04É da natureza do amor ser refém do destino”
– Lucano
A convivência entre humanos e não humanos é um tema recorrente há muitos anos na literatura mundial e é cada vez mais frequente nas telas do cinema e da televisão. A complexidade de outras formas de amar que não se fundamentam no mito do amor romântico inicial (em metamorfose desde o século XVIII) é um terreno de muitas inquietudes, principalmente quando este espaço é mediado pela solidão que assola o indivíduo moderno. A partir desse eixo, Spike Jonze, diretor de Adaptation (2003), começa a entrar na atmosfera de discussão das relações interpessoais do homem contemporâneo.
Em I’m Here (Eu estou aqui, 2010), acompanhamos a trajetória do bibliotecário robô Sheldon, numa sociedade em que pessoas “comuns” convivem com seres-máquina. Nos primeiros minutos do curta-metragem, vemos os robôs somente exercendo serviços que, para a sua execução, a força física é predominante. Essa rápida passagem aponta, provavelmente, para uma tensão entre robôs e humanos, como se estes últimos praticassem algum tipo de “escravismo” contra uma classe que ainda é minoria. Isso se confirma um pouco mais adiante, quando Sheldon está parado num ponto de ônibus e uma idosa afirma que “robôs não podem dirigir”. É como se os humanos pudessem ditar o que os robôs podem ou não fazer.
Para além dessas questões, a narrativa toca de forma intensa a solidão da personagem protagonista. Na cena em que Sheldon carrega a bateria do seu corpo, a iluminação privilegia mais as sombras do que a sua própria presença, como se ele fosse um ser que vivesse à margem de uma visualidade concreta, atravessado pelo monocromatismo do violento cotidiano urbano. Em seu trabalho na biblioteca, nosso carente robô olha para um avião na fresta da janela com um semblante de esperança e simula com a voz o barulho do vento em movimento que bate nas asas de um avião. Inscreve-se, em seu olhar, uma pergunta: onde estão as minhas asas? Andrew Garfield, por sinal, tem um excelente desempenho vocal, transmitindo as mais variadas sensações de sua personagem através da performance de sua voz.
No marasmo do dia a dia, ocorre algo inesperado: Sheldon conhece um robô feminino, com uma personalidade extrovertida e aventureira, bem diferente dele. Depois desse primeiro encontro, sai a apatia e entra o vigor da alegria do início de uma paixão. Ela o ensina que é possível sonhar, mesmo sendo um robô: basta inventar. Assim, o sonho vem como uma alternativa as paredes invisíveis da solidão, mas não apenas como válvula de escape, e sim como um modo de sobrevida. Entretanto, o jeito despojado dela se transforma em algo negativo, uma vez que, em sucessivos tombos e quedas, a personagem perde, paulatinamente, membros do seu corpo, fato que acaba reconfigurando o relacionamento dos dois. Ao perder a perna, Shleldon diz o seguinte: “no meu sonho, você escolheu a minha perna e me deixou tão feliz”. Ou seja, a felicidade de ver a namorada ter novamente uma perna era maior do que o seu próprio bem-estar, visto que ele abdicou de uma parte de seu corpo por conta disso. Nesse contexto, o mito do amor romântico ganha força, mas como subsídio de humanização do robô.
Nos minutos finais do curta-metragem, vemos o robô feminino partido ao meio em uma mesa de um centro de recuperação. Sheldon, então, chega às últimas consequências da sua forma de amar: doa o seu próprio corpo para ela, exceto a cabeça. Assim, ele anula a sua existência corpórea em função da pessoa amada, sem garantias que o ato será válido, posto que a namorada não demonstra sinais de que sabe cuidar de si. Todavia, a satisfação de ver o outro bem independe desse tipo de certeza, pois o amor é um jogo sem garantias. Nesse caminho, Jonze tece algumas inquietações: será a dor do amor universal? Mais vale adiantar a morte vivendo um amor do que adiar a vida ao lado da solidão? Até que ponto a doação para o outro pode ser um autoaniquilamento? Que tipo de medo ou ameaça o fato de os robôs possuírem sentimentos podem instaurar nos seres humanos? E o que faz de nós humanos: a nossa biologia ou a nossa capacidade de ver e sentir o que se passa ao nosso redor?
A partir do momento que Sheldon decidiu não viver mais sozinho, ele, talvez sem saber, aceitou ser “refém do destino do amor”, refém dos improváveis acontecimentos que atingiriam a sua namorada. Aqui, lembro de uma passagem da letra de uma canção do Daft Punk em parceria com o cantor Julian Casablancas, chamada Instant crush: “and we will never be alone again, ‘cause it doesn’t happen every day”. Em uma possível leitura do final do curta-metragem, podemos dizer que ambas as personagens, desde que se conheceram, numa “paixão de instantes”, não mais ficaram presos na solidão, independente das circunstâncias que fizerem esse amor sobreviver.
É interessante pensar também que o robô representado no curta-metragem, metaforicamente, dirige-se à imagem e ao comportamento do ser humano: cada vez mais automatizados em nossos nichos de trabalhos, embrutecemos o que sentimos, o desejo de se aventurar… Sheldon, especificamente, parece ter mais subsídios para driblar esse bloqueio por conta de seu próprio ofício: ele está entre os livros, os degraus da imaginação. Mas, ainda assim, ele não acreditava na possibilidade de sonhar, até encontrar o robô feminino. E os outros robôs que não estão na atmosfera da leitura? Como eles se situariam nesse contexto? Através dessa observação, vemos o quanto são assepsiados de vida os perfis que se constroem sobre o homem contemporâneo na esteira do olhar de Spike Jonze.
I’m here, aparentemente, é uma espécie de ensaio para Her (2013), filme que consagrou Spike Jonze em premiações de Melhor Roteiro na temporada de lançamentos de 2013. São muitas as semelhanças entre essas duas narrativas: o tom urbano futurista mesclado a um vestuário indie na constituição de um cenário nostálgico; uma trilha sonora que complementa as formas do espectador de se relacionar com as vivências das personagens; a solidão humana como algoz do indivíduo contemporâneo e, por fim, tal qual Andrew Garfield, Scarlett Johansson compôs uma personagem “não humana” através de suas distintas tonalidades de voz.
Take 1: em uma leitura mais ousada, poderíamos pensar que o robô feminino agiu como oportunista e usou Sheldon apenas para obter um novo corpo?
Take 2: há uma subversão na forma como a narrativa é conduzida quando pensamos sob o viés hierarquia presente nas relações amorosas tradicionais: aqui, o ser masculino é aquele que mais se entrega na relação amorosa.
Take 3: A fotografia de tons alaranjados e azulados intensificam o clima de melancolia da narrativa, como se o cenário pertencesse a um estado de limbo que se relaciona com a construção do estado de espírito das personagens.
Take 4: É incrível como Spike Jonze através de um roteiro simples e uma direção de atores cuidadosa consegue, através do aproveitamento de detalhes da linguagem cinematográfica, transmitir as mais variadas interpretações e sensações sobre os modos de sentir e interagir com o outro.
Assista ao curta-metragem na íntegra logo abaixo:












