Depois de uma batalha (ou um massacre, se preferir) muito contestada, a Batalha das Séries retorna para exibir mais um confronto. Dessa vez, duas (mega) séries de canais pagos americanos estão no páreo: a polêmica Californication, do canal Showtime, enfrenta Rescue Me, do canal FX, a “dramédia” politicamente incorreta.

Sem mais delongas, comecemos:

Protagonistas

As duas séries encontram sua principal força em seus protagonistas: em Californication, temos Hank Moody, o escritor que vive se enfiando em todo o tipo de situação conflituosa, enquanto tenta não desapontar sua filha e reconquistar sua amada Karen. Hank não é um exemplo de bom cidadão, nem tenta ser, como podemos constatar com o modo cínico e despretensioso pelo qual ele enxerga a vida. Em Rescue Me, nada muito diferente, já que o bombeiro Tommy Gavin é um indivíduo perturbado e com problemas suficientes para vender, doar e ainda assim conseguir ter um estoque razoável deles. Assim como Hank, Tommy tenta conciliar sua vida profissional com a pessoal, tentando manter um mínimo de coesão familiar que seja possível. Em geral, vê tudo desabar como consequência aos seus atos, da mesma forma como Hank.

É inegável que os astros que os interpretam são os maiores responsáveis pelo  brilhantismo de ambos: David Duchovny (Hank) e Denis Leary (Tommy) são excelentes atores e conseguem como poucos, transmitir o que seus personagens sentem. Eles encarnam de tal maneira seus papéis que é difícil não crer que não há nada de verdadeiro ou característico deles ali, naqueles indivíduos tão marcantes e controversos.

Por serem similares não só pelo modo de agir, mas também pela personalidade e maneira de pensar, e por serem os pilares de sustentação de suas respectivas séries, temos um empate técnico nesse quesito. Então, ninguém marca nada.

História/Desenvolvimento

Spoilers Abaixo:

A premissa de Rescue Me era contar a história de vida dos bombeiros do batalhão 62 poucos anos após o fatídico 11 de Setembro de 2001, na cidade de Nova York. Mostrar suas dificuldades pessoais, dramas, dúvidas, conflitos, e a maneira de cada um em lidar com tudo isso, além do dia-a-dia da vida de um bombeiro numa das maiores cidades do mundo. A série consegue ser uma mistura eficiente de humor politicamente incorreto com um drama muito pesado. Méritos para os roteiristas que souberam conduzir Rescue Me muito bem até o momento, e o elenco que soube ser bem versátil e atrativo nas cinco temporadas exibidas até o momento. Vimos de tudo nestes anos: brigas, mortes, assassinatos, suicídios, (muito) sexo, ato de heroísmo, momentos de loucura etc. O mais interessante na série é como grande parte dos seus personagens conseguem ser atraentes ao público, predominantemente masculino. Conseguindo, dessa forma, ora nos divertir e ora nos sentir triste por eles.

Californication é uma incógnita até hoje para mim. Se não me engano, comecei a assistir a série, logo quando estreou, mais pela apelação sexual dos primeiros episódios do que por interesse na história de fato. A história de um escritor desajustado se metendo em todo tipo de problema não teria me chamado a atenção se não tivesse sido pelas cenas de sexo. Em três temporadas, os que acompanharam até aqui, viram Hank lutar para juntar a família, vê-la separada por situações fora do seu poder de alcance, e novamente assisti-lo destruir tudo que havia conquistado até o momento. Um tanto quanto circular, não acham? Pensem: o que de fato Hank conquistou ou evoluiu nessas temporadas? Eu não sei responder. Na verdade, eu sei. É que é difícil admitir que nada se acrescentou de concreto a história em todo esse tempo.

No comparativo com Tommy, até nisso vemos uma diferença: este já desistiu de lutar pela esposa porque sabe que esta é uma vadia. Desistiu de lutar contra o álcool porque este o ajuda a esquecer dos problemas que o cercam. Conformou-se com o que é e tenta viver assim. Hank, por sua vez, tenta se convencer que precisa ser algo que não é, e acaba pagando um preço muito alto por isso.

Posto isto, na minha modestíssima opinião, por ter avançado ao seu modo na história, temos assim uma apertada vitória de Rescue Me.

Elenco

Posso adiantar de bate pronto que a vitória é de Rescue Me. Uma coisa interessante na série é como todos os seus personagens (o que estão vivos, “semi-vivos” e os que morreram) contribuíram cada um de certa forma com o desenvolvimento da história. Seja aqueles que vieram a falecer sem deixar saudades ou aqueles que sentimos que não era a hora de partir, ou por meio das mulheres infernais que vivem aterrorizando os bombeiros da série (especialmente Tommy), Rescue Me contou com um elenco que soube ser marcante para o bem ou para o mal. Pais, irmãos, primos, esposas, namoradas, filhas e filhos deixaram marcas com seus papéis.

Mas a superioridade de Rescue Me sobre Californication reside sobre os personagens que realmente importam na série: os bombeiros. Os atores liderados por Denis Leary, como John Scurti (Ten. Kenny Shea), Daniel Sunjata (Franco), Steven Pasquale (Sean), Michael Lombardi (Mike) e Larenz Tate (“Black Shawn”) são o símbolo maior do espírito de coletividade tão comum em trabalhos como a polícia e os bombeiros. Separadamente, os atores são no máximo razoáveis ou satisfatórios, mas é como grupo que eles se destacam, seja quase nos matando de tanto rir ou nos emocionando com os problemas que enfrentam em seus dias maçantes de trabalho.

Californication, obviamente, conta com um bom elenco, além de boas participações especiais, mas (isso é algo para se avaliar com cuidado) David Duchovny engole todos que estão em cena. É incrível a sensação de que tudo gira em torno dele e para ele. Os demais atores, por melhores que sejam, são diminuídos quando tem que dividir a tela com o astro da série, o que não ocorre com Denis Leary em Rescue Me.

Veredito

Por um total de 2 a 0, o vencedor desta Batalha das Séries foi Rescue Me. Californication é uma boa série, sem dúvida, tanto que assisto religiosamente os episódios que são disponibilizados, mas neste confronto direto, pelos motivos acima mencionados, sou mais Rescue Me.

P.S: E para você, leitor: Quem é melhor e por qual motivo? Opine e discuta. Respeitando sempre as opiniões dos outros.

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