É hora de confirmar as reservas.
No final de janeiro de 2013, a estudante canadense Elisa Lam chegou ao hotel decadente Cecil, numa área marginal de Los Angeles, para uma estadia pequena, apenas transitória, enquanto seguia por uma viagem sozinha a algumas cidades americanas. Elisa tinha 21 anos e apesar de seus problemas bipolares, vivia aparentemente bem e mantinha contato com seus familiares com grande frequência. Isso até o dia 31 de janeiro, quando a estudante não passou para fazer o check out e deixou os funcionários do hotel bastante cismados. Eles não tiveram outra opção e invadiram o quarto, descobrindo que Elisa já não estava mais lá.
O Hotel Cecil esteve de pé em Los Angeles desde a Grande Depressão. Embora fosse um prédio bem grande, com mais de 600 quartos, a fama do lugar nunca foi das melhores. Por anos o seu nome esteve ligado a vários crimes notórios da sombria história da cidade. Serial killers, suicídios, assassinatos cruéis e uma grande quantidade de episódios bizarros. Até mesmo a famosa Dália Negra teria ficado hospedada nele pouco antes de ser morta misteriosamente. Apesar de ainda hospedar pessoas por longos períodos, o hotel acabou se tornando uma opção para prostitutas e drogados que procurassem estadias por hora.
As semelhanças com o Hotel Cortez dessa nova temporada de American Horror Story não ficam só nas iniciais. Evan Peters foi anunciado para viver o dono do hotel e seu personagem foi comparado ao poderoso Howard Hughes, que tinha o hábito de ficar hospedado no quarto 64 de um outro famoso hotel. Nunca saberemos se Elisa Lam, a estudante desaparecida, sabia qualquer coisa a respeito de onde estava se metendo. Mas, de fato, quando ela chegou ao seu destino, na 640 Main Street, ela nem imaginava o horror que estava prester a vir.
A premiere de AHSHotel começou com duas turistas suecas indo parar desavisadas no Cortez. Essa não é uma coincidência… Quando se fala na escuridão que configura a história de lugares como esse, turistas de outros países, prostitutas e viciados costumam ser as vítimas preferidas. Os que vem de longe podem nem ter avisado aos familiares onde estariam e os viciados e as prostitutas muitas vezes podem ter rompido com seus entes queridos por distintas razões. Quando Murphy estabelece que o vício e a luxúria serão as bases da dramaturgia desse ano, ele está indo pelo caminho certo.
As turistas vão parar numa cilada… O hotel não tem internet, parece mofado e velho. Além disso, dentro do quarto um cheiro apodrecido torna a estadia impossível. O paralelo com o caso da estudante canadense, no nosso mundo, lá naquele fevereiro de 2013, está feito. Os hóspedes do Cecil não entendiam porque a água do prédio tinha um cheiro e um gosto tão ruins. Elisa Lam já estava desaparecida há 19 dias e na manhã do décimo nono dia, os funcionários resolveram ir até as caixas d’água do telhado para saberem porque a pressão tinha diminuído tanto. A escotilha da imensa e funda caixa estava trancada, mas dentro dela havia um corpo em decomposição. Elisa Lam estava nua e morta ali dentro, por quase vinte dias, enquanto os hóspedes tomavam a água que a tinha deixado em um grotesco e nauseante “banho-maria”.
No caso das turistas o cheiro vinha do colchão, onde uma criatura horrenda se escondia. Acho que é a primeira vez que as promos da temporada foram quase literais ao material apresentado na premiere. Criaturas, aparições e muito sangue praticamente reinaram nesse começo. Lady Gaga teve uma primeira sequência incrível, com sexo grupal e vampirismo contemporâneo sendo tratados com uma sensualidade petulante. A parceria dela com Bomer só confirmou seu potencial e Murphy foi certeiro em apresentá-la ao show com uma dose especial de horror.
Ainda é cedo para julgar o trabalho de Gaga como atriz, mas duvido muito que ela terá problemas. A Condessa se move com elegância, é fria e cínica. Traduzir isso para a estrela pop não será complicado, já que fazer carões e ser natural perante o bizarro é algo bastante fácil para ela. Embora as premieres do programa sejam muito cheias de informação, houve uma mínima preocupação com construção narrativa. A Condessa capturou um dos dos filhos do personagem de Wes Bentley e trouxe Donovan para seu lado da escuridão, provocando a permanência de Iris, a mãe dele, no local. A partir do momento em que Lowe se hospeda no hotel, uma convergência já está anunciada.
Uma das maiores incógnitas pra mim, entretanto, é Sally. O flashback que mostra como ela levou Donovan para o hotel esclareceu um pouco a história dele, mas deixou a dela ainda mais estranha. Se Iris matou Sally e ela ainda está no prédio, teríamos aqui outro ponto mitológico que liga essa temporada à primeira. Porém, não sei como os fãs receberão a possibilidade de ver reprisada a teoria dos fantasmas que se tornam “físicos” por conta da história macabra de um lugar. Não deixa de ser um bom senso de continuidade, mas também pode ser encarado como desnecessário e repetitivo. Pode haver mais informação para ser dada, entretanto. De fato, forças malignas passando por corredores muito antigos não são uma grande novidade para nós.
Falando em forças e corredores, um último detalhe acerca da estranha morte de Elisa Lam acabou tornando seu caso ainda mais assustador. Antes de encontrar seu corpo e na esperança de ter pistas, a polícia resolveu divulgar o vídeo da câmera de segurança do elevador do hotel, que capturou Elisa no dia de sua morte. As imagens por si só são desconcertantes, mas quando o corpo foi encontrado dias depois, as sequências foram re-contextualizadas e passaram a soar um registo dos mais chocantes. Elisa parece fugir de algo ou alguém que não vemos e tem uma linguagem corporal estranhíssima. Nos quatro minutos que se seguem, há momentos que tornam a coisa toda angustiante e desesperadora. A moça tenta fechar as portas do elevador (que não se fecham), se encolhe, se assusta, até que decide sair para o corredor enfrentando algo com quem dialoga em um eloquente e arrepiante ballet gestual.
Foi esse vídeo que Ryan Murphy assistiu quando teve a inspiração para essa temporada. O caso real de Elisa Lam tem detalhes muito estranhos e assustadores e o fato de ter acontecido no Hotel Cecil tornou a coisa toda ainda mais notória. O karma do lugar começou a parecer tão forte que ele mudou de nome logo após esse último incidente e permanece tentando manter-se em funcionamento, mesmo com os curiosos que aparecem por lá tentando usar o mesmo elevador ou ir ao mesmo telhado onde Elisa esteve, forçada ou não.
Costumo dizer que Murder House foi a descoberta de uma linguagem, que Asylum foi o aprimoramento dos pzisismos, que Coven foi o investimento pop-referencial e que Freak Show foi a experiência do drama. Algo me diz que Hotel será o apogeu da força imagética. Murphy não incluiu Gaga no elenco deliberadamente. A partir do momento em que soube que ela estaria no show, tudo a respeito dessa trama foi construído em torno da imagem, das explosões do olhar. Isso tem tudo a ver com a cantora, que construiu sua carreira em cima da liberdade da expressão visual. Gaga incomodava a sociedade porque imprimia o transgressor, o antinatural e para reforçar a hipocrisia o preconceitos vigentes, usava de contornos muito ligados ao gênero do horror. Sua entrada na série é absolutamente coesa. Mas, sem dúvida, essa será uma temporada tomada de imagens brutais e que podem sim, surgir apenas por seu valor apelativo, o que não seria, de modo algum, uma traição ao traço de horror que a configura.
Não sei se a estudante Elisa Lam será retratada na série ou se serviu apenas de inspiração para Ryan. Sem dúvidas, as mortes de astros por overdose de remédios ou drogas, dentro de quartos de hotel, na ânsia pela solidão e pelas sombras, também são partes relevantes desse processo criativo. O que sei é que alguma coisa aconteceu com aquela moça quando ela saiu daquele elevador… Alguma coisa parece espreitar pelas paredes e frestas do Hotel Cortez… American Horror Story está de volta com seu mundo de perversões e agonia. Eu estou mais que disposto a um bad romance com a quinta temporada. Essa vai ser uma estadia muito divertida pra mim… Boa estadia pra vocês.
Check Out: O que foi aquela primeira cena de crime? CARAMBOLAS. O assassino dos dez mandamentos promete.
Check Out 2: O viciado sendo currado pela criatura sem rosto e seu falo-britadeira me deixaram desconcertado na poltrona.
Check Out 3: Marcy pintou o cabelo, perdeu a cadelinha de Vivian e continua vendendo propriedades malignas para as pessoas.
Check Out 4: O filme que a Condessa e Donovan assistem na cena em que encontram o casal que será vítima dos dois é Nosferatu, um dos maiores clássicos do cinema de horror e pode ser uma pista para o tema da próxima temporada.
Check Out 5: Que trilha sonora maravilhosa dessa premiere, hein?
Check Out 6 (4): Apenas quero terminar comentando duas coisas: primeiro a abertura nova, que é um DESBUNDE e mostra como eles sempre tentam nos desafiar com novos detalhes. E em segundo, quero comentar a minha gratidão com todos que me procuraram no twitter e no facebook para me dizer como estavam ansiosos pelas reviews. Vocês fazem minha vida mais relevante e mais feliz, obrigado.






















