O novo livro de Douglas Adams demonstra o mesmo senso de humor absurdo que o deixou famoso em sua obra mais conhecida.
Foi lançado há poucos meses pela Editora Arqueiro, o livro Agência de Investigações Holísticas Dirk Gently, não exatamente um livro novo, porém ainda inédito aqui no Brasil. Ao falarmos em Douglas Adams, é possível que para muitos a primeira coisa que venha à cabeça seja sua obra mais famosa mundialmente: o genial, O Guia do Mochileiro das Galáxias. E apesar de esta review se dedicar à análise do novo livro do autor aqui nas terras tupiniquins, não estranhe, caro leitor, se você ver mais de uma referência ao Guia, pois em muito essas obras se conversam.
Não que elas estejam interligadas de forma direta, mas é possível observarmos alguns assuntos recorrentes nas duas obras, ainda que não sejam abordadas, necessariamente, da mesma forma. Confuso? Talvez. Mas espero conseguir deixar as coisas mais claras no decorrer do texto. Porém, antes de analisarmos a obra propriamente dita, me vejo obrigado a falar um pouco sobre o autor. Não que eu seja um especialista em Douglas Adams, longe disso, mas acho importante levantar alguns tópicos sobre ele para que alguns dos argumentos façam sentido.
Apesar de esta review estar na coluna “off-topic”, ela não é tão off assim, afinal, este ainda é um site que discute, sumariamente, séries, e Adams está mais do que inserido neste meio. Para quem não sabe, o autor já escreveu diversas esquetes para o Monty Python, mas ele é mais conhecido, sobretudo, por ter sido roteirista de Doctor Who durante a década de oitenta. Também se torna impossível falar sobre Adams sem mencionar sua paixão por tecnologia e seu ateísmo crônico. Todas essas informações se fazem necessárias pois elas estão presentes de forma muito incisiva em suas obras, e não é diferente em AdIHDG.
Ao ler o livro, é inevitável o leitor se sentir dentro de algum episódio despirocado do nosso Doutor favorito. Além do irresistível humor britânico presente na estilística do autor, o absurdo e o nonsense também se faz presente, usando de exageros e situações estapafúrdias como forma de satirizar a realidade. Outro ponto forte de Adams é sua capacidade de criar personagens excêntricos e inusitados, além de uma vasta gama de seres alienígenas esquisitos para fã de ficção científica nenhum botar defeito.
Apesar do ser humano ainda ser o foco principal em suas obras, esses seres de outros planetas criados pelo autor não deixam de ter sua importância e, principalmente, momento de brilhar. Em Agência de Investigações Holísticas um dos personagens que mais se destaca é o Monge Eletrônico, ser de outra dimensão, com feições humanoides, criado para crer por nós “em todas as coisas em que o mundo espera que você acredite”. A forma como este Monge Eletrônico em particular dá defeito também é sensacional, mostrando uma crítica mordaz tanto a mídia quanto as incongruências cotidianas.
A trama em si é muito confusa e embolada, e em determinado momento a impressão que temos é que estamos diante de vários retalhos de histórias, e a maior curiosidade do leitor é tentar determinar de que forma todos esses elementos irão se conectar no final do livro. Para vocês terem uma ideia, temos um Monge Eletrônico, um Cronologista com um segredo, um engenheiro que deixa uma mensagem equivocada para sua namorada e o assassinato de Gordon Way, chefe e cunhado desse tal engenheiro. Para muitos leitores (e provavelmente autores também) o ponto que deveria ser mais explorado e repercutido seria a trama do assassinato, que normalmente é o mistério que mais move um livro. Entretanto não é o que vemos aqui. Tudo é tão desconexo e bizarro que o assassinato é a menor das preocupações, tanto para os personagens quanto pra nós.
Outro ponto que se destaca em AdIHDG é justamente seu protagonista citado no título. O mais curioso é que sua entrada demora para acontecer (uma vez que a história se desenvolve do ponto de vista de Richard MacDuff, o tal engenheiro citado mais acima), mas não sem antes ter uma devida (e irônica) apresentação. Dirk Gently tem todos os aspectos de um personagem cativante: trambiqueiro, mas genial, ácido, porém sagaz. De fato, ele bem poderia ser alguma encarnação de um certo habitante de Gallifrey. Antecipando boa parte dos acontecimentos e devidamente provando suas teorias mais estapafúrdias, não demora nada para o leitor simpatizar com o comilão de pizzas.
A forma como o autor conduz a narrativa prende o leitor do começo ao fim. Se por um lado ela é bastante entrecortada (por ter várias tramas se desenrolando ao mesmo tempo), por outro esse recurso mantém o leitor curioso para saber o que acontecerá em seguida. Eu particularmente ficava muito instigado em saber o que aconteceria com Gordon e não via a hora de chegar a um capítulo que voltasse a falar dele. A trama do Monge Eletrônico por vezes quebrava um pouco o ritmo, além de ter um desfecho previsível, mas mesmo assim ele, e, principalmente, sua égua, apresentavam ótimos momentos de humor, pena que não acrescentou nada de novo para a narrativa como um todo. Além dos personagens, a própria forma como Adams escreveu seu livro aproxima o leitor, fazendo com que em determinados momentos ele se sinta dentro da história, como se a coisa toda estivesse sendo contada para ele. Poucos são os autores que conseguem deixar a impessoalidade de lado, e Adams trabalha com esse recurso muito bem.
Mas nem tudo é perfeito no livro. O desfecho final, por exemplo, soa extremamente apressado, como se o autor tivesse enrolado tanto no “miolo” da história que precisou acelerar os acontecimentos finais. Por mais que isso alterasse a dinâmica detalhada que vinha sendo apresentada até então, para os mais desatentos, é possível que tenha que retornar o penúltimo capítulo e lê-lo novamente, para entender o que realmente aconteceu. Além disso, se você quiser ter um entendimento mais “holístico” do final, com o perdão do trocadilho, é necessário que você tenha que ter um conhecimento ainda que superficial da literatura inglesa, em especial do poeta Samuel Taylor Coleridge e seu albatroz de A Balada do Velho Marinheiro, que apesar de ser apenas citado, não deixa de ser uma peça fundamental na resolução da trama principal.
Independente desta consideração final, Agência de Investigações Holísticas Dirk Gently merece ser lembrado como mais uma grande obra de Douglas Adams. Ainda que não supere o genial Guia do Mochileiro, demonstra a mesma maturidade, cheio de elementos que compõe uma ótima história, como romance, humor, aventura, sarcasmo, assassinato e fantasmas! Para quem é fã do autor, a leitura é não somente recomendada, como obrigatória. Vale muito a pena.
Em tempo 1: Quando Adams faleceu, em 2001, tinha escrito dois volumes de Agência de Investigações. Espero muito que a Arqueiro traga, e logo, o segundo volume.
Eis alguns quotes que eu achei simplesmente genial (podem conter SPOILERS):
“Depois de uma semana caótica acreditando que guerra era paz, que o bem era o mal, que a lua era feita de gorgonzola e que Deus precisava que um monte de dinheiro fosse depositado em uma determinada conta, o Monge começou a acreditar que 35 por cento de todas as mesas eram hermafroditas, e, então, pifou.”
”O espanto de Gordon ao ser repentinamente morto a tiros não foi nada se comparado ao espanto que ele sentiu diante do que aconteceu em seguida.”
“Bem, a grande sacada de Gordon foi desenvolver um programa que lhe permitisse especificar com antecedência a decisão à qual pretendia chegar, e só então, fornecer-lhe todos os fatos. A tarefa do programa, que ele conseguia realizar com grande facilidade, era formular uma série plausível de passos que soassem lógicos para conectar as premissas à conclusão. E devo dizer que funcionava que era uma beleza. Gordon conseguiu comprar um Porsche quase de imediato, apesar de estar completamente falido e ser um péssimo motorista. Nem mesmo seu gerente bancário foi capaz de encontrar falhas em sua argumentação.”
“O termo ‘holístico’ se refere à minha convicção de que devemos nos concentrar na interconexão fundamental de todas as coisas. Não estou interessado em trivialidades, como impressões digitais, fiapos de tecido reveladores ou pegadas inúteis, e sim, no fato de que a solução para qualquer problema pode ser encontrada na maneira como se configura e se entrelaça o todo. As conexões entre causa e efeito são geralmente mais sutis e complexas do que poderíamos supor com nossa compreensão rudimentar do mundo físico, Sra. Rawlinson. Permita-me lhe dar um exemplo. Suponhamos que a senhora vá a um acupunturista com uma dor de dente e, em vez de tratar sua boca, ele enfie uma agulha na sua coxa. A senhora sabe porque ele faz isso, Sra. Rawlinson? Nem eu, Sra. Rawlinson, mas é o que pretendemos descobrir.”






















