Éramos cinco. Cinco amigos”

A 2ª Guerra Mundial foi um dos conflitos mais sangrentos em toda a história mundial. Milhares foram mortos, perseguidos, torturados… 70 anos se passaram desde o conflito que marcou o mundo e principalmente a Alemanha. Estamos tão acostumados a ver em filmes, séries e muitas outras mídias, os alemães como figuras cruéis, sem um pingo de compaixão, honra ou de humanidade. Mas grande parte da própria população alemã sofreu durante o regime nazista, muitas vezes tendo um destino tão cruel quanto os judeus, ciganos e tantos outros perseguidos pelo regime. E “Unsere Mütter, Unsere Väter” (Os Filhos da Guerra, na Globo) retrata bem essa realidade não muito explorada.

Antes de falar abertamente sobre a trama devemos antes entender como o nazismo chegou ao poder na Alemanha e teve condições de envolver grande parte do planeta num conflito bélico. Logo após o final da 1ª Guerra, o Império Alemão foi dissolvido e pelo Tratado de Versalhes, perdeu seus exércitos e grande parte da população masculina no conflito. Pobreza, vergonha, desemprego, fome… Tudo isso deu terreno para os movimentos nacionalistas florescerem anos mais tarde, dando assim notoriedade e poder a Adolf Hitler, um ilustre desconhecido, se tornar o algoz de milhões. Grande parte da população alemã acreditava no discurso acalorado do “führer” de melhora e progresso (inclusive judeus alemães) e embarcaram de cabeça na Segunda Guerra Mundial. A ideia de um império de prosperidade era tentadora, e após os empregos e estabilidade criados pelo nazismo, como não acreditar nisso?

Assim, imbuídos desse sentimento, cinco amigos terão suas vidas transformadas: Wilhelm e Friedhelm são irmãos e soldados, Charlotte se tornará enfermeira, Greta é uma garçonete com aspirações de artista e Viktor é filho de alfaiate, judeu e namorado de Greta. A série se usa então desses personagens para mostrar as mudanças que ocorreram, bem como os conflitos internos que a população alemã passava.

O núcleo Wilhelm/ Friedhelm/ Charlotte foca mais nas forças armadas. Wilhelm é veterano em combates (pois lutou na 1ª Guerra), mas tem um senso de justiça incomum que o leva a respeitar o inimigo e por vezes o coloca em maus lençóis. Friedhelm por sua vez muda totalmente no decorrer do conflito, saindo do rapaz idealizador para um soldado frio, que se entrega a nulidade de sentido da guerra e a um final triste. Charlotte também tem uma guinada interessante, ao passar tanto tempo em meio ao sofrimento alheio (como enfermeira do front), perdendo a inocência e por ela sendo salva no final das contas.

O núcleo Greta e Viktor foca no na vida civil, e também na questão da separação dos dois, que acontece no momento em que ela tenta ajudar a fuga dele. Greta ao se envolver com um major da Gestapo para conseguir documentos falsos para Viktor finalmente consegue realizar o sonho de ser cantora, porém por pouco tempo. Ao tentar impor a vontade dela sobre o major, acaba tendo um destino que muitos daqueles que eram considerados subversivos ao regime tiveram. Viktor, enganado e mandado para os campos de concentração, consegue fugir e se envolve no conflito ao lado dos “partisans” (a resistência eslava) na Polônia invadida. Livre, mas isso não significa que ele esteja mais seguro. Essas linhas de narrativa se encontram em pontos diversos, montando assim uma colcha de situações que engrandece ainda a mais a experiência de acompanhar a obra.

A construção da atmosfera de guerra é bem realizada, crua até, mostrando o front russo e uma Berlin destruída em ano após ano de conflito. Há crueza também nas situações. Mulheres, crianças, idosos, ninguém é poupado e é recorrente a encruzilhada de situações limites vividas pelos personagens sem o poder para fazer nada para mudar o fato. O visual é grandioso, lembrando grandes produções do cinema e TV (Resgate do Soldado Ryan e Band of Brothers vêm à mente), se utilizando de vários cenários e variando entre planos abertos e closes, criando o envolvimento necessário com o espectador. A reprodução do período é competente e se utiliza também de vídeos de época para contextualizar passagens de tempo pertinentes ao desenvolvimento da narrativa. Narrativa essa que é baseada em fatos reais (segundo o final com as datas de nascimento e morte dos cinco protagonistas).

A obra não tenta redimir a Alemanha das atrocidades que cometeu, na verdade apresenta outra face da história expondo que seu povo também sofreu poucas e boas durante a Guerra. Além disso, mostra também o inicio de outra fase conturbada da história do país, que ficaria dividido entre duas potências (EUA e URSS) e só seria reunido na década de 90. Demonstra também que nem todos os responsáveis foram punidos, muitos até englobados pelo novo governo.

A guerra separou o mundo. Separou um povo. Separou vidas. Na guerra não há vencedores, somente vítimas. E “Unsere Mütter, Unsere Väter” não nos desvia de qualquer momento dessa marca profunda da história da humanidade.

PS 1: Não posso falar do formato episódico realizado para a TV (5 episódios de 50 minutos cada), mas o formato original (3 episódios de 1 hora e meia cada) não é cansativo (os últimos dois principalmente);

PS 2: Alguns atores são muito bons em papeis de vilões. Só isso para explicar esta ser a terceira produção em que vejo Sylvester Groth como vilão (aqui como Himmer, um carrasco da SS; em “Sense8” como um mafioso e em “Deutschland 83” como um alto escalão da Stasi);

PS 3: A série é de 2013 e ganhou vários prêmios pelo mundo entre eles o Emmy Internacional. E está entre as 250 melhores produções para TV listadas pelo site IMDB.

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.