Velhas e novas profecias.

Convergência. Essa finale de Jonathan Strange & Mr. Norrell foi exatamente isso. Todos os núcleos que ante então separados convergiram e uma trama única que de forma coesa fecha todas as portas deixadas em aberto até aqui e abre outras para futuros planos.

Quem diria que Lascelles e Drawlight teriam um final tão surpreendente como o de ambos? Eu nunca imaginaria que os possíveis alívios cômicos da série ganhariam contornos tão sombrios com um final tão chocante como aquele. A separação dos dois já denotava o rumo que seria tomado, mas nunca imaginaria Lascelles dando um tiro na cabeça de Drawlight de maneira tão fria como aquela. Foi um dos momentos marcantes do episódio (que foi recheado deles!). Tudo para manter o “poder” assim conquistado com a ascensão de Norrell, mal sabia ele do que viria a seguir e o “telhado de vidro” dele (ou seria melhor dizer porcelana!) estava prestes a ser quebrado. Childermass e seu tarô conseguiram perfurar as camadas de mentiras expelidas por Lascelles e consegue recuperar o “dedo” de Lady Pole, porém sem as instruções necessárias para tal recolocação.

Sir Pole, arrependido por de certo modo ser o causador do retorno da mágica e da confusão reinante, decide por abandonar o posto de ministro e se dedicar para sua mulher, Lady Pole. Ao chegar ao estabelecimento comandado por Segundus e Honeyfoot, ele encontra a mulher numa espécie de coma, sem saber que tudo era uma das instruções de Strange para resgatar Arabella das garras do “Cavalheiro”. Ela serviria como uma espécie de guia para fora de Lost Hope, porém ao recolocarem o dedo com a ajuda de Segundus (que finalmente faz o feitiço de ligação funcionar!) uma das partes do plano de Strange é frustrada. E ao acordar, Lady Pole expõe a ajuda de Stephen para com o ser mágico, levantando a fúria de todos e levando Childermass a ir de encontro com Vinculus de modo a ajudar os dois “amigos” da magia inglesa.

E a profecia? Realmente tudo aquilo previsto aconteceu, mas não do modo em que pensávamos que iria acontecer. Strange e Norrell finalmente se encontram cara a cara depois de árdua batalha em outros campos. E finalmente dizer que Norrell é um covarde! Tudo aquilo que ele fez até aqui, tolher a capacidade de Strange, as regras, artimanhas, era por medo daquilo que poderia acontecer. Ele preferia se manter numa posição confortável sem correr nenhum risco do que “meter a cara” como Strange fez. Porém com a chegada da “Torre Negra” e de seu desesperado morador ele teve de enfrentar esses medos e encontrar a coragem necessária de ajudar o amigo. Afinal de contas eles são amigos e mesmo depois de camadas e camadas de conflitos, ambos precisam um do outro para serem melhores mágicos: Norrell, como a erudição, o comenhecimento e Strange, como a capacidade natural, o talento inato.

A única maneira de salvar Arabella e acabar com o feitiço do “Cavalheiro” é matá-lo. Porém somente uma pessoa conseguiu matar uma fada: o Raven King, ou melhor, John Uskglass. E assim a dupla parte para os encantos necessários para trazer o rei da magia por direito na esperança que ele ajude a ambos conseguirem os meios necessários de exterminar o ludibriador de cabelos prateados, ao mesmo tempo em que correm contra o tempo, já que cada minuto passado na “Torre Negra” a vida vai sendo consumida. Mas como chamar alguém que ninguém sabe o verdadeiro nome? John Uskglass foi o nome que ele adotou, porém também era conhecido como o “Escravo sem nome” já que foi raptado pelas fadas quando criança e ficou assim preso a esse mundo desde cedo. Mas eles tinham consciência de que muitos objetos (naturais ou não) existentes na região são da época do rei mágico e assim resolvem contatá-lo.

E finalmente meus caros amigos, o Raven King apareceu! Foi rápido? Foi sim, mas fez muita coisa em pouco tempo de cena como explicarei melhor no decorrer do texto. A primeira delas foi ressuscitar Vinculus numa cena que mistura comédia com um tom soturno, que só essa série consegue proporcionar. E no processo mudando o livro escrito no corpo do personagem. E ao despertarem Lady Pole, o “Cavalheiro” tomou noção da capacidade “dos meros mortais” e parte com tudo para ter sua vingança. Sabe aqueles três macaquinhos que representa o “não vi, não escutei, não falei”? Aqui rolou uma versão totalmente mais estranha e irreal e totalmente aflitiva proporcionada pelo ser mágico.

Mas ele não contava com Strange e Norrell que canalizaram toda a mágica para derrotar o “Cavalheiro”. Mas ai teve a primeira pegadinha da profecia. Stephen seria rei. E ele acabou sendo, mas não da Inglaterra como pensávamos e sim do reino mágico! E na confusão da briga entre ele e o “Cavalheiro”, Strange finalmente pode quebrar o feitiço sobre Arabella e salvá-la com a ajuda dos Greysteel (e sim o presente que ele deixou pra Flora foi um espelho mesmo, o único não quebrado). No final das contas o pupilo do “Cavalheiro” foi o responsável por sua destruição. Vale ressaltar também a alegria infantil de Norrell ao finalmente visitar o mundo das fadas, foi hilário.

Final feliz em vista? Em parte. Arabella foi libertada e a mágica voltou a fluir de maneira solene na Inglaterra, porém os responsáveis por ela não conseguiram se salvar. A pegadinha mais cruel da profecia era que Strange e Norrel não eram somente mágicos, eram o próprio feitiço! E uma vez cumprida sua utilidade, retornam para o lugar que lhe é destinado. A despedida de Arabella foi tocante e deixou um clima agridoce.Porém nem tudo está perdido. A mágica, como disse Childermass, agora é de direito de cada um de quem quiser utilizá-la. E com um novo livro (e talvez uma nova profecia) do Raven King a disposição, os esforços não serão medidos para a descoberta do que as linhas misteriosas revelam. E com um final que poderíamos chamar de cíclico a série se encerra.

Um segundo livro da história de Susanna Clarke está nos planos, porém não há uma previsão de quando irá sair (e se irá sair). Muita coisa ficou em suspenso e só com a chegada deste novo volume ficaremos sabendo das respostas. Porém a jornada até aqui foi de uma grandiosidade imensa. Algo que começou de mansinho e ganhou contornos tão vastos e interessantes. Jonathan Strange & Mr. Norrell é uma experiência única. Valeu a pena acompanhar até aqui essa trama de época cheia de magia e produzir as reviews e incitar a discussão sobre os rumos que a trama iria tomar. Agora é ler o livro para matar a saudade de algo que mal terminou e já deixou marcas intensas na memória.  Muito obrigado por acompanhar até aqui e caso saia a segunda minissérie, espero estar aqui para acompanhar e comentar com vocês!

Pena de Corvo 1: Você que leu essa review e ainda não viu a série, dê uma chance! Principalmente agora na summer season, aproveite para acompanhar algo de qualidade e de roteiro muito bem amarrado e escrito;

Pena de Corvo 2: A dupla Peter Harness e Toby Haynes, responsáveis por Doctor Who, acertaram em cheio na escolha dessa série;

Pena de Corvo 3: Até com o futuro em jogo Norrell se preocupa com os livros! Haha;

Pena de Corvo 4: E é possível fazer uma série de qualidade imensa com um orçamento modesto (OUAT estou falando de você…kkk)

Artigo anteriorBallers 1×02: Raise Up
Próximo artigoBabilônia: A agonia de um horário ignóbil
Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.