Nasce uma nova Piper.

Foi uma jornada longa (exceto para os binge-watchers de plantão, claro) e, mais importante, belíssima. Trust no bitch (“Não confie em ninguém”) pode ter recebido um título com foco na protagonista, mas foi uma bela representação de como esta temporada foi fragmentada. Entretanto, todas as tramas, cada uma atuando como um pequeno segmento deste terceiro ano, acabaram convergindo para nos entregar uma finalização que revelou-se simplesmente a cena mais bela de toda a série.

Beleza tal que começou – quem diria! – com uma cena pra lá de emocionante de Black Cindy durante sua conversão ao judaísmo. Eu costumo ser o primeiro a fazer críticas à religião e aos males que ela causa, mas momentos como esse, da fé mais pura, mais real, são aqueles que te fazem saber que sim, acreditar em algo vale a pena. Não vale quando estamos falando da fé cega e maldosa das famílias de Cindy ou Watson, mas sim de quando essa fé é impulsionada por um sentimento profundo, honesto e, principalmente, bom. Compreender nossa fé e o que ela representa dentro de nós é o que importa. As coisas mais simples da vida realmente podem nos mudar, e a relação de Cindy com religião foi conduzida magistralmente para chegar aonde chegou. Tudo começou com um prato kosher, mas terminou com uma linda lição de fé que aplaudi de pé.

Quem está do outro lado da moeda é Leanne, que usou sua nova religião como uma maneira de gerar violência e exclusão. O “suicídio” de Soso é uma belíssima metáfora para representar todas aquelas pessoas que são marginalizadas em nome da falsa fé, da fé egoísta, que tem muito mais a ver com sede de poder e de manipulação de massa do que com real crença. Foi lindo ver Poussey mostrando seu poder (“Minha Poussey é o podeeeeeeer!”) e desmascarando aquela palhaçada toda. Toda a crise da personagem era importante para que ela fizesse parte desse culto e, consequentemente, percebesse como ele passou a destoar dos princípios do seu coração puro. Norma, que já estourou sua cota de falsos cultos na vida, depois desse empurrãozão, compreendeu o que era certo e expulsou seu autproclamado braço direito, num repetido gesto com a mão que era muito mais metafórico do que literal. Tudo muito bem concatenado e fechando as questões religiosas de uma maneira muito interessante e respeitosa com a verdadeira fé.

Fé esta que acabou trazendo às vidas de Soso e Poussey algo que todo culto religioso deveria trazer: inclusão e aproximação. É maravilhoso ver esta dupla como a primeira que realmente transgrediu a cultura implícita da prisão, que impõe uma separação de grupos por critério racial. Soso agora é uma japa negra, e nada mais justo e poético do que essa ser a etnia que abraçasse a oriental excluída e marginalizada localmente.

Quem não teve um fechamento tão redondinho foi Pennsatucky, que se mostrou uma excelente atriz ao executar o plano de Big Boo para ser afastada da tarefa de dirigir a van (e ainda conseguiu tirar um pouco de sangue de Donuts no processo, yay!). Eu entendo perfeitamente a posição das duas de não levar o caso à justiça – a série ainda fez questão de ser didática e explicar a diferença entre o caso dela e o de Daya, que gerou um bebê e por isso não podia ficar escondido. O problema do silêncio em casos de estupro (ou de qualquer tipo de abuso) é justamente o que vimos no fim: novas vítimas virão, é apenas uma questão de tempo. Espero que Boo e Pennsy consigam ajudar Maritza de alguma forma.

Como diriam absolutamente todos os autores de novelas da Globo: qual é a graça de um final que não tenha casamento, não é mesmo? Pois OITNB também teve o seu! Inusitadíssimo, o casamento de Morello conseguiu transitar entre o doentio, o fofo, o tocante e o libidinoso com muita naturalidade e diversão. Apesar de ser uma psicopata, Lorna é uma das detentas (se não “a”) com o maior coração do presídio de Litchfield, e a cena do pedido foi de uma doçura sem igual. E não apenas consigo simpatizar com Vince como também vejo nele os traços de psicopatia que o caracterizam como a verdadeira alma gêmea da nossa maluquete! Eu, Red, Healy, os guardas e a capelã maluca que voltou a OITNB depois de passar umas férias em Devious Maids no ano passado aprovamos essa união!

Piper, porém, não pode dizer que teve muita sorte no amor este ano. Mas ela foi a responsável pelo grande momento bad-ass do episódio. Eu, que sempre detestei Stella porque acho muito errado o que ela e Piper fizeram com Alex nesta temporada, passei a odiá-la mortalmente depois de saber que ela nada mais era do que uma aproveitadora. Por isso, vibrei alto quando Piper mostrou que não é uma vadia com a qual se brinca e enxotou Stella para a segurança máxima (#voltaNicky). E tudo com direito à participação especial da <3 chave de fenda <3 de Boo! Mas que vingança deliciosa!

É inacreditável ver como Piper evoluiu da Katy Perry loira patricinha que era para a atual fase. Arrisco dizer, inclusive, que podemos voltar a chamá-la de protagonista depois de tais acontecimentos, pois o que estamos vendo realmente é a história de alguém que passou por uma transformação avassaladora. Esse é o perigo de se colocar alguém inteligente e instruída em um meio tão podre: cedo ou tarde, ela não apenas acabará contaminada como também se tornará uma das pessoas mais perigosas dali. São os inteligentes, letrados e polidos que conseguem gerir esse tipo de negócio ilegal e transformá-lo em algo próspero e duradouro, não os fodidos que caem nessa vida porque não enxergam perspectiva de futuro para si.

Particularmente, amo essa nova Piper! Estava bastante cansado de vê-la apenas como a responsável pelo romantismo na série até essa trama começar a crescer. Amor, loucuras, atração fatal, triângulos… tudo muito CW para o meu gosto. Agora estamos começando a ver uma Piper mais AMC, mais Showtime, e está uma delícia!

Infelizmente, quem não parece ter lugar na vida dessa nova Piper é nossa querida Alex, que nunca teve na série uma função diferente de servir de escada para a loira. Piper sempre teve carisma e brilho próprio, mas nunca havia conseguido ser tão independente da personagem de Laura Prepon como conseguiu agora. Por isso, o cliffhanger em relação à morte de Alex faz muito sentido. Na ficção, é normal alguém se tornar bacana e virtuoso quando está próximo da morte para maximizar o impacto da perda. Meu lado racional acha extremamente plausível que a provável queima de Alex se concretize e acabe impulsionando Piper para outro nível dentro da série, mas meu lado humano não quer que isso aconteça. Gosto de verdade de Alex e da relação tão real, ainda que meio doente, entre as duas, e ficaria #xatiado se isso se perdesse.

Não poderíamos ir para a última cena sem falar também sobre Caputo e sobre como o bigode inadvertidamente levou Danny a surtar e pedir as contas na frente do pai, levando nosso chefe da prisão a um polpudo e irrecusável aumento de salário que o fez cruzar para o outro lado da força, gerando revolta e greve nos antigos subordinados, cuja ausência seria, previsível e conscientemente, sinônimo de caos no presídio. Uma pena, pois Caputo realmente é um cara do bem, mas, como sabemos, passou por coisa demais e acabou se rendendo ao pensamento individualista. Ai de quem tiver a pachorra de julgar!

Tudo isso, e muitas outras coisas que acompanhamos ao longo de toda a temporada, deságua na belíssima última cena, que novamente usa Norma para brincar conosco e lança a pergunta: a fé move montanhas – ou melhor, cercas? Ou foi tudo coincidência do acaso? E não importa qual será a resposta que escolheremos, a beleza e a poesia ímpar desse final continuarão intactas. O emocionantíssimo “batismo” de Black Cindy; a pequena brincadeira de guerrinha entre Leanne, Angie, Pennsy e Boo; o abraço entre Gloria e Flaca; o flerte inocente de Crazy Eyes; a inclusão oficial de Soso no grupo das negras; o momento real de mãe e filha de Daya e Aleida; tudo sendo assistido por uma Red e uma Norma, duas líderes, duas amigas, cada uma em um espectro diferente das crenças e da fé, juntas, restaurando sua relação. E tudo graças à privatização e à decisão de Caputo de se render a ela. Tudo, absolutamente tudo o que vimos compôs essa cena, em uma belíssima celebração de mais um ano encerrado com extrema competência.

A terceira temporada de OITNB pode não ter agradado a alguns, e eu entendo isso. Eu mesmo a coloco em último lugar no meu ranking de temporadas. Mas é inútil negar a evolução da série e do desenvolvimento dessas personagens maravilhosas que a esta altura aprendemos a compreender e a amar. Evolução que gera obras-primas como Finger In The Dyke e A Titin’ And A Hairin’, que estão entre os melhores episódios de séries que já vi na vida.

Portanto, ainda que, como um todo, a terceira temporada tenha parecido fragmentada e sem uma espinha dorsal que facilitasse o binge-watching, isoladamente foi ela que nos entregou os trabalhos de maior qualidade da história da série. Não há dúvida em relação a isso, como também não há dúvida de que, se Taryn Manning não receber uma indicação ao Emmy de Melhor Atriz Coadjuvante em Drama por seu trabalho incrível no episódio que lhe coube (e eu prevejo essa injustiça acontecendo facilmente), saberemos que o intuito da premiação é mesmo sabotar a Netflix em nome do conservadorismo dos meios tradicionais de produção de teledramaturgia. Uma pena, porque, com ou sem streaming, o fato é que pelo terceiro ano seguido estivemos diante de um dos mais admiráveis trabalhos da TV americana. E tenho dito!

Observações:

RuPaul, Breaking Bad, Fievel e A Hora do Pesadelo: se tem uma coisa que Orange Is The New Black esbanja é bom gosto para escolher referências.

– Evitei ao máximo pensar nisso para tentar curtir o momento, mas não consegui não passar boa parte da cena final muito triste por Sophia e lamentando a ausência quase cruel de Laverne Cox ali.

– Uma temporada inteira e eu não consigo sentir nada além de desgosto em cada cena e em cada diálogo entre Red e Healy, e não há esforços de última hora para humanizá-lo que mudem isso. Roteiristas, vocês já têm algo pra jogar fora durante a primeira reunião da quarta temporada, por favor!

– Muito obrigado a todos por acompanharem pacientemente o meu trabalho, especialmente nestes três últimos episódios, em que eu tive que pegar no tranco para as reviews saírem porque estava abarrotado de tarefas “da vida”. Entendo que o meu ritmo acabou sendo decepcionante neste final de cobertura, e lamento muito por isso. Portanto, valorizo ainda mais a atenção e consideração de vocês com o meu trabalho! Amo demais essas meninas, e, mais do que isso, foi um prazer enorme estar com vocês ao longo de uma temporada que tratou de temas tão mais sérios e mais transponíveis para o nosso mundo do que as duas anteriores. Se tem algo em que a terceira temporada deu um banho nas outras foi na escolha desses temas. Foi uma realização pessoal poder usar este espaço para tratar deles, conversar e ouvir vocês a respeito. Sou muito grato a todos por tudo isso! Um abraço, e que todos ainda tenhamos unhas até a estreia da quarta temporada. Este resto de ano vai ser longo….

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.