Uma cidade movida a estatísticas.
Logo no início de Corner Boys Prez introduz seus alunos a um novo enigma matemático. Obviamente, eles estão ocupados com outras atividades e o professor usa a clássica tática de perguntar à vítima tagarela se ela já terminou a lição. A resposta é surpreendente: a vítima responde o enigma sem usar matemática, mas por meio de simples psicologia ao perceber que Prez inconscientemente marca a resposta correta durante a explicação do exercício.
Esse é um pequeno lembrete de Simon para que, após tudo o que já nos foi mostrado sobre esses “corner boys”, não os subestimemos. Diferentes tipos de conhecimento podem ser alimentados em diferentes ambientes, e os garotos de West Baltimore são como qualquer outra criança desse planeta. O que lhes falta é uma educação de qualidade que direcione suas mentes para fins aproveitáveis e legais (no sentido jurídico mesmo), mas isso não impede que outras qualidades surjam. O próprio Randy organizou um pequeno negócio de venda de produtos alimentícios dentro do colégio sem qualquer ajuda, usando táticas inteligentes para despistar professores e monitores.
Uma pena que a escola não aproveite essas qualidades de nenhuma forma. Corner Boys traça paralelos cruéis entre dois dos universos principais dessa quarta temporada de The Wire. Tanto na esfera educacional quanto na policial, as estatísticas comandam tudo. Em teoria essa é uma estratégia brilhante. Números não possuem opiniões, partidos políticos, preconceitos ou uma fraqueza pelo suborno. Eles reportam situações de forma neutra e justa, sem floreios ou erros.
O problema que The Wire nos apresenta, entretanto, não é esse, e sim a utilização das estatísticas como a única e principal forma de avaliação da qualidade de um serviço. De úteis ferramentas elas se tornam um monstro assustador com poder divino, e sua extrema importância acaba motivando todos a encontrarem meios “alternativos” de alcançar suas demandas quando as principais estratégias não funcionam. Uma perigosa dicotomia é estabelecida: o sucesso ou insucesso de qualquer ação ou tática é determinado pelo impacto desta nas estatísticas. É nesse ponto que a maior vantagem do método acaba se tornando sua maior falha. Números não possuem nuances, asteriscos, explicações aprofundadas ou capacidade de explicar assuntos complexos, e não há nada mais complexo do que a cidade de Baltimore que The Wire nos apresenta. Isso nem é o pior: números também não são capazes de detectar se eles mesmos são falsos.
Na temporada passada vimos vários majores lutando para melhorar suas estatísticas em virtude da exigência do prefeito que, às vésperas das eleições, queria mostrar serviço no combate à violência. Há melhor ferramenta para o embate político que a estatística? Ela não dá espaço para a discussão. Como questioná-la? Esse pedido levou efetivamente à melhoria das estatísticas, mas a esse ponto Baltimore está tão sintonizada com o uso delas que o objetivo das ações de qualquer policial na cidade não é mais norteada pelo esforço de diminuir o crime, mas sim de melhorar os números. Estes são manipulados, e ninguém os questiona. Boas estatísticas são o objetivo final, não um meio para se atingir a meta maior de promover a segurança na cidade.
É essa filosofia que Carcetti vislumbra ao visitar os policiais de East Side em seus patéticos esforços de combater o crime por meio de abordagens na rua. Irônico é entender que essa política na verdade faz sentido considerando a fórmula de sucesso estabelecida pelo Departamento de Polícia de Baltimore, e Rawls explica muito bem isso. Cabe ao novo prefeito estabelecer novas diretrizes, mas logo após sua explicativa conversa ele é visitado pelos parceiros democratas que já arquitetam sua candidatura ao governo do estado. Um dos requisitos? Diminuir o crime em 10%. O que afinal significa isso?
Embora seja um assunto pertinente, essa corrida pelos melhores números já foi explorada na terceira temporada. The Wire sabe disso e oferece uma perspectiva diferente, dessa vez calcada na política envolvida dentro das escolas, e não é que tudo funciona do mesmo jeito? As estatísticas são substituídas pela nota das provas, e logo todos os professores estão ensinando seus pupilos não a entender a matéria, mas sim a passar nos exames. Eles podem estar inseridos em classes que não condizem com seu desempenho acadêmico, como a série já mostrou em episódios anteriores, mas as regras do sistema não permitem nenhum tipo de flexibilidade. Os alunos são promovidos automaticamente (como ocorreu com Sherrod, o pupilo de Bubbles) e devem ter sucesso nos testes não para si mesmos, mas para que a escola mostre que fez seu trabalho direito ao educá-los.
Assim Prez terá que treiná-los a responder a uma prova, o que não significa que entenderão a matéria com isso. Tive um professor que me contou outro exemplo significativo dessa mesma lógica usando o xadrez. Aprender a jogá-lo de forma eficaz não irá treinar sua inteligência, apenas sua habilidade de jogar xadrez.






















