Vale a pena insistir com The Strain?
The Strain estreou na summer season do ano passado cercada de expectativas. Adaptação dos livros da Trilogia da Escuridão, escritos pelo cineasta Guillermo Del Toro e Chuck Hogan, a série vinha respaldada pelo nome de seu autor original como um dos principais diretores e produtores. Além disso, a série ainda apresentava um cast estelar, liderado por Corey Stoll (House of Cards), passando por Sean Astin (The Lord of the Rings), David Bradley (Game of Thrones), Mia Maestro (Alias), Kevin Durand (Lost), Jonathan Hyde (Titanic, Jumanji) e Richard Sammel (Inglourious Basterds). E a tão aguardada estreia não decepcionou. Cercada por um ar meio Fringe, The Strain apresentou um dos melhores pilotos de 2014. O sucesso foi tão rápido que o canal FX nem esperou a série encerrar seu primeiro ano e acabou renovando-a para uma segunda temporada. Mas ficamos por aí. Após quatro episódios a série desandou. Uma das principais críticas foi a falta de urgência no apocalipse que se anunciava. Vampiros tomavam a cidade e New York continuava lá, como se nada tivesse acontecido. Além disso, os efeitos especiais também deixaram a desejar. O Mestre, o personagem mais aguardado e que tinha tudo para ser o mais assustador, tinha uma aparência digna de filme dos anos 80 que passava na Sessão da Tarde. Muita gente não teve a paciência de seguir até o fim da temporada. E como um dos bravos guerreiros que alcançaram tal façanha, vos digo: não foi fácil. Mas The Strain estava renovada para uma segunda temporada, não? E no melhor estilo me-engana-que-eu-gosto (meio thewalkingdeadiano de ser), resolvi encarar a premiere. De peito aperto, com as esperanças deixadas do lado de fora, como recomendava o inferno de Dante.
Como o grande cliffhanger da temporada passada foi o fato de O Mestre não ter morrido ao ser exposto à luz, começamos esta temporada visitando as origens do personagem. Ou melhor, as origens do corpo do personagem. Sim, pois como um Doctor Who dos inferno, o vampiro também pode mudar de aparência. Descobrimos, também, que ao ser exposto à luz solar, o corpo (recipiente) do Mestre sofreu um grande dano. Ponto pra Setrakian nessa. E aliás, é o velho armênio quem puxa a história do corpo do Mestre, quando aparece em flashback, pedindo a sua avó (que já havia aparecido na temporada anterior, nos flashbacks do Holocausto) que contasse a história de Jusef Sardu, um nobre, de bom coração, que sofria de gigantismo. Sardu, na verdade, é o corpo que o Mestre vem utilizando nos últimos séculos. E a transformação de Sardu em Mestre foi uma das cenas mais escatológicas da série, honrando o espírito gore que foi muito elogiado no início da primeira temporada. Outra origem que ficamos sabendo foi a da bengala que hoje pertence a Setrakian. Porém, como ela foi parar nas mãos do jew, ainda não se sabe.
Falando em Setrakian, o velho não se deu por contente e voltou ao local do “crime”, sozinho, para ver se encontrava o que sobrou do Mestre. No entanto, o que o armênio conseguiu foi se deparar com a equipe da SWAT dos strigoi. E aqui tivemos mais uma revelação: o nome do chefe da SWAT vampira é Vaun. Eu não li os livros, mas muito se especulava a respeito de Quinlan, um personagem fodão que seria antagonista do Mestre. E tudo levava a crer que Vaun era Quinlan. No entanto, ao que tudo indica (inclusive entrevistas dos produtores) ainda veremos Quinlan no futuro. Encaminhado por Vaun e por seu old friend, Gus (este agora um aliado dos strigoi), Abraham vai ao encontro dos Anciões, um grupo de vampiros da mesma linhagem do – e tão antigos quanto o – Mestre. Ao descobrir que o Mestre voltou a ter uma conexão com os Anciões após ter sido ferido pelo sol, Abraham descobre que uma lenda, a de um livro possivelmente divino, o Occido Lumen, é verdadeira. Incrível, menos da metade do episódio e The Strain já havia me fisgado de novo. Impossível não ficar empolgado com a mitologia dos Anciões e do Mestre, além da existência do tal livro. Além disso, quem é Vaun? Veremos Quinlan? E o Anjo de Prata, personagem já anunciado? Esse lado de The Strain nos faz ficar empolgado com o futuro da série.
Mas toda moeda tem dois lados. E lá vamos nós ver a face que tem o Dr. Goodweather, a Dra. Martinez, Dutch e Vasily Fet. Até ele, um personagem querido da primeira temporada, relegado ao mero papel de construtor de grade de proteção anti-vampiro. E temos Zach. Zach, é mesmo você? A troca do ator mirim, além de visualmente desagradável, na minha visão não acrescentou em nada. Trocaram um menino inexpressivo e chato, por um chato e inexpressivo. E mesmo que os produtores tenham dito que a troca se fez necessária pois Zach precisa apresentar uma variedade maior de emoções nessa temporada, não acho que eles fizeram um bom trabalho na substituição. Mas tirando os dramas familiares do Dr. Goodweather, finalmente ele e a Dra. Martinez resolveram se concentrar naquilo que eles sabem fazer: ciência. E como o próprio Del Toro já havia declarado aqui, o aspecto biológico da série vai ter mais atenção este ano. Fico contente, pois não há explicação mais plausível para uma dupla de protagonistas médicos sanitaristas, se não for para tentar combater a infecção pelo viés biológico. E falando em médicos da TV, foi no melhor estilo House que Eph teve a ideia de infectar as vítimas com uma nova infecção. E com o casal de idosos, resgatados ao final do episódio, podemos ter desdobramentos interessantes nesse núcleo.
E também há o núcleo de Eldritch. Agora, com a inserção da personagem Coco Marchand (Lizzie Brochere), que pelo visto veio para substituir o braço direito do milionário, Fitzwilliam, que o abandonou ao final da primeira temporada. Como pudemos perceber, através do prólogo, o Mestre não deu a imortalidade à Eldritch e desconfio que o que o dono da Fundação Stoneheart quer é algo que talvez ele não queira, realmente. Explico, acredito que o único jeito de atingir a imortalidade é caso o Mestre “assuma” seu corpo, algo que claramente o Mestre também não quer. Por enquanto, Eldritch vai comprando propriedades obscuras com interesses escusos (os quais não consegui identificar, confesso) e fazendo aliança com aqueles que são seus inimigos sem eles mesmos saberem. Aliás, o núcleo da Stoneheart é quase uma incógnita para mim. Como Eldritch tem tanto poder sem ao menos ser questionado me parece um furo da série. E junto com o núcleo de Eldritch temos, também, o braço direito do Mestre, Eicchorst. O alemão põe em prática um plano do Mestre, de sequestrar crianças cegas e usá-las como “filhos” de Kelly, a ex-esposa do Dr. Goodwheather. Confesso que não entendo essa fascinação por Eph. Seria mera vingança do Mestre? Eph não parece tão importante assim a ponto de mobilizar quase um exército para atacá-lo. E Kelly foi o meio encontrado, através de sua conexão com Zach, para se chegar até o doutor. Aliás, nem precisava ter devolvido a voz dela, não, tava de boas, vacilou aí Mestre.
Enquanto algumas engrenagens foram colocadas a funcionar gerando expectativa de desenvolvimento, alguns pontos criticados no primeiro ano continuam dando às caras. A mesma New York que parece tomada pelo caos e a qual permite Dutch sair e saquear lojas é também cenário de uma coletiva de imprensa com o prefeito, como se nada estivesse acontecendo. The Strain ainda carece de urgência. A epidemia, a esta altura, já deveria estar em níveis alarmantes, afetando definitivamente a vida social das pessoas. Além disso, me incomodou um pouco, também, o fato de o episódio praticamente todo ter se passado durante o dia. Na única cena em que a escuridão predominou, nos armazéns, tivemos um pouco daquele terror que se espera da série.
Enfim, vale a pena dar uma segunda chance à The Strain? Acredito que depende muito de cada um. Se for para levar a série muito a sério, você pode acabar se decepcionando. Alguns furos de roteiro ainda estão lá, insistindo em permanecer. No entanto, como diversão pura e simples, The Strain funciona. Além disso, há boas perspectivas para o futuro da série, baseado em plots que foram brevemente descortinados nessa premiere e também de acordo com o material original. Portanto, eu ainda vou esperar mais um pouco antes de dar um tiro com bala de prata em The Strain. Afinal, acredito que a série ainda tem potencial. Ou talvez eu seja só masoquista.
Últimas observações
– Diferentemente do resto do episódio, o prólogo foi dirigido pelo próprio Guillermo Del Toro e, sem dúvida, foi uma das melhores partes do episódio.
– Também no prólogo, tivemos a oportunidade de ver Robert Maillet (o ator que faz o Mestre), sem a maquiagem tosca do personagem. Aliás, falando em maquiagem, achei o Mestre deformado muito mais assustador do que antes.
– Parece haver alguma conexão entre deformidades/deficiências e as escolhas do Mestre. Sardu sofria de gigantismo e precisava usar uma bengala. Assim como as crianças da escola, que foram escolhidas justamente por serem cegas.
– O plot do alcoolismo do Dr. Goodweather é tão maçante que me dá vontade até de tomar umas para ver se esqueço.
– E aí, também resolveram dar mais uma chance para The Strain? O que esperam dessa temporada?















