A tênue linha entre a segurança e a ilusão.

Em tempos em que a privacidade é quase inexistente em razão da alta tecnologia da qual somos dependentes, muitas empresas pregam a segurança como um dos pilares de seus produtos, como um de seus principais valores. E muita gente compra a ideia, acreditando que a segurança absoluta pode ser adquirida de maneira tão simples, e ignorando o fato de que, hoje em dia, a segurança só existe enquanto ninguém decide acabar com ela.

Mas, afinal, o que isso tem a ver com Orange Is The New Black e com Fear, and Other Smells (“O medo e outros cheiros”)? Nada, na verdade. Foi só uma breve filosofia para ilustrar o seguinte ponto: nesta vida, só estamos seguros enquanto não baixamos nossa guarda. Piper acredita piamente que, por estar numa prisão, cercada de guardas, Alex é inatingível. E o fato de a principal suspeita de Alex ser Lolly, sua ex-BFF em Chicago, torna a situação toda ainda mais inacreditável para a protagonista.

Acontece que Piper não tem a experiência de vida de Alex com o crime organizado. Tudo bem que os flashbacks foram meio blá, mas é bom ver um episódio centrado em Alex focando um período completamente Piper-free. Essa fase específica do passado da personagem mostra que sua paranoia é 100% justificável. Com Kubra, é só relaxar, e você morre.

Mas Piper estava distraída demais tentando produzir calcinhas sabor xereca de prisão para dar importância às preocupações da namorada. Eu até estou me divertindo com esse arco e gostando dessa faceta de Piper (a ideia dos temperos de miojo foi maravilhosa!), mas confesso que toda a sequência do discurso dela em cima da mesa não me desceu. Pareceu um esforço exagerado para arrancar risos, e acabou ficando uma cena extremamente artificial, e nem um pouco a cara da Orange Is The New Black que a gente ama e admira.

E o empreendimento de Piper jamais teria sido possível sem a privatização da cadeia, não apenas pelo trabalho com as calcinhas em si, mas também porque agora temos metade da equipe de carcereiros completamente despreparada, ingênua e bem burrinha, prontinha para ser explorada.

Particularmente, a trama da privatização se tornou um pouco mais sólida e vendável nesse episódio porque saímos da superficialidade da ideia “empresas privadas não são competentes” e mergulhamos mais fundo na direção do conceito “empresas privadas não se importam suficiente para administrar uma prisão”. E é basicamente isso: só há interesse em lucro, e qualquer medida que facilite a vida das detentas ou as recupere até o fim de sua pena são apenas obstáculos à rentabilidade da organização.

Tudo bem, caímos agora no clichê “executivos são malvados, sem coração e não se importam com pessoas”, o que é péssimo para uma série que, ainda que se apoie no humor, se esforça para ser levada a sério – e vem sendo muito bem sucedida até agora. Mas esse ao menos é um conceito um pouco menos surreal do que retratar o mundo corporativo como um bando de moloides. Tivemos inclusive recentemente no Brasil a mesmíssima discussão em torno de como os recursos hídricos paulistas foram tratados a partir do momento em que foram privatizados e supostamente negligenciados para agradar acionistas. A arte imita mais a vida do que a gente pensa.

Nessa história toda, está impossível não gostar cada vez mais de Caputo. Eu sempre fui com a cara dele, e só me irritei com o cara quando ele ficou de TPM e demitiu Fischer aleatoriamente. Até Danny, que era meio bobalhão até agora, foi um pouco humanizado na cena em que o vemos tentando fazer o que é certo e seguir as recomendações de Caputo. Mas acabou sendo pego pelo “vírus corporativo”, que o transformou em mais um chefe babaca e odiado.

Fear, and Other Smells passa longe de qualquer lista de grandes episódios de OITNB, mas funciona principalmente por abusar da tensão em torno de Alex e Lolly. E a revelação final (eu, que estou acostumado com as piruetadas de Revenge, acabei não aceitando a máxima “Em OITNB, tudo o que parece é!” e só acreditei vendo) deixa um baita gosto de “OMG preciso continuar vendo!”, que, confesso, tem estado um pouco em falta nesta temporada. Que ele não saia mais da boca a partir de agora!

Observações:

– Dayanara tomou vergonha na cara, percebeu o plano da mãe e contou toda a verdade a Motherstache. Esses momentos de pureza e de fazer o que é certo são o que sempre funcionou para ela e Bennett e o motivo por que, ainda que torçamos o nariz para o casal, ainda seja possível reconhecer seus bons momentos. Resta saber se essa trama agora acabou (oremos!) ou se Daya será punida por ter dito a verdade.

– Morello e a arte de resumir hilariamente o significado da mudança na cozinha: “Que pena. Eu gostava de comer. Fazia parte da minha rotina diária.”

– Tenho negligenciado Sophia aqui nas reviews porque suas participações seguem bastante discretas, mas achei muito interessante toda a história envolvendo a trans, Gloria e o dilema de ambas em relação à criação dos filhos. No fim das contas, elas estão em situações mais semelhantes do que haviam percebido.

– Sumiram com Miss Claudette, Fischer, Pornstache, Nicky, Bennett, Alex está correndo perigo… mas com o insuportável do Healy ninguém some. É ou não é pra pensar em como o mundo é injusto?

– Tem como uma série ficar mais metalinguística do que com uma trama como a de Crazy Eyes desesperada com as detentas à sua volta implorando por spoilers e tentando mandar nos futuros acontecimentos da sua obra?

– Poussey é ou não é a alma mais pura dessa prisão, gente? Tudo bem que esse arco está bastante arrastado e, por isso, dando uma certa preguiça, mas o medo de não encontrar o amor é tão legítimo e faz tanto sentido dentro do desenvolvimento da personagem que não há como não empatizar com ela, com ou sem ajuda do roteiro.

– Eu definitivamente assistiria a um spin-off de 20 minutos intitulado “As aventuras de Pennsy e seu furgão”, e vocês?

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.