Por que dizer sim à Grace and Frankie?
Aproveitando a noite do sim (que eu já decidi adotar em minha vida), resolvi listar os motivos que me fizeram abraçar a série para convencer aqueles que talvez estejam em dúvida sobre começar — ou somente para celebrar com todas as pessoas que não só decoraram as qualidades da série, como também estão ansiosas para a já confirmada segunda temporada. Nesse episódio, que exemplifica muito bem as razões para dizer sim à série, às vésperas da season finale, temos mais que um penúltimo episódio divertido: temos um episódio que justifica uma consolidação tão bem trabalhada até aqui. Resolvi listar somente cinco motivos, mas sei que a maior parte daqueles que me lerem se lembrará de pelo menos mais cinco. Sem problemas: vamos começar um diálogo. Antes que eu recorra às linhas recorrentes para desviar do tema principal, vamos à lista:
História. Não só a trama principal da série é interessante, como as que decorrem de seu acontecimento. Ela é criativa, de um jeito que é tão difícil encontrar hoje em dia, mas não bizarra. Por mais estranho que soe o fato que desencadeia a trama e acaba com dois casamentos, não podemos deixar de negar como ele é engenhoso. Ter um casal homossexual no quarteto principal e a ausência de um casal hetero nele provam o quanto a série é contemporânea e inovadora. A tevê, como eu disse em outro texto, não valoriza os atores mais maduros como deveria. Jane Fonda deu uma entrevista sobre isso esses dias, apontando como sente que a idade a faz desaparecer aos olhos dos produtores. Tivemos um episódio falando sobre isso, então está aí um motivo dentro do motivo para aqueles que gostam de intrigas no meio streaming-televiso. Falando no meio, fica evidente que toda liberdade que Grace and Frankie tem se deve à forma como é concebida. Na tevê aberta americana não teríamos sequer um traço daquilo que desfrutamos em maratona. Como eu sempre digo às pessoas que eu conheço, criar uma história intrigante não é difícil. Claro que não! A tarefa difícil é saber dar seguimento. Por isso que todos os anos vemos diversas séries com sinopse sensacional (e trailer mais bacana ainda), mas que não decolam porque os roteiristas não sabem dar seguimento à ideia maravilhosa que tiveram. A produção não sofre desse mal: não só o jeito bizarro como a relação das duas protagonistas é rompida é interessante, mas a reconstrução da vida delas também. A relação de Sol e Robert também, usada muitas vezes para levantar questionamentos válidos, em vez de decorá-los como um casal fofo ou atribuir-lhes a missão de chatos do elenco.
Roteiro. Esse motivo conversa diretamente com o primeiro. Não é fácil ter um bom roteiro, assim como não é fácil encontrar alguém que pare para reparar no roteiro de um episódio. Analisando friamente, o roteiro de Grace and Frankie é bem escrito. Os diálogos são bons (por mais bizarros que sejam), as cenas são bem pensadas e o desenrolar de algumas subtramas nos pegam de surpresa. Trazer essa conversa entre gerações da forma que a série propõe, inserindo o idoso nos truques e vazios da modernidade, só é possível graças ao texto. Em “The Bachelor Party” tivemos um bom exemplo disso. Qual era a probabilidade que essa história de dizer sim tivesse dado errado? O pensamento nunca está em deixar suas personagens em cenas de vergonha alheia (por mais que isso surja muito), mas em trazer algo que acrescente à trama, ou a nós. Além disso, toda a primeira temporada foi bem planejada: cada episódio é um novo passo no desenvolvimento das personagens, ou da própria história. Ficamos rapidamente despreocupados com não chegarmos ao fim de alguma coisa. Três episódios já são suficientes para percebermos que há algo nos esperando; haverá conclusão.
Humor. Sim, os motivos estão interligados entre si — como não poderiam? Série de comédia precisa fazer rir. Mas fazer rir em um episódio e cansar a própria fórmula no seguinte é o que acontece com muitas comédias. Humor é algo que precisa ser construído. Humor elogiável é aquele que acontece mesmo na ausência de palavras. O silêncio também é engraçado. Grace and Frankie não tem um humor que agradará a todos, mas o esforço do roteiro e o bom casamento entre texto e atuação funcionam bem com o público a qual estão destinados.
Personagens. Não coloquei Brianna como motivo porque achei que todas as personagens merecem menção. As personagens aqui não são variações uma das outras, não as confundimos, não as trocamos. Algumas séries têm uma mesma personagem refletida em diversas facetas e atuada por diversos atores. Em Grace and Frankie, entretanto, sabemos detalhadamente a diferença nas características pessoais de cada um, como se os conhecêssemos. Elas são bem escritas — e, acredite, desenvolver um personagem não é fácil. Mesmo as personagens secundárias têm uma trama para si, demonstrando a preocupação do roteiro em desenvolver uma saga para todos. Frankie busca independência, Grace se liberta de suas concepções de relacionamento, mas os outros não estão por perto apenas para preencher os cenários. Não que eu concorde com todos os recursos para lhes dar destaque, mas reconheço a importância que isso tem.
Atores. Talvez o motivo mais atraente no fim das contas. Tem Jane Fonda, Goddamnit! Mas só elogiá-la seria ser injusto com o trabalho maravilhoso que o elenco todo desenvolve. Como muito do humor não está nas palavras, mas nas expressões, é bom ver essa tarefa sendo entregue a profissionais tão competentes e experientes, que quase brincam na hora de atuar. Lily Tomlin está sempre tão confortável em seu papel que é até estranho não a chamar de Frankie. Nesse episódio, por exemplo, quando precisa invocar o passado da personagem, ela faz isso de maneira tão crível que é difícil não se deixar enganar. Parece que a atriz dá vida a Frankie há mais tempo que somente doze episódios de meia hora.
Se os cinco motivos não são suficientes, vou dizer que há uma despedida de solteiro com um pênis-touro-mecânico e Grace e Frankie dançando em cima de um balcão lá pelo episódio doze. É motivo o bastante para assistir a um episódio, ou devorar uma maratona. Foi motivo suficiente para arrastar milhares de fãs, mesmo sem divulgação, em uma onda que me levou junto. Com Miley Cyrus e tudo!






















