Um episódio que mostra que das pequenas personagens podem surgir as melhores surpresas.

Nem em um milhão de anos eu apostaria em um episódio centrado e Leanne, e nem em um milhão de anos eu ficaria feliz com essa notícia se a tivesse visto previamente. A personagem surgiu basicamente com o intuito de ser a BFF de Penssy, lá na primeira temporada, e nunca ganhou um mínimo de desenvolvimento.

Até agora. Where My Dreidel At (“Onde foi parar o meu dreidel”) consolidou a discussão sobre um tema que vem pairando sobre a terceira temporada da série desde a premiere: a religião. Para isso, usou o surpreendente passado de Leanne, que, chocantemente, pertencia a uma tradicionalíssima comunidade amish antes de ir parar no mundo do crime.

Os flashbacks foram tão interessantes que acabei concluindo que seu desenvolvimento deixou a desejar. Não ficou muito claro por quê Leanne abandonou a mochila no milharal e retornou à comunidade para ser batizada. Ela já chegou de volta em casa mal intencionada e pretendia voltar às drogas? Se sim, por que todo o teatro do batismo? Claramente, era desnecessário fazer isso, já que ela encontrava pertencimento no grupo de filhos de amish que se rebelaram e caíram na vida libertina. E, se estava sendo sincera em seu discurso à família, por que deixar a mochila com seus documentos e drogas em um lugar tão facilmente localizável? Ao meu ver, há mais complexidade na história de Leanne do que nos foi mostrado, e a parte oculta fez falta.

Assim como fez falta a compreensão de como ela acabou indo parar de volta à prisão. Seus amigos estavam na cadeia, então para onde ela foi? De qualquer forma, o motivo por que ela acabou caindo no mundo do crime foi inesperado e muito comovente. Por mais incrível que possa parecer, no fundo Leanne cometeu um ato de altruísmo ao abandonar pela segunda vez sua comunidade. A vida e a prosperidade econômica de seus pais havia se tornado um inferno depois de ter sido sabotada em todos os aspectos pelos “amigos” religiosos após seus filhos serem presos graças ao acordo de Leanne com a polícia. Ela sabia que não pertencia mais àquele lugar, que era um fardo pra eles e, para livrá-los desse sofrimento, decidiu cair no mundo novamente.

Assim como no passado, Leanne mostra que tem, sim, uma pontinha de bondade em seu coração quando tenta se desculpar com Soso e acaba desabafando sobre o seu passado. O problema é que a chinesa (fake, mas chinesa) não tem sensibilidade suficiente quando o assunto é religião, e, somando isso à mágoa que ela tinha total direito de ter depois de ser humilhada e destratada por Leanne na reunião dos normangélicos, acabou dando uma bola fora que emputeceu completamente a coleguinha. Adoro, aliás, que Chang não fala absolutamente nada, e quando resolve falar é pra perturbar a vida dos outros.

O resultado disso é vermos emergir a Leanne egoísta, maldosa e preconceituosa com a qual já estávamos acostumados, ao ponto de ela mentir descaradamente a Norma para excluir Soso do grupo. Assim como aconteceu com as famílias amish que retaliaram seus pais, as atitudes de Leanne no presente são, no fundo, uma fortíssima crítica do episódio às comunidades religiosas, que tendem muito a ser como a detenta e excluir e marginalizar aqueles que pensam diferente. Claro, em toda religião também temos Pousseys lindas e fofas que acreditam no que é certo acima de tudo, mas infelizmente o pensamento excludente e preconceituoso é o que costuma ser disseminado com mais facilidade e acaba dominando.

Ainda assim, a história de Leanne não só nos ajudou a compreender sua aproximação inicial com Pennsy (e até o motivo da separação, visto que esta última começou a divergir do fanatismo religioso que a outra tanto valoriza) como também deu à personagem uma riquíssima tridimensionalidade. Ok, ela é preconceituosa e intolerante, mas ela também luta por aquilo que acredita, e ela tem, sim, uma fé legítima, ainda que acabe se perdendo ela no fim das contas. Foi bonito de se ver e um episódio perfeito para sérias reflexões.

Quem deu o título do episódio (mantendo, ainda, o tema religioso) foi o rabino que visitou a prisão para avaliar o judaísmo das detentas. Esse pequeno arco nos deu algo que Orange Is The New Black sabe fazer maravilhosamente bem, e que costumamos ver pelo menos uma vez em toda temporada: a sequência de depoimentos e entrevistas hilárias com várias detentas. Foi tudo divertidíssimo, e é claro que Black Cindy roubou a cena com suas histórias chupinhadas de obras da cultura pop. No fim, até o resultado foi divertido, com a irmã Ingalls, católica fervorosa, sendo a única a passar na avaliação. É um resultado extremamente realista, na verdade, visto que alguém com uma ampla formação em teologia pode mesmo ter conhecimento suficiente para passar nesse tipo de teste.

Outros dois pequenos arcos despertaram sentimentos opostos enquanto eu assistia. Primeiro, muito amor (dramaturgicamente falando) por Aleida incitanto o ódio de Gloria contra Sophia e baseando-se em seu preconceito contra transexuais para determinar o caráter da cabeleireira. A série precisa mesmo que odiemos a mãe de Daya, e, pelo menos no meu caso, está conseguindo. Mas tanto Gloria como Sophia só ganham mais e mais amor da minha parte com o tempo, e chega a me entristecer um pouco vê-las brigando e sendo orgulhosas dessa maneira.

Depois, muito nojinho de Penssy e Donuts e muito ódio por este último. Como que o cara beija uma mulher toda suja de terra daquele jeito? Aliás, como o cara pode ser babaca e imbecil suficiente pra obrigá-la a fazer uma coisa daquelas? O fetiche dele era facilmente detectável, mas fiquei com muita raiva por vê-lo humilhando-a daquela forma. Ela é insuportável sim, mas é NOSSA caipira insuportável, e ninguém pode fazer isso com ela!

O negócio de Piper, enquanto isso, segue prosperando. E, com ele, uma nova relação com Stella se desenvolve e culmina em um beijo. Stella é linda e sexy até o último fio de cabelo, mas não estou nada feliz com essa história toda, muito pelo contrário. É horrível ver nossa protagonista, que, ao contrário de muita gente, eu sempre admirei e adorei acompanhar, enfiando a língua nos outros e negligenciando a namorada enquanto esta corre um perigo real e muito sério. Se algo acontecer com Alex, vou ficar com muito ódio de Piper!

Estou MUITO tenso por Alex, mas fico feliz por vê-la lutando bravamente pela própria vida e tentando se proteger. Espero que ela vença e que essa Lolly maldita vá para o inferno. Isso, principalmente, é o que mais está atiçando minha curiosidade e gerando em mim a vontade de dar play no próximo episódio o mais rápido possível (eu me contenho e venho escrever pra vocês, olha como cês tão valorizados!). Mas, depois de um excelente episódio como Where My Dreidel At, ninguém poderia me culpar se eu não resistisse e me entregasse de vez ao binge-watching, não é mesmo?

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.