Estrelando Deus.

Happyish coloca Deus para estrelar, e seu texto trabalha em cima das heresias e medos de suas personagens. Enquanto lida com a possibilidade (ou a obsessão) da morte, Thom Payne encara novamente a metamorfose pela qual sua companhia, e o mundo ao redor passam. Por mais que lute, ele já entendeu como o jogo funciona e o cansaço de encarar essas batalhas começa a abater sobre si. O roteiro é exagerado e os diálogos (o monólogo inicial principalmente) têm uma agressividade com a qual nem todos poderão se identificar, mas ele ainda é o forte da série. A conversa entre o apelo visual e a acidez do humor funciona muito bem. Mesmo que a fórmula não seja inédita, ainda assim, rende momentos e ideias criativas, desenvolvidas muito bem no caótico mundo em que a produção se passa.

A trama com a doença do filho é meio óbvia porque sabemos que não levará a lugar algum, além dos questionamentos sobre a vida e blasfêmias que o protagonista tanto gosta de gritar. O mergulho que damos na cabeça de dois pais preocupados com o bem-estar do filho, entretanto, é muito interessante, levando-nos a nos perguntar se esses pensamentos fúnebres realmente passam pela mente deles — e provavelmente passam, afinal, imaginar a morte é o passatempo de quase todo ser humano, mesmo que não saibamos muito sobre ela, além de sua eterna existência que torna a nossa breve. Ainda assim, tão desprovidos de conhecimento ao seu respeito, não deixamos de comentar as mesmas frases, dividir os mesmos receios e nos entupir das mesmas bobas preocupações. Dividir o episódio conforme a febre aumentava foi bem peculiar, pois conseguimos encarar a mudança de comportamento que ocorreu no casal conforme a segurança do garoto ficava cada vez mais em cheque. O surto de Lee, já esperado, é um ótimo momento. Ela leva ao mais profundo possível aquilo que lhe asseguram ser passageiro, dando-lhe de graça um momento vergonha alheia que é sentido até por nós.

Aliás, ressalto novamente a alegria que é ver a série lhe dando tanto espaço. Kathryn Hahn está fazendo um ótimo trabalho incorporando tão bem essa mulher excêntrica que no fundo é como todas as mães do mundo. O desempenho da atriz casa muito bem com a proposta da série e seu humor frio. Nesse contexto, muitos atores talvez errassem o tom sugerido pela produção, mas ela consegue acertá-lo e trazer sua contribuição para o desenvolvimento de sua personagem. A química com Steve Payne, que parece interpretar ele mesmo, é inegável. A dupla funciona muito bem mesmo quando não estão dividindo a mesma cena, formando quase um complemento um do outro. A ideia deles como casal é crível o bastante para despertar nossa empatia.

Dando um novo murro em ponta de faca, Thom faz uma nova tentativa para convencer as pessoas que seu modo de pensar é correto, por mais que já tenha percebido que o mundo mudou ao seu redor. Happyish não se preocupa em ser fantasiosa e feliz (que ironia), então logo destrói as esperanças que ele e nós possamos criar depois desses discursos muito enfeitados. A série não se preocupa em ser moralista, em ensinar-nos lições, sempre regressando para seu clima pessimista e cético. Tudo sempre acaba em deboche por aqui, o que mais soa como alívio do que como insatisfatório. Ser fiel ao próprio conceito não é fácil, e não é difícil cair em contradição ao mostrar coisas diferentes entre a abertura e o fechamento, mas isso é algo que não ocorre. A produção quer que seu deboche com a sociedade e nossa modernidade esteja desde os seus primeiros minutos até a música de fechamento.

Nils Lawton assume de vez o papel de babaca que a história lhe cabe, sendo aquele vilão de comédia tão esquecível quanto se poderia esperar. Uma pena que a vontade de Happyish seja trabalhar essas rivalidades de colegial no meio corporativo quando há tantas outras coisas interessantes para se mostrar. Esse contraste entre a geração nova e sua ansiedade, seu desleixo e seu vazio, poderia ser feito de forma mais sutil e imparcial, atribuindo-lhe os defeitos e qualidades que somem diante dessa visão subjetiva e nada confiável. Assistir ao protagonista derramar café em cima do sofá como vingança pode até ser divertido, mas martelar suas caretas diante dos companheiros de trabalho durante toda a temporada se torna cansativo em algum ponto.

As cenas mais marcantes não estão nessa dinâmica estabelecida entre Thom e seu grupo, mas em suas conversas consigo mesmo. É o ponto de encontro entre nossas reflexões e os pensamentos da série. A série quer nos alcançar, transbordar as ideias para fora de si, e consegue. Sem perceber, flagramo-nos respondendo à falta de otimismo dele. Sem perceber, flagramo-nos esperando o próximo episódio para debatermos mais uma vez sobre o quão estranha é essa sociedade que ridiculariza a si mesma.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.