nome de banda de rock). Mas vejam, nas cenas anteriormente citadas, não há armas diretamente envolvidas, apenas os diálogos e a tensão, aqui, mesmo tendo um tipo de embate mexicano, a cena não nos convence de que o inesperado pode acontecer.

Na verdade, pensamos que todos vão sair ilesos, ninguém vai atirar em ninguém, e é exatamente isso o que acontece. Uma parte disso pode ser explicada por uma teoria que Stephen King diz em seu ensaio “Dança Macabra”: na maioria das vezes o terror (que nesse caso pode ser aplicado de igual forma ao suspense) não consiste no monstro criado, mas no desconhecido, naquilo que você não mostra. Você pode ter medo de vampiros, lobisomens e outras criaturas, mas o que vai realmente fazer sua espinha gelar é aquilo que arranha a porta que está fechada. Os roteiristas abriram essa porta no momento em que fizeram os personagens sacarem suas armas, e ao invés de ajudar na tensão desejada, acabou provocando o efeito contrário. Mas como eu disse isso é apenas uma teoria, e isso pode ser uma explicação. Uma outra muito mais simples é que a cena não funcionou como deveria simplesmente porque a essa altura, ela já se tornou repetitiva, afinal era a terceira vez que acontecia em apenas dois episódios.

Enquanto isso, no outro lado da história, Peggy está se mostrando uma pequena gênia do crime, se livrando de toda e qualquer evidência da morte de Rye. Eu realmente não estou enxergando de que forma esse plot vai para a frente, porque não parece haver nada que ligue ela e o marido ao Gerhardt. Até o momento, vejo as seguintes possibilidades para a continuidade do arco: os dois vão ficar culpados e paranoicos achando que alguém sabe o segredo deles, e acabar se enrolando mais ainda nas mentiras. Ou então, e esse muito mais promissor, a patroa da Peggy vai desconfiar e/ou ligar os pontos e Peggy vai se livrar da personagem, o que gerará mais um bom número de possibilidades de desdobramento.

Algo que vem me agradando na temporada é o recurso visual de dividir a tela ao meio e mostrar o que acontece em dois lugares simultaneamente e/ou por outro ângulo. Não sei se alguma outra obra já usou esse recurso antes, mas até o momento não lembro de já ter visto isso. Não que seja algo mega revolucionário, que vai impactar a forma de se fazer séries na tv americana, mas é algo que é esteticamente bonito, útil e que reforça a visão artística da série. Claro que os outros elementos técnicos também ajudam, principalmente a fotografia e a sonoplastia, que são quase impecáveis. Esses são os principais recursos que permaneceram tão bons quanto a temporada anterior.

Apresentando um episódio de ritmo mais lento e num geral mais fraco que os dois anteriores, mas que ainda assim traz bons momentos, Fargo continua desenvolvendo sua narrativa de forma linear e coesa, precisando acertar principalmente no andamento e ligação dos acontecimentos e personagens.

Em tempo 1: Sei que já deveria estar vacinado quanto a isso e assistir Fargo com desapego aos personagens, mas senti a morte do Skip. Não era lá grande coisa na trama, mas era divertido. E que morte horrível, não? R.I.P.

Em tempo 2: Dando uma rápida pesquisa no Google, descobri que Sisyphus trata da lenda de um rei grego que teria armado um plano para matar seu próprio irmão, a quem odiava. O plano não deu muito certo, mas o cara conseguiu enganar até mesmo Thanatos, aprisionando-o nas correntes do submundo, e no período que Thanatos ficou acorrentado ninguém poderia morrer. Como castigo, Sisyphus teria que empurrar um enorme pedaço de pedra até o cume de uma montanha, e cada vez que ele conseguia chegar com a pedra, percebia que o outro lado era uma descida, e a pedra rolava novamente para baixo, repetindo o mesmo procedimento, apenas pelo resto da eternidade. Existem muitas interpretações para esse mito, uma delas sobre a sina do ser humano ter que fazer sempre a mesma coisa. Metaforicamente, quem poderia ser o Sisyphus na história? A família Gerhardt, que quando acham uma pista de Rye voltam à estaca zero? Lou, que como todo policial prende criminosos apenas para ter que prender algum outro por crimes ainda piores logo depois? Peggy, por cada vez ter que pensar numa manobra para encobrir o atropelamento de Rye? Comentem, o espaço abaixo é de vocês.

Artigo anteriorThe Amazing Race 27×05: King of the Jungle
Próximo artigoOs 33