Duas festas e um funeral bastante incomuns.
ROBERT LAMAR GIFFIN (1955-2003)
Se é verdade que as mais marcantes deceased scenes de abertura dos episódios de Six Feet Under são aquelas repentinas e chocantes, Nobody Sleeps traz uma bela cena inicial, marcada pela singeleza. Um homem gay, doente terminal (e não é AIDS!), repousa definitivamente no ombro de seu companheiro, enquanto assiste a um filme junto com seus amigos em um clima de diversão, assistindo um filme antigo. É chover no molhado apontar o quanto Six Feet Under contribuiu para visibilidade da homossexualidade na dramaturgia, mas talvez seu maior mérito seja o realismo latente e desmistificador de sua abordagem sobre o tema. E isto não é visto tão somente com os plots de David e Keith, mas recebeu especial ênfase na trama de Nobody Sleeps.
Kevin, o companheiro de Robert, decide homenageá-lo, projetando um cenário de ópera para seu funeral: Turandot, de Puccini – para ser mais específico. A irreverência (com direito à azarada no rapaz que trabalhava no cenário) e a alegria de Kevin, ainda em meio ao luto, celebrando o amor de sua vida (todo o discurso sobre eles serem sobreviventes à era da AIDS, nos anos 80, é bem tocante) e o quanto ele era grato por jamais imaginar que teria um relacionamento assim foram fatores extremamente mobilizadores para os sócios da Fisher & Díaz.
David é quem mais se identifica com Kevin e Robert, permitindo imediatamente o incomum pedido para o funeral. Ouvir de Kevin que a longevidade de 22 anos do relacionamento dele não significava exclusividade sexual foi algo incômodo, mas todo o companheirismo e afeto entre eles foram automaticamente contrastados por David com a crise crônica em que ele e Keith se encontram. Entendo diversas das críticas e antipatias a Keith, mas eu realmente consigo me simpatizar com o personagem. Ele aguentou por diversas vezes as consequências da indecisão de David lá na primeira temporada. Além disso, em uma relação amorosa, é muito difícil haver um lado inquestionavelmente certo e outro errado: diversas das queixas de Keith sobre a personalidade cuidadora/controladora de David são perfeitamente compreensíveis, posto que absolutamente realistas. Fato é que, como mencionado acima, o casal David e Keith traz lições hiperverdadeiras para casais homossexuais e heterossexuais sobre a difícil arte de se relacionar.
Rico e sua homofobia são uma tecla constantemente batida, sem que tenhamos chegado ainda ao ponto de desenvolvimento do personagem pretendido pelo roteiro. Quando esse plot se evidenciou na temporada passada com o primo Ramón, foi algo interessante. Aqui aproveitamos este plot apenas como escada para Michael C. Hall brilhar com as piadas “abusadas” sobre a ingenuidade de Nico sobre assuntos básicos, como depilação dos genitais masculinos. Entretanto, Rico ainda precisa aprender bastante sobre os meandros da alma humana, que vão muito além de sua visão de mundo tacanha.
O questionamento sobre a possibilidade de a monogamia dar certo não ficaram apenas na cabeça de David. Embora Nate esteja recalcando totalmente a sua insatisfação com essa brincadeirinha de papai-e-mamãe em que ele se meteu, não tem jeito. Titio Freud bem já avisou que tudo que é recalcado dá um jeito de voltar. O sonho (pesadelo?) dele expressando ~mixed feelings~ entre ele e Lisa/Ruth foi sensacional e revelador – só perdendo em genialidade para a cena em que ambas estão na pia, lado-a-lado e se viram para ele. É também chover no molhado que Nate e Lisa não dão certo. E foram “feitos” para não dar certo.
É chegado o aniversário de Ruth e Lisa encasqueta de fazer um jantar para agradar a sogrinha. Não que Ruth não mereça, mas tradicionalmente ela (indulgente com sua vaidade) não comemora aniversários. Lisa incomoda a todos com sua insistência, ainda que Ruth aquiesça. O resultado é mais um dos jantares memoravelmente inusitados dos Fisher, graças à etílica ousadia dos “forasteiros”: Keith e Bettina [I love you, Kathy Bates!]. Uma verdadeira festa catártica, com direito à nora fazendo massagem nos pés da sogra. Somente Six Feet Under consegue extrair poesia da bizarrice de forma tão orgânica e genial…
Todo mundo se esbaldou na festa, exceto Nate – que após adormecer, tem outro sonho revelador: desta vez, com Nathaniel, no qual Nate se defronta que a figura paterna de quem ele tanto procurou fugir está cada vez mais entranhada no seu ser.
Apenas Claire esteve ausente na celebração do aniversário da mãe. Uma ausência mais do que justificada, já que Olivier convidou Russell e ela, seus pupilos favoritos, para um jantar com Scott, um artista afetado e com um ego infladíssimo. Claire obtém deles um vaticínio acerca de seu talento que a faz “vislumbrar aquilo que pode vir a ser”. Passada a fase de libertação de seus demônios interiores, Claire está vivendo a liberdade e a abertura para o novo. É maravilhoso acompanhar essa jornada de Claire.
Por sua vez, Russell enfim diz a que veio, de uma forma bastante incomum – toda a timidez do rapaz contrastou com a intempestiva confrontação da impressão de Claire sobre sua orientação sexual. Evidentemente que o companheirismo entre eles e todas as discussões sobre arte e sobre a vida são o solo fértil para um romance entre eles, ainda que não tenhamos passos explícitos em direção a isto.
Nobody Sleeps termina emocionantemente no dia seguinte a essa noite em que “ninguém dormiu”. Claire chega em casa e encontra Ruth arrumando a casa pós-festa. Ambas extasiadas consigo próprias e com seus “novos eus” que estão descobrindo. Após o convite de Claire para ir a um museu, Ruth permanece em sua atividade diária – a faxina. Mas em seguida aceita o convite, numa bela alusão de que a Ruth da noite anterior permanece, se estabelecendo gradativamente – como o é toda a reconstrução pessoal (muito bem-vinda, no caso das ladies Fisher).
RIP 1: Durante o funeral, é cantada uma famosa ária da ópera Turandot, chamada Nessum Dorma, que em italiano significa ”ninguém durma”… Daí o título do episódio!
RIP 2: O filme que o grupo de homens gays assiste na cena inicial é The Bad Seed (A Tara Maldita), de 1956.
RIP 3: Desde que deixou a polícia, Keith se tornou um seriemaníaco. Já o vimos assistindo Cheers e hoje ele foi para a maratona de Baywatch. Já David prefere as adaptações pornô de clássicos do cinema, como The Gaytrix…














